
 ENCANTADO
  (Charmed)

  Nora Roberts

FAMLIA DONOVAN 03

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    Digitalizado por Odinia


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    Resumo:

    A enigmtica curandeira Anastcia Donovan faria qualquer coisa para salvar a vida da filha do atraente Boone Sawyer! Mesmo que isso significasse ter de revelar
seu segredo ao homem que conquistara seu corao.




    PRLOGO


    A mgica existe. Quem pode duvidar disso quando existem arco-ris e flores do campo, a msica do vento e o silncio das estrelas? Qualquer um que tenha amado
j foi tocado pela magia.  uma parte to simples e to extraordinria da vida de todos ns.
    H aqueles aos quais foi dado mais, que foram escolhidos para levar adiante um legado atravs dos tempos imemoriais. Seus antepassados foram o feiticeiro Merlin, 
a bruxa Ninian, Rhiannon, a princesa das fadas, o Wegewarte da Alemanha e os djims rabes. Atravs do sangue de todos eles percorria o poder de Finn dos Celtas, 
do ambicioso Morgan le Fay e outros cujos nomes eram apenas sussurrados nas sombras e em segredo.
    Quando o mundo era novo e a magia to comum quanto uma gota de chuva, as fadas danavam nas florestas profundas e, s vezes por travessura, s vezes por amor, 
juntavam-se aos mortais.
    E ainda fazem isso.
    Sua descendncia era remota. Seu poder era antigo. Mesmo quando criana Anastsia havia entendido, e fora ensinada, que tais dons cobravam o seu preo. Seus 
pais que a adoravam no podiam diminuir esse custo, nem tampouco pag-lo por ela, mas podiam somente amar, instruir e observar enquanto a jovem transformava-se numa 
adulta. Podiam apenas manter-se ao lado dela e esperar que ela experimentasse as dores e as alegrias da mais fascinante das jornadas.
    E, porque sentia mais do que os outros, porque seu dom exigia que sentisse mais, ela aprendeu a valorizar a paz. Como mulher, preferia uma vida tranqila e, 
freqentemente, estava sozinha sem sofrer de solido.
    Como feiticeira, aceitava seu dom e jamais esquecia a responsabilidade a ele vinculada.
    Talvez Anastsia ansiasse, como os mortais e os outros tinham ansiado desde o incio, por um amor verdadeiro e duradouro. Pois ela sabia, melhor do que ningum, 
que no havia poder, nem encantamento e muito menos feitiaria maiores do que o dom de um corao aberto e dedicado.
    
    
    CAPTULO 1
    
    Quando Anastsia viu a menina espiando atravs das delicadas rosas, no imaginou que aquela criana mudaria sua vida. Ela estivera cantarolando baixinho, como 
sempre fazia quando cuidava do jardim, adorando o perfume da terra e a sensao de t-la escorrendo por entre os dedos. O quente sol de setembro estava dourado, 
e o barulho constante das ondas batendo nas rochas, logo abaixo do seu quintal em declive, formava um adorvel pano de fundo para o zunir das abelhas e o trinar 
dos pssaros. Seu comprido gato cinzento estava dormindo ao lado dela, a cauda contorcendo-se de vez em quando, por algum sonho felino.
    Uma borboleta pousou silenciosamente em sua mo e Anastsia afagou a beirada da asas azuis com a ponta do dedo. E no instante em que ela esvoaou, Ana ouviu 
o rudo. Olhando para cima, viu um rosto espiando pela cerca de rosinhas.
    O sorriso de Ana surgiu rpido, natural. O rostinho era encantador, com o queixo empinado e o narizinho arrebitado, os grandes olhos azuis refletindo a cor do 
cu. Os cabelos castanhos e brilhantes como os de uma fada completavam o quadro.
    A menina sorriu de volta, os olhos de cu de vero repletos de curiosidade e travessura.
    - Ol - Ana cumprimentou como se sempre encontrasse garotinhas no meio de suas rosas.
    - Oi! - A voz da menina era clara e um tanto ofegante. - Voc consegue pegar borboletas na mo? Eu nunca consegui agradar um bichinho como este.
    - Acho que sim. Mas talvez seja falta de educao tentar sem que elas nos convidem.
    A menina afastou os cabelos da testa e sentou apoiando-se nos calcanhares. Ana havia reparado num caminho de mudana no dia anterior, e concluiu que estava 
conhecendo um de seus novos vizinhos.
    - Voc mudou para a casa aqui ao lado?
    - Hu-hum. Ns vamos morar aqui, agora. Eu gosto, porque  s olhar pela janela do meu quarto para ver o mar. Vi uma foca, sabia? Em Indiana, a gente s v as 
focas no zoolgico. Posso chegar perto de voc?
    -  claro que sim. - Ana deixou a pazinha de jardim no cho enquanto a menina passava pelas roseiras. Nos braos, trazia um relutante filhote de cachorro. - 
E quem  que temos aqui?
    - Esta  Daisy. - A garotinha pressionou um beijo carinhoso na cabea do filhote. -  da raa retriever, de ces de caa. Eu mesma a escolhi, um pouco antes 
de irmos embora de Indiana. Ela teve de vir com a gente no avio, mas no ficamos com medo nem nada. Eu tenho de cuidar bem dela, dar comida e gua e escov-la, 
porque ela  responsabilidade minha.
    -  muito bonita - Ana falou, com expresso sria. E devia ser bem pesada, imaginou, para uma menininha de cinco ou seis anos. Estendeu os braos. - Posso segur-la 
um pouco?
    - Voc gosta de cachorros? - a menina continuou tagarelando, enquanto lhe passava Daisy. - Eu gosto. Gosto de gatos, de tudo. At dos hamsters de Billy Walker. 
Algum dia vou ter um cavalo, tambm. Ns vamos pensar nisso.  o que o meu pai fala. "Ns vamos pensar nisso."
    Encantada, Ana afagou o filhote enquanto este a cheirava e lambia. A criana era to doce quanto um raio de sol.
    - Eu gosto muito de cachorros, gatos, de todos os bichos - Ana falou. - Meu primo tem alguns cavalos. Dois grandes e um filhote bem novinho.
    -  mesmo? - A menina abaixou-se e comeou a afagar o gato adormecido. - Ser que eu posso v-los?
    - Ele no mora muito longe daqui, portanto algum dia eu levo voc. Mas ter de pedir permisso aos seus pais.
    - Minha me foi para o cu. Agora ela  um anjo.
    Ana sentiu um aperto no corao. Estendendo o brao, tocou os cabelos sedosos da menina e abriu-se. No havia dor ali, e isso foi um alvio. As lembranas eram 
boas. Sob seu toque, a menina ergueu os olhos e sorriu.
    - Meu nome  Jssica - disse. - Mas voc pode me chamar de Jessie.
    - E o meu  Anastsia. - Achando impossvel resistir, Ana inclinou-se e beijou a ponta do narizinho arrebitado. - Mas pode me chamar de Ana.
    Feitas as apresentaes, Jessie acomodou-se e passou a bombardear Ana com perguntas, filtrando as informaes sobre si mesma no decorrer da conversa animada. 
Acabara de fazer aniversrio e tinha seis anos. Iria comear a primeira srie na nova escola naquela tera-feira. A cor que mais gostava era o roxo, e a coisa que 
mais detestava na vida era feijo.
    Ana podia lhe ensinar a plantar flores? Como era o nome do gato? Ela tinha alguma filha? Por que no?
    Assim, ficaram sentadas sob o sol, uma garotinha linda e travessa usando um macaco cor-de-rosa e a mulher de short com as pernas bronzeadas sujas de terra, 
enquanto Quigley, o gato, ignorava as tentativas de brincadeira de Daisy, a cachorrinha.
    Os cabelos longos e loiros de Ana estavam amarrados na altura do pescoo, sem muito cuidado, e de vez em quando uma mecha escapava da fita para danar em torno 
do seu rosto. Ela no usava nenhum tipo de maquiagem. Sua beleza frgil e encantadora era to natural quanto seu poder, uma combinao de feies celtas, olhos enevoados, 
os lbios cheios e poeticamente esculpidos dos Donovan, e algo mais nebuloso. Seu rosto era o espelho do seu corao generoso.
    O filhote adiantou-se para cheirar as ervas no canteiro. Ana riu de alguma coisa que Jssica falou.
    - Jessie! - A voz ressoou por cima do cercado de rosas, profundamente masculina e com um toque de exasperada preocupao. - Jssica Alice Sawyer!
    - Epa! Ele falou meu nome inteiro. - Mas os olhos da menina brilhavam quando ela ficou de p num salto. Era bvio que no tinha muito medo de repreenses. - 
Estou aqui! Papai, estou aqui com Ana! Venha ver!
    No instante seguinte havia um homem olhando por cima das roseiras. Nem sequer seria necessrio ter um dom para se detectar as ondas de frustrao, alvio e irritao. 
Ana piscou, surpresa por aquele homem sisudo ser o pai daquela fadinha que, no momento, pulava e sacudia-se ao seu lado.
    Talvez fosse a barba de um ou dos dias que o fazia parecer to perigoso, pensou. Porm, duvidava disso. Sob a sombra escura da barba havia um rosto de traos 
firmes e angulosos, e os lbios cheios pressionados numa linha zangada. Apenas os olhos eram como os da filha, claros, de um azul brilhante, desfigurados agora pela 
expresso de impacincia. O sol formava reflexos vermelhos nos cabelos escuros, despenteados como se ele tivesse passado os dedos nervosos.
    De seu canto no jardim, ele parecia enorme. Tinha um corpo atltico e desconcertantemente forte, usando uma camiseta velha e cala jeans com as barras desfiadas.
    Ele lanou um olhar longo, irritado e indubitavelmente desconfiado para Ana, antes de voltar a ateno para a filha.
    - Jssica, eu no lhe disse para ficar no quintal?!
    - Acho que sim. - A menina sorriu, triunfante. - Daisy e eu escutamos Ana cantar e, quando olhamos, ela estava segurando uma borboleta na mo. E ela disse que 
eu podia entrar. Ela tem um gato, est vendo? E o primo dela tem cavalos, e a outra prima tem um gato e um cachorro.
    Obviamente acostumado  tagarelice da filha, o pai esperou.
    - Quando eu lhe digo para ficar no quintal e voc no obedece, eu fico preocupado.
    Foi uma afirmao simples, feita num tom normal. Ana teve de respeitar o fato de que o homem no precisou elevar a voz nem disparar ultimatos para mostrar que 
estava certo. Ela sentiu-se to repreendida quanto Jessie.
    - Desculpe-me, papai - Jessie murmurou, fazendo um beicinho.
    - Eu tambm lhe devo desculpas, sr. Sawyer. - Ana levantou-se e pousou a mo no ombro de Jessie. Afinal, parecia que as duas estavam nisso juntas. - Eu realmente 
a convidei para entrar, e estava gostando tanto da companhia dela que no me ocorreu que voc no poderia v-la.
    O homem ficou em silncio por um instante, limitando-se a fit-la com aqueles olhos claros at que Ana sentiu um impulso de se encolher. Quando ele voltou os 
olhos novamente para a filha, Ana deu-se conta de que estivera prendendo flego.
    - Voc precisa levar Daisy para casa e aliment-la.
    - Est bem. - Jessie pegou o filhote relutante no colo, e parou quando o pai inclinou a cabea.
    - E tambm agradecer  senhora...
    - Senhorita - Ana corrigiu. - Donovan. Anastsia Donovan.
    - Bem, agradecer  srta. Donovan pela pacincia que teve com voc.
    - Obrigada por ter pacincia comigo - Jessie falou, num tom de gentileza bem praticada e enviando  Ana um olhar de conspirao. - Posso voltar aqui outra hora?
    - Espero que volte.
    Enquanto passava pela cerca de rosas, Jessie ofereceu um sorriso radioso ao pai.
    - Eu no queria deixar voc preocupado, papai. De verdade.
    Ele abaixou-se e deu-lhe uma torcidinha no nariz.
    - Sua pestinha. - Ana ouviu a riqueza do amor sob o tom exasperado.
    Com um risinho, Jessie correu pelo quintal, o filhotinho sacudindo-se em seus braos. O sorriso de Ana desapareceu no instante em que aqueles olhos azuis e frios 
voltaram-se para ela.
    -  uma criana absolutamente adorvel - Ana comeou, surpresa por ter de enxugar as palmas midas no seu short. - Peo desculpas por no ter-me certificado 
de que voc sabia onde ela estava, mas espero que permita que ela volte a me visitar.
    - No era responsabilidade sua. - A voz dele era calma, nem amigvel, nem antiptica. Ana teve a incmoda certeza de que estava sendo analisada, desde o alto 
da cabea at os tnis sujos de terra. - Jessie  uma criana naturalmente curiosa e amigvel. s vezes, at um pouco demais. Ela no sabe que, neste mundo, existem 
pessoas capazes de se aproveitar disso.
    Igualmente serena, Ana inclinou a cabea.
    - Concordo plenamente, sr. Sawyer. Porm, posso assegurar-lhe que raramente devoro criancinhas no caf da manh.
    Ele sorriu, um lento curvar dos lbios que apagou a dureza da fisionomia e substituiu-a por uma beleza devastadora.
    - No h dvidas de que voc no combina com a imagem que fao de um ogre, srta. Donovan. Agora, sou eu quem pede desculpas por ter sido to rspido. Jessie 
me deu um susto daqueles. Mal comecei a desempacotar a mudana e j pensei que havia perdido a minha filha.
    - No sabia onde ela estava,  diferente. - Ana tentou outro sorriso cauteloso. Olhou por cima do ombro dele para o sobrado de madeira no outro lado da cerca, 
com as janelas largas e o amplo terrao. Embora gostasse de sua privacidade, ficou contente porque a casa vizinha no permanecera vazia por muito tempo. -  bom 
ter uma criana por perto, especialmente sendo to divertida quanto Jessie. Realmente espero que permita que ela venha me visitar de vez em quando.
    - Muitas vezes me pergunto se eu permito que ela faa qualquer coisa. - Ele passou o dedo por uma rosinha. - A no ser que voc levante um muro de dois metros 
aqui, ela vai voltar. - E pelo menos ele saberia onde procurar, se ela desaparecesse novamente. - No tenha medo de mand-la de volta para casa, quando ela abusar 
da sua hospitalidade. - Enfiou as mos nos bolsos. -  melhor verificar se ela no est dando o nosso jantar para Daisy.
    - Sr. Sawyer? - Ana falou, quando ele virou-se. - Seja bem-vindo a Monterey.
    - Obrigado. - Os passos largos levaram-no atravs do gramado, para o terrao e para dentro da casa. Ana ficou ali por mais algum tempo. No conseguia lembrar-se 
da ltima vez que o ar por ali agitara-se com tanta energia. Deixando escapar um longo suspiro, abaixou-se para recolher as ferramentas de jardinagem, enquanto Quigley 
enroscava-se em suas pernas.
    E, certamente, no conseguia lembrar-se da ltima vez que suas mos ficaram midas apenas porque um homem a olhara.
    De qualquer forma, nem sequer se lembrava de algum dia ter sido olhada daquele jeito. Olhada, observada e, analisada, tudo de uma s vez. Uma habilidade muito 
interessante, pensou enquanto levava as ferramentas para a estufa.
    Alis, pai e filha formavam um par muito interessante. Olhando atravs das paredes de vidro da estufa, Ana observou a casa localizada no centro do gramado vizinho. 
Como eram seus vizinhos mais prximos, refletiu, era natural que ela se sentisse curiosa a respeito deles. Ana tambm era sbia o bastante, e aprendera, por muitas 
e dolorosas experincias prprias, a ter cuidado para no deixar que suas reflexes a levassem a um envolvimento que ultrapassasse a amizade natural.
    Havia bem poucas e preciosas pessoas capazes de aceitar o que no pertencia ao mundo comum. O preo que tinha a pagar pelo seu dom era um corao vulnervel, 
e ela j sofrera muitas vezes sob a frieza da rejeio.
    Porm, ela no insistiu nisso. Na verdade, quando pensou no homem e na menina, Ana sorriu. O que ele teria feito, perguntou-se com um, risinho, se lhe dissesse 
que embora no fosse um ogre que devora criancinhas ela era, definitivamente, uma feiticeira.
    
    Na cozinha ensolarada e to desorganizada que at doa, Boone Sawyer vasculhou numa caixa at desencavar uma esptula. Sabia que a mudana para a Califrnia 
tinha sido positiva, mas certamente subestimara o tempo, o trabalho e a inconvenincia generalizada de empacotar uma casa inteira e depois desempacot-la em outro 
lugar.
    O que levar, o que deixar. Contratar a empresa de mudana, a transportadora que levaria o seu carro, carregar o filhote por quem Jessie se apaixonara. Justificar 
a deciso aos ansiosos avs dela, fazer a matrcula na escola, compras do material escolar... Deus, ele teria de passar por aquele pesadelo em todos os outonos, 
pelos prximos onze anos?
    Pelo menos o pior j passara. Ele esperava. Tudo o que tinha de fazer agora era esvaziar as caixas, encontrar um lugar para tudo e transformar uma casa estranha 
num lar.
    Jessie estava feliz. Isso era, e sempre fora, a coisa mais importante para ele. No entanto, refletiu enquanto cozinhava a carne para fazer um chili, Jessie estava 
feliz em qualquer lugar. Sua personalidade aberta e a notvel capacidade para fazer amigos eram tanto uma beno quando um motivo de surpresa. Boone sempre ficava 
espantado em ver que uma criana que perdera a me com a tenra idade de dois anos pudesse ser to intacta, to alegre e to completamente normal.
    E sabia que, se no fosse por Jessie, ele certamente teria enlouquecido quando Alice morrera.
    Boone j no pensava tanto em Alice, agora, e isso s vezes lhe provocava um sentimento de culpa. Ele a amara, Deus, ele a amara tanto, e a filha que tiveram 
era uma herana viva e palpitante deste amor. Porm, agora j fazia mais tempo que estava sem ela do que aquele que vivera com ela e, embora tentasse apegar-se  
tristeza como uma prova do amor que os.unia, ela aos poucos desaparecia sob as exigncias e presses da vida cotidiana.
    Alice se fora, mas Jessie; estava ali. E fora pensando neles que Boone tomara a difcil deciso de mudar-se para Monterey. Em Indiana, na casa que ele e Alice 
haviam comprado quando ela estava grvida, existiam demasiados laos com,o passado. Seus pais e os de Alice moravam perto, a uma distncia de dez,minutos de carro. 
Como nica neta de ambos os lados, Jessie se tornara o centro das atenes e o objeto de uma sutil competio.
    Quanto a ele, Boone estava cansado dos conselhos constantes e das crticas bondosas, e s vezes nem tanto, dos seus pais. E,  claro, os esforos que faziam 
para que ele tornasse a se casar. Uma criana precisa de uma me, diziam. Um homem precisa de uma esposa. Sua me havia decidido que seu objetivo de vida seria encontrar 
a mulher perfeita para preencher essas duas expectativas.
    Porque isso tudo j comeava a enfurec-lo, e porque percebera o quanto seria fcil continuar naquela casa e afundar-se nas lembranas que continha, ele decidira 
se mudar.
    Boone poderia trabalhar em qualquer lugar. Monterey havia sido a escolha final por causa do clima, do estilo de vida e das escolas. E, ele podia admitir em particular, 
porque alguma voz interior lhe dizia que aquele era o lugar certo. Para os dois.
    Gostava de poder olhar pela janela e ver o mar, ou aqueles ciprestes esculpidos de forma fascinante. Sem dvida, gostava de no estar cercado de vizinhos, pois 
era Alice quem adorava estar rodeada de gente. Boone tambm apreciava o fato de que a distncia da rodovia era grande o bastante para abafar o barulho do trfego.
    Simplesmente parecia que ali era o lugar certo. Jessie j comeava tomar posse dos arredores. Era verdade que sentira um instante de medo paralisante quando 
procurara por ela e no a encontrara em nenhum lugar. Porm, j deveria saber que ela encontraria algum para conversar, para encantar.
    E a mulher...
    Franzindo a testa, Boone tampou a panela e deixou o chili apurar. Aquilo fora muito estranho, pensou enquanto servia-se de uma xcara de caf e encaminhava-se 
para o terrao. Com um nico olhar para ela, soubera no mesmo instante que Jessie estava a salvo. No havia nada exceto bondade naqueles olhos esfumaados. E fora 
a reao dele, uma reao muito bsica e pessoal, que lhe enrijecera os msculos e enrouquecera a voz.
    Desejo. Um desejo sbito, doloroso e totalmente inesperado. No sentira este tipo de reao a uma mulher desde... Sorriu consigo mesmo. Desde nunca. Com Alice 
sempre fora um tipo de certeza tranqila, um doce e inevitvel encontro que ele sempre guardaria como um tesouro na memria.
    O que sentira h pouco, no entanto, fora como se estivesse sendo dragado por uma onda quando se est lutando para chegar  praia.
    Bem, j fazia bastante tempo, lembrou-se enquanto observava uma gaivota sobrevoar a gua. Uma reao normal a uma mulher bonita era facilmente justificada e 
explicada. E ela era bonita, de um jeito calmo, clssico, que era o oposto direto da sua reao to violenta. No podia deixar de ressentir-se por isso. Afinal, 
no tinha nem tempo nem vontade para qualquer tipo de reao a qualquer tipo de mulher.
    Ele tinha de pensar em Jessie.
    Enfiando a mo no bolso, pegou um cigarro e acendeu-o, mal reparando que seus olhos estavam fixos na cerca de rosinhas delicadas.
    Anastsia, pensou. O nome combinava com ela. Antiquado, elegante, diferente.
    - Papai!
    Boone levou um susto, sentindo-se to culpado quanto um adolescente apanhado fumando no banheiro da escola. Limpou a garganta e enviou um olhar envergonhado 
para a filha que o encarava.
    - Ora, d um tempo ao seu velho pai, Jessie. J diminu para meio mao por dia.
    Ela cruzou os braos.
    - Isso faz mal para voc. Deixa seus pulmes sujos.
    - Eu sei. - Boone jogou fora o cigarro, incapaz de dar ao menos uma ltima tragada quando aqueles olhinhos espertos o condenavam. - Vou parar de fumar, eu prometo.
    Jessie sorriu. Um sorriso to adulto e desconcertante que lhe dizia " claro que,sim", que ele enfiou as mos nos bolsos.
    - Me d uma folga, diretor - disse, numa passvel imitao de James Cagney. - O senhor no vai me mandar para a solitria s por causa de uma tragada.
    Rindo, e j o perdoando pela escapadela, Jessie foi abra-lo.
    - Voc  bobinho.
    - E... - Boone pegou-a pelos cotovelos e levantou-a para dar-lhe um sonoro beijo no rosto. - E voc  baixinha.
    - Um dia vou ficar to alta quanto voc. - Jessie enroscou as pernas em torno da cintura dele e deitou-se para trs, at que estivesse quase de ponta-cabea. 
Era uma de suas brincadeiras preferidas.
    - Duvido. - Ele segurou-a com firmeza, enquanto os cabelos dela tocavam o cho do terrao. - Eu sempre serei maior que voc. - Puxou-a para cima, erguendo-a 
para o alto at que ela gritasse, rindo. - E mais esperto, mais forte... - Roou a barba crescida na barriga dela, fazendo-a contorcer-se de riso. - E mais bonito.
    - E o que sente mais coceguinhas! - ela gritou em triunfo, fazendo-lhe ccegas nas costas.
    Ela o pegara. Boone deixou-se cair no banco do terrao, levando-a consigo.
    - Est bem! Est bem! Eu peo "gua"! - Retomou o flego e abraou-a. - Voc sempre ser mais rpida.
    Com o rostinho afogueado e os olhos brilhando, ela acomodou-se no colo dele.
    - Eu gosto da nossa casa nova.
    -  mesmo? - Boone afagou-lhe os cabelos, sempre adorando sentir a textura deles sob a mo. - Eu tambm.
    - Depois do jantar ns podemos ir at a praia para procurar focas?
    -  claro.
    - Daisy tambm pode?
    - Daisy tambm. - J tendo passado por experincias com "sujeirinhas" no tapete e meias mastigadas, ele olhou em volta. - Onde ela est?
    - Est tirando um cochilo. - Jessie recostou a cabea em seu peito. - Ela estava muito cansada.
    - No  para menos. Foi um dia agitado. - Sorrindo, Boone beijou a cabea da filha, sentindo-a bocejar e acalmar-se.
    - Meu dia preferido. Eu fiquei conhecendo Ana. - Porque seus olhos estavam pesados, ela fechou-os, embalada pelo bater do corao do seu pai. - Ela  boazinha. 
Vai me ensinar a plantar flores.
    - Hu-hum.
    - Ela sabe todos os nomes das flores. - Jessie bocejou novamente e, quando falou, a voz estava rouca de sono. - Daisy lambeu o rosto dela e ela nem se importou. 
S riu. Foi uma risada bonita, parecia de uma fada - Jessie murmurou, adormecendo.
    Boone tornou a sorrir. A imaginao da menina... Herana sua, gostava de pensar. Segurou-a delicadamente enquanto ela dormia.
    Estava inquieta, Ana pensou enquanto caminhava pela praia rochosa ao entardecer. Simplesmente no conseguia ficar dentro de casa, trabalhando com suas plantas 
e ervas, quando era atacada por aquela sensao de inquietude.
    A brisa a afastaria, decidiu, erguendo o rosto para o vento mido. Uma boa caminhada e logo encontraria novamente a satisfao, a paz que para ela era to vital 
quanto respirar.
    Em circunstncias diferentes, teria ligado para um dos primos e sugerido que sassem. Porm, imaginou que Morgana devia estar bem aconchegada ao lado de Nash. 
Naquele estgio da gravidez, precisava descansar bastante. E Sebastian ainda no voltara da lua-de-mel.
    No entanto, ela jamais se incomodara de ficar sozinha. Gostava da solido da praia comprida e curva, do barulho das ondas nas pedras, do riso das gaivotas.
    Da mesma forma que gostava do som de risos de uma criana e de um homem, que flutuaram no ar indo at ela, naquela tarde. Havia sido um som agradvel, do qual 
no precisava fazer parte; para gostar.
    Agora, quando o sol desmanchava-se no horizonte espalhando as cores pelo cu, Anastsia sentia a inquietao diminuindo. Como no poderia sentir-se bem ali, 
sozinha, admirando a magia de um dia descansando?
    Subiu num tronco abandonado na praia, perto o bastante da gua para que a umidade esfriasse seu rosto e molhasse sua saia. Distrada, tirou uma pedra do bolso, 
esfregando-a entre os dedos enquanto via o sol desaparecer sob o mar flamejante.
    A pedra aqueceu-se em sua mo. Ana olhou para a pequena gema transparente, com os veios perolados emitindo um leve brilho sob a luz difusa do sol poente. Pedra 
da lua, pensou, divertida consigo mesma. Magia lunar. Uma proteo para os viajantes noturnos, uma ajuda para a auto-anlise. E,  claro, um talism muito usado 
para promover o amor.
    E era isso que ela estava procurando naquela noite?
    No instante em que riu de si prpria e guardou o talism novamente no bolso, ouviu algum chamando seu nome.
    Ali estava Jessie, correndo pela praia e seguida de perto pelo cachorrinho gorducho. E pelo pai, que andava alguns rnetros atrs como se estivesse relutante 
em diminuir a diatncia. Ana levou um momento perguntando-se se a exuberncia natural da menina fazia com que o homem parecesse ainda mais arredio.
    Ana desceu do tronco e, porque foi muito natural e at automtico, pegou Jessie no ar, dando um giro e um abrao.
    - Ol de novo, meu raio de sol! Voc e Daisy esto procurando conchinhas de fadas?
    Jessie arregalou os olhos.
    - Conchinhas de fadas? Como elas so?
    - Do jeito que voc imaginar. No pr-do-sol, ou no nascente... so as nicas horas em que se pode encontr-las.
    - Meu pai disse que as fadas moram na floresta e geralmente se escondem porque as pessoas nem sempre sabem como trat-las.
    -  verdade. - Ana riu e deixou a menina no cho. - Mas elas tambm gostam do mar, e das montanhas.
    - Eu gostaria de encontrar uma, mas papai disse que elas quase nunca conversam com as pessoas como costumavam fazer, porque ningum acredita nelas de verdade, 
exceto as crianas.
    - Isso  porque as crianas esto sempre perto da magia. - Ana olhou para cima, enquanto falava. Boone as alcanara e o sol poente s suas costas lanava sombras 
em seu rosto, dando-lhe uma expresso ao mesmo tempo perigosa e atraente. - Ns estvamos falando sobre fadas - ela disse.
    - Eu escutei.
    Boone pousou a mo no ombro de Jessie. Embora fosse um gesto sutil, o significado era claro como cristal:  minha.
    - Ana disse que h conchinhas de fadas na praia e que a gente s pode encontr-las quando o sol nasce ou se pe. Voc no pode escrever uma histria sobre elas?
    - Quem sabe? - O sorriso dele para a filha foi suave e amoroso. Quando olhou de volta para Ana, ela sentiu um arrepio passar-lhe pela espinha. - Ns interrompemos 
seu passeio.
    - No. - Exasperada, Ana estremeceu. Compreendia que ele queria dizer que ela interrompera o passeio deles. - Eu estava apenas admirando o mar por um momento, 
antes de ir para casa. Est esfriando.
    - Ns comemos chili no jantar - Jessie falou, sorrindo. - E estava quente! Voc no quer me ajudar a procurar as conchinhas?
    - Num outro dia, talvez. - Quando o pai dela no estivesse em volta, lanando-lhe dardos com os olhos. - Mas est ficando escuro, agora, e preciso voltar para 
casa. - Deslizou a ponta do dedo pelo narizinho da menina. - Boa noite. - Assentiu friamente para o pai.
    Boone ficou olhando enquanto Ana se afastava. Talvez ela no ficasse com tanto frio de repente, pensou, se estivesse usando algo que lhe protegesse as pernas. 
Aquelas pernas bronzeadas, bem torneadas. Exalou um suspiro longo e impaciente.
    - Vamos l, Jess. Correndo de volta para casa.
    
    
    CAPTULO 2
    
    - Eu gostaria de conhec-lo.
    Ana ergueu os olhos das ptalas secas que estava arrumando para um potpourri e franziu ir testa para Morgana.
    - Quem?
    - O pai desta garotinha por quem voc est to encantada. - Mais cansada do que queria admitir, Morgana pasmou a mo pela barriga enorme, num movimento circular.
    - Voc no pra de falar sobre a menina, mas fica estranhamente evasiva quando se refere ao pai.
    - Porque no o acho to interessante quanto ela - Ana retrucou, num tom distrado. Numa vasilha cheia de folhas e ptalas perfumadas, acrescentou limo para 
estimular e blsamo para a boa sade. Sabia muito bem o quanto Morgana estava cansada. - Ele  to reservado quanto Jessie  extrovertida. Se no fosse to evidente 
que  devotado a ela, provavelmente eu nem gostaria dele em vez de estar me sentindo apenas ambivalente.
    -  bonito?
    Ana arqueou a sobrancelha.
    - Se comparado com quem?
    - Com um sapo. - Morgana riu e inclinou-se para frente. - Vamos l, Ana. Fale de uma vez!
    - Bem, ele no  feio. - Deixando a vasilha de lado, Ana comeou a procurar no armrio a melhor essncia para misturar ao potpourri. - Creio que voc diria que 
ele tem aquele ar meio perigoso, meio sombrio. Um corpo atltico, mas no como o dos levantadores de peso. - Ela franziu a testa, tentando decidir entre dois tipos 
de essncia. - Mais como um... corredor de longa distncia, eu acho. Um corpo esguio e to bem-feito que chega a intimidar.
    Sorrindo, Morgana apoiou o queixo nas mos.
    - Quero saber mais.
    - Estou ouvindo isso de uma mulher prestes a dar a luz  gmeos?
    - Pode apostar.
    Ana riu e escolheu uma essncia de rosas, para acrescentar elegncia.
    - Bem, se tenho de dizer algo agradvel sobre ele, acho que ficaria com os olhos. So muito claros, muito azuis. E quando olham para Jessie, ficam lindos. Quando 
olham para mim, ficam desconfiados.
    - Mas, por qu?
    - No fao a menor idia.
    Morgana balanou a cabea e girou os olhos para o alto. 
    - Anastsia, certamente voc j pensou nisso o bastante para descobrir. Tudo o que precisa fazer  dar uma "espiadinha". 
    Com um gesto rpido e experiente, Ana acrescentou algumas gotas do leo perfumado  mistura de flores. 
    - Voc sabe que no gosto de intrometer-me. 
    - Ora, tenha d!
    - E se estivesse ,curiosa - juntou, sorrindo diante da frustrao de Morgana -, e no acho que gostaria de ver o que anda acontecendo no interior do corao 
do sr. Sawyer. Tenho o pressentimento de que me sentiria muito pouco  vontade se me conectasse com ele, mesmo que fosse por alguns minutos.
    -  voc quem tem o dom da empatia - Morgana falou, encolhendo os ombros. - Se Sebastian j tivesse voltado, ele descobriria o que h na cabea desse sujeito 
de qualquer maneira. - Bebericou o elixir calmante que Ana lhe preparara. - Posso fazer isso, se voc quiser. H semanas no tenho um bom motivo para usar o espelho, 
nem os cristais. Vou acabar enferrujando.
    - No. - Ana abaixou-se e beijou o rosto da prima. - Muito obrigada. Agora, quero que tenha sempre um saquinho desta mistura por perto - disse, enquanto despejava 
o potpourri num saquinho de pano. - E espalhe o restante em vasilhas, pela casa e na loja. Voc est trabalhando apenas dois dias por semana, certo?
    - Dois ou trs. - Morgana sorriu diante da preocupao de Ana, embora no a descartasse. - No estou exagerando, querida, prometo. Nash nem me deixaria.
    Com um assentir distrado, Ana amarrou as pontas do saquinho.
    - E est tomando o ch que lhe fiz?
    - Todos os dias. E, sim, estou usando os leos religiosamente. Estou carregando o rilito para aliviar o estresse emocional, o topzio contra estresse externo, 
zircnia para uma atitude positiva e mbar para animar meus espritos. - Morgana apertou de leve a mo da prima. - Estou cercada por todos os lados.
    - Eu tenho o direito de me preocupar. - Ana deixou um saquinho perto da bolsa de Morgana mas, mudando de idia, ela mesma abriu a bolsa e guardou-o l dentro. 
-  o nosso primeiro beb.
    - Bebs - Morgana corrigiu.
    - Mais um motivo para me preocupar. Os gmeos sempre nascem antes do tempo.
    Exalando um suspiro, Morgana fechou os olhos.
    - Pois espero que estes venham mesmo antes do tempo. Estou chegando naquele ponto em que quase no consigo me sentar nem levantar sem a ajuda de uma bengala.
    - Descanse mais - Ana prescreveu -, e faa exerccios bem leves. E isso no inclui ficar andando pela loja carregando caixas, nem ficar de p o dia inteiro atendendo 
os fregueses.
    - Sim, senhora.
    - Agora, vamos dar uma olhada. - Com delicadeza, Ana pousou as mos na barriga da prima, espalmando os dedos lentamente, abrindo-se para o milagre que crescia 
l dentro.
    No mesmo instante, Morgana sentiu todo cansao desaparecer e um bem-estar fisico e emocional tomar o seu lugar. Atravs dos olhos semicerrados, viu que os da 
prima tinham escurecido at atingir a cor de chumbo e fixaram-se numa viso que apenas Ana podia enxergar.
    Enquanto movia as mos sobre o ventre de Morgana e conectava-se com ela, Ana sentia o peso dentro e si e, por um instante incrivelmente ntido, as vidas que 
pulsavam naquele tero. A fadiga exaustiva, sim, e o incmodo desconforto, mas tambm sentia a tranqila satisfao, a excitao crescente e a simples maravilha 
de carregar aquelas vidas. Seu corpo doeu, seu corao inchou-se. E um sorriso surgiu em seus lbios.
    Ento, ela era aquelas vidas, primeiro uma, depois a oura. Nadando e dormindo um sono sem sonhos no tero quente e escuro, sendo alimentada pela me, sentindo-se 
segura at o momento em que o mundo externo tivesse de ser enfrentado. Dois coraes saudveis batendo firmes e prximos, sob o corao da me. Minsculos dedinhos 
flexionando-se, um chute preguioso. A vida amadurecendo.
    Ana voltou a si, voltou sozinha.
    - Vocs esto bem. Todos vocs.
    - Eu sei. - Morgana entrelaou os dedos com os dela. - Mas me sinto bem melhor quando voc me diz. Do mesmo jeito que me sinto segura sabendo que voc estar 
comigo, quando chegar a hora.
    - Voc sabe que eu no estaria em qualquer outro lugar. - Ana levou as mos entrelaadas at o rosto. - Mas ser que Nash est contente com a idia de eu ser 
a parteira?
    - Ele confia em voc, tanto quanto eu.
    O olhar de Ana suavizou-se.
    - Voc teve sorte, Morgana, por encontrar um homem que aceita, compreende e at gosta do que voc .
    - Eu sei. S ter encontrado o amor j foi precioso o bastante. Mas ter encontrado o amor com ele... - Ento, o sorriso de Morgana desapareceu. - Ana, querida, 
o que houve com Robert j faz muito tempo.
    - No penso mais nele. Ou, pelo menos, no especificamente nele, mas sim como uma manobra errada numa estrada escorregadia.
    Um brilho de indignao surgiu nos olhos de Morgana.
    - Ele foi um tolo e no merecia voc nem um pouco.
    Em vez de tristeza, Ana sentiu o riso borbulhar na garganta.
    - Voc nunca gostou dele. Desde o inicio.
    - No mesmo. - Franzindo a testa, Morgana fez um gesto com o copo. - E nem Sebastian, se  que voc se lembra.
    - Lembro-me, sim. E lembro-me de Sebastian ter ficado bastante desconfiado com Nash, tambm.
    - Isso foi completamente diferente. Foi - Morgana insistiu, ao ver o sorriso da prima. - Com Nash, Sebastian estava apenas bancando o superprotetor. Mas, com 
Robert, Sebastian o tolerava com a forma mais insultante de cortesia.
    - Eu me lembro. - Ana encolheu os ombros. - O que, naturalmente, deixou-me ainda mais rebelde. Bem, eu era jovem - disse, com um gesto descuidado. - E ingnua 
o bastante para acreditar que se eu amava deveria ser igualtnente correspondida. Tola o bastante para ser honesta, e para ficar devastada quando esta honestidade 
foi recompensada com descrena e, depois, rejeio.
    - Eu sei o quanto voc sofreu, mas no h dvidas de que poderia ter feito mais do que fez.
    - Sim, nenhuma dvida - Ana concordou, pois tambm tinha o seu orgulho. - Mas existem alguns de ns que no foram feitos para misturarem-se com os de fora.
    Agora havia frustrao, juntamente com a indignao na voz de Morgana.
    - Houve muitos homens, com ou sem o sangue dos elfos, que interessaram-se por voc.
    - Uma pena que eu no tenha me interessado por nenhum deles. - Ana riu. - Eu sou terrivelmente exigente, Morgana. E gosto da minha vida como est.
    - Se no soubesse que isso  verdade, eu ficaria tentada a preparar uma bela poo de amor para voc. Nada muito definitivo, veja bem - ela disse, piscando um 
olho. - Apenas para dar-lhe um pouco de diverso.
    - Posso escolher minhas prprias diverses, obrigada.
    - Eu sei disso, tambm. Exatamente como sei que voc ficaria furiosa se eu me atrevesse a interferir. - Morgana afastou-se da mesa e levantou, entristecendo-se 
por um momento pela graciosidade perdida. - Vamos dar uma volta l fora, antes que eu v embora.
    - S se voc prometer esticar as pernas por uma hora, quando chegar em casa.
    - Prometo.
    O sol estava quente, a brisa refrescante. E estas duas coisas, Ana pensou, fariam to bem  sua prima quanto o longo cochilo que Nash insistiria para que ela 
tirasse, assim que voltasse para casa.
    Ficaram admirando as flores no jardim, as esporinhas que floresceram mais tarde naquele ano, as estreltzias exticas, as simples margaridas. Ambas tinham um 
profundo amor pela natureza, que lhes fora passado atravs do sangue e da educao.
    - Voc tem algum plano para o Halloween? - Morgana perguntou.
    - Nada especfico.
    - Gostaramos que fosse passar pelo menos uma parte da noite conosco. Nash est todo animado para receber as crianas que vm pedir doces.
    Com um riso de apreciao, Ana colheu alguns crisntemos para levar para dentro.
    - Quando um homem ganha, a vida escrevendo histrias de terror, tem a obrigao de transformar o Halloween numa festa e tanto. Eu no perderia isso por nada.
    - timo. Talvez Sebastian e voc queiram juntar-se a mim para uma celebrao mais tranqila, depois. - Morgana abaixava-se desajeitadamente sobre o canteiro 
de tomilho quando avistou uma criana e um cachorro passando pela cerca de roseiras.
    Endireitou o corpo.
    - Temos visitas - avisou.
    - Jessie! - Contente, mas um tantinho preocupada, Ana olhou na direo da casa ao lado. - Seu pai sabe que voc est aqui?
    - Ele disse que eu poderia vir se voc estivesse aqui fora, e se no estivesse ocupada. Voc no est ocupada, est?
    - No. - Incapaz de resistir, Ana abaixou-se e beijou a bochecha da menina. - Esta  a minha prima Morgana. .eu j contei a ela que voc  a minha mais nova 
vizinha.
    -- Voc tem uma gata e um cachorro. Ana me disse. - O interesse de Jessie foi imediatamente despertado. Seus olhos focalizaram, fascinados, a enorme barriga 
de Morgana.
    - Voc tem um beb a dentro?
    - Tenho, sim. Na verdade, so dois bebs.
    - Dois? - Jessie arregalou os olhos. - Como voc sabe?
    - Porque Ana me contou. - Rindo, Morgana pousou a irrrlo no ventre pesado. - E porque eles chutam e se mexem domais para ser s um.
    - A me da minha amiga Missy, a sra. Lopez, tinha um beb na barriga e ficou to gorda que nem conseguia andar. - Com os olhinhos azuis reluzindo, Jessie enviou 
um olhar esperanoso para Morgana. - Ela me deixou sentir o beb chutar.
    Encantada, Morgana pegou a mo da menina e levou-a para a barriga, enquanto Ana desencorajava Daisy a escavar o canteiro de impatiens.
    - Est sentindo?
    Rindo baixinho com o movimento sob a mo, Jessie assentiu.
    - Uau! Foi forte. No di?
    - No.
    - Voc acha que eles vo chegar logo?
    - Espero que sim.
    - Papai disse que os bebs sabem quando devem chegar porque um anjo cochicha no ouvido deles.
    Sawyer podia ser arredio, Morgana pensou, mas era tambm muito inteligente e delicado.
    - Pois acho que  exatamente isso que acontece.
    - E esse anjo fica sendo s deles, para sempre - Jessie continuou, encostando o ouvido na barriga de Morgana, com a esperana de escutar alguma coisa ali dentro. 
- Se voc se virar bem depressa, talvez consiga enxergar o seu anjo, s um pouquinho. J tentei algumas vezes, mas no sou muito rpida. - Ela levantou a cabea, 
estreitando os olhinhos para Morgana. - Os anjos so muito envergonhados, voc sabe.
    - Foi o que ouvi dizer.
    - Eu no sou. - Jessie pressionou um beijo na barriga de Morgana, antes de afastar-se danando. - No h nem uma gotinha de timidez no meu sangue.  isso que 
a vov Sawyer sempre diz.
    - A vov Sawyer  uma senhora bastante observadora - Ana comentou, pegando Daisy no colo para impedi-la de perturbar a soneca vespertina de Quigley.
    As duas divertiram-se com a companhia cheia de energia, enquanto caminhavam por entre as flores. Ou melhor, enquanto elas andavam e Jessie ia pulando, correndo, 
saltitando e tropeando.
    Jessie pegou a mo de Ana quando encaminhavam-se para a frente da casa e para o carro de Morgana.
    - Eu no tenho nenhuma prima.  gostoso?
    - , sim, muito gostoso. Morgana, Sebastian e eu crescemos praticamente juntos, mais ou menos como fazem os irmos e irms.
    - Eu sei como a gente pode ter irmos, porque papai me explicou. Mas como se faz para ter primos?
    - Bem, se sua me ou seu pai tm irmos ou irms, e eles tiverem filhos, estes fi1hos so seus primos. 
    Jessie digeriu a informao com um ar concentrado. 
    - Qual destes voc ?
    -  um pouco complicado - Morgana respondeu rindo, decidindo recostar no carro por um instante antes de entrar. - Os pais de Ana, os de Sebastian e os meus so 
todos irmos. E nossas mes tambm so irms. Assim, ns somos duplamente primos.
    - Puxa, isso  "legal". Se eu no posso ter primos, talvez possa ter um irmo ou uma irm. Mas papai diz que eu sozinha j valho por muitos.
    - Tenho certeza de que ele est certo - Morgana concordou enquanto Ana ria.
    Afastando os cabelos do rosto, Morgana olhou para cima. Ali, emoldurado pelas largas janelas do segundo andar da casa vizinha, um homem estava parado. O pai 
de Jessie, sem dvida.
    Ana o descrevera muito bem, Morgana pensou. Embora ele fosse mais atraente, e bem mais sexy, do que sua prima deixara revelar. Aquela simples omisso provocou-lhe 
um sorriso. Morgana ergueu a mo e acenou amigavelmente. Depois de um instante de hesitao, ele respondeu ao aceno.
    - Aquele  o meu pai - Jessie falou, estendendo o bracinho. - Ele vai trabalhar l em cima, mas ainda no desempacotou todas as caixas.
    - Qual  o trabalho dele? - Morgana perguntou, desde que era bvio que Ana no o faria.
    - Ah, ele conta histrias. Histrias muito bonitas sobre fadas, feiticeiras, princesas, drages e fontes mgicas. s vezes eu ajudo. Agora tenho de ir embora, 
porque amanh  o meu primeiro dia na escola e ele disse que no deveria demorar muito aqui. Eu demorei?
    - No. - Ana abaixou-se para beij-la no rosto. - Pode voltar quando quiser.
    - Tchau! - E l se foi ela, correndo pelo gramado com o cachorrinho em seu encalo.
    - Nunca fiquei to encantada, nem to exaurida - Morgana falou enquanto entrava no carro. - A garotinha  um furaco maravilhoso. - Sorrindo para Ana, balanou 
as chaves como se fossem um sininho. - E o pai, sem dvida, no  de se jogar fora.
    - Imagino que seja difcil para um homem criar uma filha sozinho.
    - Pelo pouco que vi, ele parece estar se saindo muito bem. - Morgana ligou o motor. -  interessante que ele escreva histrias... sobre feiticeiras, drages 
e estas coisas. Sawyer, voc disse?
    - Sim. - Ana afastou os cabelos do rosto. - Acho que  Boone Sawyer.
    - Talvez ele se interesse em saber que voc  sobrinha de Bryna Donovan... considerando-se que os dois fazem o mesmo tipo de trabalho. Isto , se voc estiver 
disposta a deix-lo interessado.
    - No estou - Ana falou com firmeza.
    - Ah, bem, talvez ele j esteja. - Morgana engatou a marcha-r. - Abenoada seja, prima.
    Ana conteve uma expresso preocupada, enquanto Morgana saa.
    Depois de dirigir at a casa de Sebastian para cuidar dos cavalos, dando-lhes a rao da manh e uma boa escovada, Ana passou o restante da manh entregando 
seus potpourris, seus leos perfumados, as ervas e poes medicinais. Outro tanto foi empacotado e enviado pelo correio. Embora Ana tivesse vrios clientes locais, 
incluindo a loja de Morgana, a Wicca, grande parte de sua clientela ficava fora da regio.
    Ana satisfazia-se com o sucesso que obtinha com seu trabalho. O negcio que iniciara seis anos atrs satisfazia suas necessidades e ambies, alm de permitir-lhe 
o luxo de trabalhar em casa. No era pelo dinheiro. A fortuna dos Donovan, e o legado dos Donovan, permitiam que ela e toda sua famlia vivessem confortavelmente. 
Mas, como Morgana com a loja e Sebastian com seus muitos empreendimentos, Ana precisava ser produtiva.
    Ela era uma curandeira. Porm, era impossvel curar todo mundo. H tempos ela aprendera que seria uma tentativa destrutiva tomar para si todas as dores e males 
do mundo. Parte do preo que tinha a pagar pelo seu poder era saber que havia dores que seria incapaz de aliviar. Ana no rejeitava seu dom. Mas utilizava-o da maneira 
que achava melhor.
    O estudo das ervas sempre a deixara fascinada e ela aceitou o fato de que possua o dom do toque. Sculos atrs poderia ter sido a curandeira do vilarejo, e 
essa idia sempre a divertia. No mundo atual, era uma mulher de negcios que sabia preparar um leo de banho ou um elixir com idntica habilidade.
    E se acrescentasse um toque de magia, era prerrogativa sua.
    Ana estava feliz com o que o destino lhe confiara e com a vida que conseguira construir a partir disso.
    Porm, mesmo se fosse infeliz, pensou, um dia como aquele a deixaria bem mais animada. O sol que comeava a enfraquecer, a brisa acariciante, um leve cheiro 
de chuva no ar, uma chuva que ainda demoraria horas para cair, mas que depois cairia com gosto.
    Querendo aproveitar o dia ao mximo, decidiu ficar trabalhando no jardim, comeando a semear algumas ervas nos canteiros.
    
    Ele estava observando-a novamente. Um mau hbito, Boone pensou com um franzir de testa, enquanto olhava para o cigarro entre os dedos. No estava obtendo muito 
sucesso em romper com maus hbitos. Tampouco estava conseguindo trabalhar, desde comeara a olhar pela janela e avistara Ana l em baixo.
    Ela parecia sempre to... elegante, concluiu. Era um tipo de elegncia, de refinamento que no diminua com o short sujo de terra e a camiseta de manga curta 
que ela usava.
    Estava presente na maneira como ela se movia, como se o ar fosse um vinho que bebericava distraidamente enquanto passava por ele.
    Voc est ficando potico, pensou, e lembrou-se de guardar o lirismo para seus livros.
    Talvez fosse porque ela parecia-se tanto com as princesas e fadas sobre as quais ele escrevia. Havia algo de etreo e sobrenatural no jeito dela. E aquela fora 
silenciosa em seus olhos. Boone jamais acreditara que fadas fossem fceis de se conquistar.
    Porm, havia ainda aquela delicadeza no corpo feminino, um corpo sobre o qual, sinceramente, ele preferia no ficar pensando muito. No era fragilidade, mas 
sim um tipo de feminilidade serena, que certamente seduziria e surpreenderia qualquer homem que se considerasse vivo.
    E Boone Sawyer, sem dvida nenhuma, estava vivo.
    E agora, o que ela estava fazendo?, perguntou-se enquanto apagava o cigarro com impacincia e aproximava-se da janela. Ela fora para o abrigo do jardim e retornara 
com os braos cheios de vasos empilhados.
    No era prprio de uma mulher carregar mais peso do que deveria?
    No instante em que pensou nisso, e concedeu-se uma pontinha de superioridade masculina, Boone viu Daisy disparar pelo gramado, correndo atrs de um gato magro 
e cinzento.
    Apoiando-se no parapeito da janela, preparou-se para gritar chamando o cachorro. Mas, antes que fizesse o primeiro gesto, viu que j era tarde demais.
    Em cmera lenta teria sido um bal interessante e bem coreografado. O gato voou como se fosse uma fumaa cinzenta por entre as pernas de Ana. Ela desequilibrou-se. 
Os vasos de cermica que carregava nos braos balanaram. Boone praguejou baixinho, depois exalou um suspiro de alvio quando ela endireitou-os, e a si mesma, novamente. 
Porm, antes que acabasse de respirar, Daisy apareceu correndo e destruindo o equilbrio temporrio. Desta vez os ps de Ana foram completamente tirados de sob seu 
corpo. Ela caiu, e os vasos desabaram.
    Embora j estivesse praguejando, Boone escutou o barulho dos vasos quebrando enquanto passava correndo pelas portas do terrao e descia as escadas para o deque 
mais baixo.
    Ela estava resmungando o que lhe pareceram palavres num idioma extico, quando ele se aproximou. E nem poderia culp-la. O gato estava em cima de uma rvore, 
rosnando para o cachorrinho que latia esganiadamente. Os vasos no passavam de cacos espalhados sobre a grama e na beirada do ptio, onde ocorrera o impacto.
    Boone fez uma careta, limpou a garganta.
    - Ahn... Voc est bem?
    Ana apoiava-se nas mos e nos joelhos, e os cabelos caam pelo rosto. Mas ela jogou-os para trs e enviou-lhe um olhar atravs das mechas loiras.
    - Engraadinho.
    - Eu estava na janela. - Aquele, certamente, no era o momento de admitir que estivera observando-a. - Passando pela janela - corrigiu-se. - Vi a corrida e a 
coliso. - Abaixando-se, comeou a ajud-la a recolher os pedaos de vasos. - Peo-lhe desculpas por Daisy. Ela est conosco h poucos dias e no temos tido muito 
sucesso em trein-la a fazer nada.
    - Ela ainda  muito pequena. No faz sentido culpar um animal por fazer o que  da sua natureza.
    - Vou comprar-lhe outros vasos - ele disse, sentindo-se miseravelmente desajeitado.
    - Eu tenho outros. -Porque os latidos e miados j estavam dando-lhe nos nervos, Ana sentou no cho, apoiando-se nos calcanhares. - Daisy! - O comando foi calmo 
mas firme, e imediatamente obedecido. Com a cauda balanando freneticamente, o filhote arrastou-se para lamber-lhe o rosto e as mos. - Sente - ela ordenou, e Daisy 
pousou o traseirinho no cho com toda boa vontade. - Agora, comporte-se. - Com um leve choramingo de arrependimento, a cadelinha baixou ia cabea, apoiando-se nas. 
patas.
    Quase to impressionado quanto atnito, Boone balanou a cabea.
    - Como conseguiu fazer isso?
    - Magia - ela respondeu um tanto rspida, mas suavizou o tom com um sorriso. - Pode-se dizer que sempre tive jeito com animais. Ela est apenas feliz, agitada 
e com vontade de brincar. Voc tem de faz-la entender que algumas atividades so imprprias. - Ana afagou a cabea de Daisy e foi recompensada com um olhar de adorao 
canina.
    - Eu estava tentando um pouco de chantagem.
    - Isso tambm  bom. - Ana esticou o corpo sob uma trelia de clematis vermelhas, procurando mais cacos quebrados. Foi ento que Boone percebeu o longo corte 
no brao dela.
    - Voc est sangrando.
    Ela olhou para baixo. Havia alguns arranhes nas coxas, tambm.
    - Seria impossvel evitar, com aquele desabamento de vasos.
    Boone levantou-se num piscar de olhos e comeou a ajud-la a fazer o mesmo.
    - Diabos, eu perguntei se voc estava bem. 
    - Ora, realmente, eu...
    - Temos de limpar este ferimento. - Quando viu que havia mais sangue escorrendo pelas pernas dela, Boone reagiu exatamente como se fosse com Jessie: entrou em 
pnico. - Ah, meu Deus... - Pegou a espantada Ana no colo e correu para a porta mais prxima.
    - Sinceramente, voc no precisa...
    - Vai ficar tudo bem, benzinho. Ns vamos cuidar disso. 
    Meio divertida, meio irritada, Ana bufou alto enquanto ele empurrava a porta da cozinha.
    - Neste caso, vou cancelar a ambulncia. Se voc puder me deixar... - Ele colocou-a numa das cadeiras forradas da cozinha. - No cho.
    Com os nervos vibrando, Boone correu para a pia em busca de um pano. Eficincia, velocidade e esprito prtico eram as palavras-chaves em tais casos, ele sabia. 
Enquanto molhava um pano de prato e o ensaboava, respirou fundo vrias vezes para se acalmar.
    - No vai parecer to ruim depois que limparmos. Voc vai ver. - Com um meio sorriso ele voltou e ajoelhou-se na frente dela. - No vou machuc-la, est bem? 
- Com delicadeza, comeou a limpar o fino fio de sangue que escorrera at o tornozelo. - Ns vamos deixar tudo bonitinho. Apenas feche os olhos e relaxe. - Respirou 
fundo mais uma vez. - Sabe, eu conheci um homem, certa vez - comeou a improvisar uma histria, como sempre fazia com a filha. - Ele morava num lugar chamado Briarwood, 
onde havia um castelo encantado por detrs de um alto muro de pedras.
    Ana, que estivera a ponto de dizer-lhe firmemente que era capaz de cuidar de si mesma, achou melhor ficar calada e comeou a relaxar.
    - Por cima dos muros havia uma trepadeira muito grande e forte, com espinhos que pareciam lminas de espadas. Por mais de cem anos ningum entrou no castelo, 
pois ningum era corajoso o bastante para escalar aqueles muros e arriscar-se a ser ferido e espetado pelos espinhos. Mas o homem, que era muito pobre e vivia sozinho, 
estava curioso. Ma aps dia ele caminhava da sua casa at a muralha, e ficava na ponta dos ps para avistar o sol reluzindo nas portes mais altas das torres do castelo.
    Boone dobrou o pano e comeou a limpar os cortes.
    - Ele no conseguia explicar a ningum o que sentia em seu corao, sempre que ficava ali observando. Queria desesperadamente escalar o muro. s vezes,  noite, 
ficava deitado em sua cama e imaginando como seria. O medo daqueles espinhos grossos e pontiagudos sempre o impedia, at que num certo dia de vero, quando o perfume 
das flores era to intenso que no se podia nem respirar sem embriagar-se nele, a simples viso das torres no foi mais o bastante. Alguma coisa, no corao dele, 
disse-lhe que o que ele mais queria no mundo estava ali, bem atrs da muralha coberta de espinhos. Ento, ele comeou a escalar. Caiu no cho muitas e muitas vezes, 
com as mos e os braos arranhados e sangrando. E, muitas e muitas vezes ele obrigou-se a subir.
    A voz de Boone era tranqilizadora e seu toque... o toque no era nada calmante. Por mais delicado que fosse, uma dor comeou a espalhar-se, lenta e quente, 
desde o centro do corpo de Ana at as extremidades. Ele passava o pano mido nas coxas dela, agora, onde um caco pontiagudo cortara a pele. Ana cerrou a mo em punho, 
e pousou a outra mo sobre o estmago.
    Queria que ele parasse. Queria que ele continuasse. E continuasse...
    - Ele levou um dia inteiro - Boone prosseguiu, naquele tom profundo e quase hipntico de um contador de histrias. - O calor fazia com que o suor se misturasse 
ao sangue, mas ele no desistiu. No podia desistir porque sabia, mais do que jamais soubera qualquer coisa, que o desejo do seu corao, seu futuro e seu destino 
estavam do outro lado. Assim, com as mos ensangentadas, usou o espinheiro como apoio e arrastou-se at o topo da muralha. Exausto, repleto de dor, atirou-se para 
baixo, caindo sobre a relva espessa e macia que cobria toda a extenso do castelo encantado.
    Boone fez uma pausa e continuou:
    - A lua estava alta no cu, quando ele despertou, confuso e desorientado. Com os ltimos resqucios de fora, atravessou a ponte mvel mancando e entrou no enorme 
vestbulo do castelo que assombrara seus sonhos desde a infncia. Quando ele cruzou as portas, as luzes de centenas de tochas iluminaram-se. No mesmo instante, todos 
os seus cortes e arranhes desapareceram. Naquele crculo de chamas que lanavam sombras e luz nas paredes de mrmore branco, estava a mulher mais bela que ele j 
havia visto. Seus cabelos eram como raios de sol e os olhos como a fumaa azulada. Antes mesmo que ela falasse, antes que seus lindos lbios se curvassem num sorriso 
de boas-vindas, ele soube que fora para encontr-la que arriscara a sua vida. Ela deu um passo  frente, estendeu-lhe a mo e disse apenas: "Eu estava  sua espera".
    Ao pronunciar as ltimas palavras, Boone ergueu os olhos para Ana. Estava to confuso e desorientado quanto o personagem da histria que inventara. Quando seu 
corao comeara a disparar daquele jeito?, perguntou-se. Como conseguia pensar, quando o sangue pulsava em sua cabea, e tambm na virilha? Enquanto esforava-se 
para recuperar o equilbrio, ficou olhando para ela.
    Cabelos como raios de sol. Olhos como fumaa azulada.
    Ento, deu-se conta de que estava ajoelhado entre as pernas dela, com uma das mos descansando intimamente em sua coxa, a outra prestes a alcanar aqueles cabelos 
dourados.
    Boone levantou-se to depressa que quase derrubou a mesa.
    - Desculpe-me - disse, por falta de coisa melhor. Quando Ana limitou-se a continuar olhando-o, com o pulso visivelmente acelerado, ele tentou novamente: - Acho 
que me deixei levar pelo nervosismo, quando vi que voc estava sangrando. Nunca consegui manter a calma quando se trata de limpar os cortes e arranhes de Jessie. 
- Combatendo o impulso de ficar tagarelando coisas sem sentido, entregou-lhe o pano mido. - Imagino que voc prefira cuidar de si mesma.
    Ana pegou o pano. Precisou de um instante, antes de atrever-se a falar. Como era possvel que um homem a atingisse to profundamente apenas contando uma histria 
e cuidando do seu machucado, e depois deixando-a zonza enquanto se desculpava?
    Era culpa sua, pensou enquanto esfregava, com mais fora do que o necessrio, o arranho em seu brao. Era seu dom, mas tambm sua maldio, sentir mais do que 
todas as pessoas normais.
    - Parece que  voc quem est precisando sentar-se um pouco - Ana falou rapidamente, enquanto levantava-se a fim de pegar um de seus prprios remdios no armrio. 
- Gostaria de beber alguma coisa?
    - No... Sim, na verdade. - Embora soubesse que nem um litro de gua gelada apagaria o fogo em seu peito. - Sempre que vejo sangue eu entro em pnico.
    - Em pnico ou no, voc foi muito eficiente. - Ana serviu-lhe um copo da limonada que tirou da geladeira. - Foi uma histria muito bonita. - Ela sorriu, agora, 
mais  vontade.
    - Geralmente uma histria serve para acalmar Jessie, ou a mim mesmo, durante uma sesso de mercurocromo e curativos.
    - Mercurocromo arde. - Com movimentos experientes, Ana umedeceu os ferimentos j limpos com um lquido marrom que estava num frasco de remdio. - Posso lhe dar 
algo que no arde, se quiser. Para a prxima emergncia.
    - O que  isto? - Desconfiado, ele cheirou o contedo do frasco. - Tem cheiro de flores.        .
    - Sim,  feito de flores, ervas, uma pitadinha disso e daquilo. - Ana tampou o frasco e deixou-o de lado. -  o que voc chamaria de anti-sptico natural. Eu 
sou herbalista.
    - Ah...
    Ela riu diante da expresso ctica no rosto dele.
    - Est tudo bem. A maioria das pessoas s acredita nos remdios que podem ser comprados numa drogaria. Esquecem-se que muita gente curou-se bastante bem atravs 
da natureza, por centenas de anos.
    - Mas tambm morriam de ttano causado por um ferimento num prego enferrujado.
    -  verdade. - Desde que Ana no tinha a menor inteno de tentar convert-lo, mudou de assunto. - Jessie j saiu para o primeiro dia de aula?
    - J, e estava louca para comear. Eu  que fiquei com o estmago embrulhado de nervoso. - O sorriso dele surgiu e desapareceu. - Quero lhe agradecer por ser 
to tolerante com ela. Sei que Jessie tem uma tendncia de "grudar" nas pessoas. Nem lhe passa pela cabea que nem sempre estas pessoas esto dispostas a lhe dar 
ateno.
    - Ah, mas eu gosto muito de conversar com ela. - Num gesto automtico de cortesia, Ana pegou um prato e encheu-o de biscoitos. - E ela  sempre bem-vinda aqui. 
Jessie  uma menina muito doce, natural e inteligente, e nunca esquece as boas maneiras. Voc est fazendo um excelente trabalho educando-a.
    Boone aceitou o biscoito, sem desviar os olhos dela.
    - Jessie facilita o meu trabalho.
    - Por mais encantadora que ela seja, no deve ser fcil criar uma criana sozinho. Duvido que seja fcil at para um casal, quando se trata de uma criana to 
cheia de energia como Jessie. E to inteligente. Ana escolheu um biscoito e no viu que ele estreitava os olhos. - Ela deve ter herdado de voc toda esta imaginao. 
Deve ser maravilhoso, para ela, ter um pai que escreve histrias to lindas.
    Os olhos dele aguaram-se.
    - Como voc sabe o que eu fao?
    A desconfiana a surpreendeu, mas Ana sorriu novamente. 
    - Sou uma f... na verdade, uma f vida... de Boone Sawyer.
    - No me lembro de ter-lhe dito o meu primeiro nome.
    - No, acredito que no disse, mesmo - Ana concordou. - Sempre reage assim diante de um elogio, sr. Strwyer?
    - Tive meus motivos para escolher um local isolado como este para me instalar. - Ele deixou na mesa o copo pela metade. - No gosto da idia de ter uma vizinha 
interrogando minha filha, ou querendo saber da minha vida.
    - Interrogando? - Ana quase engasgou com a palavra. - Interrogando Jessie? Por que eu faria isso?
    - Para saber um pouco mais a respeito do rico vivo que mora na casa ao lado.
    Por um instante tenso, ela s conseguiu encar-lo.
    - Mas que arrogncia inacreditvel! Acredite, eu gosto da companhia de Jessie e no acho necessrio inclu-lo nas nossas conversas.
    O que ele considerou como um espanto dolorosamente transparente o fez encolher os ombros com desprezo. J lidara com aquele tipo de mulher antes, mas seria um 
desapontamento, um terrvel desapontamento para Jessie.
    - Ento  muito estranho que voc saiba o meu nome, saiba que sou vivo e no que trabalho, no acha?
    Era difcil Ana se zangar. Isso simplesmente no fazia parte da sua natureza. Agora, no entanto, teve de lutar contra a raiva que a invadia.
    - Sabe de uma coisa? Duvido muito que voc merea qualquer explicao, mas vou dar-lhe assim mesmo s pelo prazer de v-lo morrer de vergonha. - Ela virou-se. 
- Venha comigo.
    - Eu no quero...
    - Eu disse: venha comigo. - Ana saiu da cozinha com passos duros, segura de que ele a acompanharia.
    Embora irritado e relutante, ele a seguiu. Passaram por uma porta em arco que dava acesso a uma linda sala ensolarada, com mveis de vime pintados de branco 
e almofadas coloridas. Havia enormes pedras de cristal, vrias esttuas de elfos, feiticeiras e fadas. Depois de cruzarem outra porta, entraram numa biblioteca acolhedora, 
com uma lareira e mais objetos msticos.
    Havia um sof de aparncia confortvel, forrado com um tecido vermelho-escuro que convidava a sonecas vespertinas. Cortinas de renda, muito femininas, danavam 
sob a brisa que brincava atravs das janelas, e o cheiro agradvel de livros misturava-se com a fragrncia refrescante de flores.
    Ana foi direto para uma estante, erguendo-se na ponta dos ps para alcanar os livros que queria.
    -"O Desejo da Vendedora de Leite" - foi recitando enquanto pegava um livro aps.o outro. -"O Sapo, a Coruja e a Raposa". "O Terceiro Desejo de Miranda". - Espiou 
por cima do ombro, embora o que realmente queria era jogar um dos livros bem no nariz dele. - Lamento ter de lhe dizer o quanto aprecio o seu trabalho.
    Pouco  vontade, Boone enfiou as mos nos bolsos. J sabia que trocara os ps pelas mos e perguntava-se se haveria uma maneira de consertar o estrago.
    - No  sempre que uma mulher adulta l contos de fadas por prazer.
    - Que pena. Embora voc no merea o elogio, eu diria que seu trabalho  potico e tem muito contedo, tanto para as crianas quanto para os adultos. - Longe 
de estar apaziguada, Ana guardou dois livros novamente na estante. - Mas, talvez estas coisas estejam no meu sangue. Muitas vezes fui acalentada com as histrias 
de uma das minhas tias. Bryna Donovan - ela disse, e teve o prazer de v-lo arregalar os olhos. - Imagino que voc j tenha ouvido falar dela.
    Devidamente castigado, Boone exalou um longo suspiro.
    - Sua tia. - Passou os olhos pela estante e viu diversos livros de Bryna, com histrias de magias e terras encantadas, alinhados junto aos seus. - Na verdade, 
j nos correspondemos algumas vezes. H anos eu admiro o trabalho dela.
    - Eu tambm. E quando Jessie mencionou que o pai escrevia histrias sobre princesas, fadas e drages, eu conclu que o sr. Sawyer, meu vizinho, era Boone Sawyer. 
Nem foi necessrio interrogar uma criana de seis anos.
    - Desculpe-me. - Boone no sabia como disfarar a vergonha que sentia. - Eu... eu passei por uma experincia um tanto desagradvel antes de nos mudarmos para 
c, e isso deixou-me desconfiado. - Pegou uma pequena escultura de uma feiticeira e ficou girando-a entre os dedos, enquanto falava: - A professora de Jessie no 
jardim de infncia... ela desencavou todo tipo de informaes da menina. O que, na verdade, no  to difcil assim, em se tratando de Jessie.
    Ele deixou a esttua no lugar, ainda mais embaraado por sentir que tinha obrigao de se explicar.
    - Mas ela manipulou os sentimentos de Jessie, seu anseio natural por uma figura materna, deu-lhe todo tipo de atenes extras, marcou vrias entrevistas comigo 
para discutir o potencial da menina e chegou ao ponto de marcar um jantar a dois comigo, quando... Basta dizer que ela estava mais interessada num homem solteiro 
com um bom salrio do que nos sentimentos ou no bem-estar de Jessie. Jessie ficou muito magoada com tudo isso.
    Ana tamborilou o dedo na capa de um dos livros, antes de guard-lo na estante.
    - Imagino que tenha sido uma experincia difcil para vocs dois. Mas deixe-me assegur-lo que no estou procurando um marido. E, se estivesse, no faria isso 
atravs de manipulaes e manobras. Receio que tenha sido muito bem doutrinada acerca de finais felizes, para precisar lanar mo de tais expedientes.
    - Eu sinto muito. Depois da vergonha que realmente passei, vou tentar encontrar um meio melhor de me desculpar.
    Pela maneira como Ana o encarou, ele ainda no estava totalmente fora da fogueira.
    - Acho que o fato de termos nos entendido j  o bastante. Agora, tenho certeza de que voc quer voltar ao seu trabalho, e eu tambm tenho mais o que fazer. 
- Ana passou por ele, foi para o vestbulo revestido de lajotas e abriu a porta da frente. - Diga a Jessie para me fazer uma visita e me contar como foi na escola.
    "Aqui est seu chapu, por que a pressa?", Boone pensou com ironia enquanto passava pela porta.
    - Eu direi. Cuide bem destes arranhes - acrescentou, mas ela j havia fechado a porta.
    
    
    CAPTULO 3
    
    Bem feito, Sawyer. Balanando a cabea, Boone sentou na frente do computador. Primeiro o seu cachorro derruba a sua vizinha no quintal dela. Depois, nosso atrapalhado 
heri irrompe pela casa dela, sem ser convidado, e comea a acariciar-lhe as pernas. Para encerrar com chave de ouro, ele insulta a integridade dela e insinua que 
ela est usando sua filha para tentar la-lo.
    Tudo isso numa nica e divertida tarde, pensou com desgosto. Era de admirar que ela no o tivesse chutado para fora da casa, em vez de simplesmente bater-lhe 
com a porta na cara.
    E por que agira de maneira to estpida? Experincias anteriores, era verdade. Porm, este no era o mago da questo, e ele sabia.
    Hormnios, concluiu com um meio sorriso. O tipo de hormnios enfurecidos que combinavam mais com um adolescente do que com um homem adulto.
    Ele havia olhado para o rosto dela naquela cozinha ensolarada, sentindo-lhe a pele sob sua mo, aspirando o perfume serenamente sedutor que Ana exalava, e a 
desejara. Com desespero. Por um momento atordoante, havia imaginado nitidamente como seria arrebat-la daquela cadeirinha enfeitada, sentir aquele rpido estremecimento 
em reao enquanto devorava-lhe os lbios incrivelmente macios.
    Aquele instante de desejo tinha sido to intenso que ele precisava acreditar que havia alguma ora externa, algum plano ou enredo capaz de confuirdi-lo de maneira 
to avassaladora.
    O caminho mais seguro, concluiu com um suspiro. Culp-la por tudo isso.
     claro que ele teria sido capaz de descartar a coisa toda se no fosse pelo fato de que, no exato instante em que a fitara nos olhos, enxergara a mesma nsia 
sonhadora que estava sentindo. E sentira tambm o poder, o mistrio e a sensualidade incontida de uma mulher pronta para entregar-se.
    Sua imaginao costumava alar altos vos, ele sabia. Porm, o que vira, o que havia sentido, foram extremamente reais.
    Por um segundo, apenas um segundo, as tenses e desejos fizeram com que todo o ar vibrasse como as cordas de uma harpa. Ento ele se afastara. Um homem no tinha 
nada que ficar seduzindo a vizinha em sua cozinha.
    Agora, era bem provvel que tivesse destrudo quaisquer chances de conhec-la melhor, justamente quando percebera o quanto queria conhecer a srta. Anastsia 
Donovan.
    Pegando um cigarro, Boone segurou-o entre os dedos enquanto analisava vrias maneiras de redimir-se. Quando a luz se fez, foi to simples que ele riu alto. Se 
estivesse procurando o caminho para o corao de uma linda dama, o que no era exatamente o seu caso, no poderia ser mais perfeito.
    Contente consigo mesmo, mergulhou no trabalho at a hora de buscar Jessie na escola.
    
    "Idiota, convencido." Ana desabafou sua raiva amassando com um pilo. Era muito satisfatrio estar amassando alguma coisa, mesmo se fossem inocentes ervas, e 
transform-las em p. Imagine s. Como Boone se atrevia a pensar que ela era... uma oportunista, decidiu, com desprezo. Como se o achasse irresistvel. Como se estivesse 
pendurada numa janela, esperando que seu prncipe aparecesse. E para que pudesse seduzi-lo, prendendo-o numa armadilha.
    Era muita ousadia.
    Pelo menos ela tivera a satisfao de mostrar-lhe a porta da rua. E se bater a porta na cara de algum fosse algo completamente avesso  sua personalidade, bem, 
naquela hora foi maravilhoso.
    To maravilhoso, na verdade, que ela nem se importaria de repetir a dose.
    Era uma pena que ele fosse to talentoso. E no podia negar que era um excelente pai. Estas eram virtudes que Ana no podia deixar de admirar. Tampouco podia 
negar que ele era atraente, que possua um magnetismo sensual e uma pitadinha de timidez misturada com doura, juntamente com aquele toque msculo de um homem indomvel.
    E os olhos... aqueles olhos incrveis que eram capazes de tirar o flego, quando focalizam-se nela.
    Ana praguejou baixinho e amassou a pasta com mais fora no pilo. No estava interessada em nada disso.
    Talvez tivesse havido um instante, na cozinha, quando ele tocou-lhe a pele com tanta delicadeza e sua voz bloqueou todos os outros sons, em que ela descobriu-se 
atrada.
    Tudo bem, excitada, admitiu. Mas isso no era nenhum crime.
    No entanto, ele conseguira apagar a sensao bem depressa e, por ela, isso estava timo.
    A partir daquele momento, pensaria nele apenas como sendo o pai de Jssica. Iria mostrar-se distante e superior, nem se isso a matasse, e amigvel apenas at 
o ponto em que facilitasse seu relacionamento com a menina.
    Ana gostava de ter Jessie em sua vida e no estava disposta a sacrificar esse prazer por causa de uma antipatia bsica e muito bem justificada pelo pai dela.
    - Oi!
    Havia um rostinho travesso espiando pela fresta da porta. Toda raiva que Ana estava sentindo desapareceu no mesmo instante, s de ver.aqueles olhinhos sorridentes.
    Ana deixou o pilo de lado e sorriu para a menina. Imaginou que deveria estar grata por Boone no permitir que o desentendimento entre eles impedisse a visita 
de Jessie.
    - Bem, parece que voc sobreviveu ao primeiro dia de escola. A escola sobreviveu a voc?
    - Hu-hum. O nome da minha professora  sra. Farrell. Ela tem cabelos grisalhos e ps grandes, mas  boazinha, tambm. E fiquei conhecendo Marcie, Tod, Lydia, 
Frankie e mais um monte de crianas. De manh ns...
    - Uau! - Ana comeou a rir, levantando as duas mos. - Acho melhor voc entrar e sentar-se, antes de fazer o relatrio do dia.
    - No consigo abrir a porta, porque estou com as mos cheias.
    - Ah. - Ana foi at a porta e abriu-a. - O que voc tem a?
    - Presentes. - Com um suspiro cansado, Jessie deixou um pacote na mesa. Depois, mostrou um enorme desenho a giz de cera. - Hoje ns tivemos de desenhar. Eu fiz 
dois desenhos, um para o papai e outro para voc.
    - Para mim? - Emocionada, Ana aceitou o colorido desenho num grosso papel pardo, que lhe evocou as prprias lembranas da escola. - E lindo, meu raio de sol.
    - Olhe, esta aqui  voc. - Jessie apontou uma figura de cabelos amarelos. - E Quigley. - Ali estavam os traos infantis, mas muito bem-feitos, que retratavam 
um gato. - E todas as flores. As rosas, as margaridas e os cris... no sei o qu.
    - Os crisntemos - Ana murmurou, com os olhos molhados.
    - Isso mesmo. - Jessie continuou: - Eu no conseguia lembrar de todos os nomes. Mas voc disse que iria me ensinar.
    - Sim, eu vou ensinar.  muito lindo, Jessie.
    - Eu desenhei papai na casa nova, com ele parado no terrao porque  o lugar que mais gosta. Ele pregou o desenho na geladeira.
    -  uma tima idia. - Ana foi colocar o desenho na porta do refrigerador, prendendo-o com os pequenos ms.
    - Eu gosto de desenhar. Meu pai desenha muito bem, e disse que mame desenhava melhor ainda. Ento, acho que  de famlia. - Jessie pegou a mo de Ana. - Voc 
est brava comigo?
    - No, querida. Por que estaria?
    - Papai me contou que Daisy derrubou voc e quebrou os seus vasos. E que voc se machucou. - Ela olhou para o arranho no brao de Ana, depois beijou-o solenemente.
    - Desculpe-me.
    - Est tudo bem. Daisy no fez de propsito.
    - Ela tambm no mastigou os sapatos de papai de propsito, nem o fez falar palavres. Ana mordeu o lbio.
    - Tenho certeza que no.
    - Papai gritou com ela e Daisy ficou com tanto medo que fez xixi ali mesmo no tapete. Ento ele comeou a correr atrs dela pela casa inteira, e foi to engraado 
que eu no conseguia parar de rir. Ele disse que vai fazer uma casinha de cachorro l fora, e eu e Daisy vamos morar nela.
    Ana perdeu toda esperana de levar a conversa a srio, e comeou a rir enquanto abraava a menina, pegando-a no colo.
    - Acho que voc e Daisy iriam divertir-se muito na casinha de cachorro. Mas, se quiser salvar os sapatos do seu pai, quem sabe eu posso ajudar voc a trein-la?
    - Voc sabe fazer isso? Pode ensinar Daisy a fazer truques?
    -Ah, acho que sim. Veja. - Ana mudou Jessie de posio em seu colo e chamou Quigley, que dormia embaixo da mesa da cozinha. O gato acordou relutante, esticou 
as patas dianteiras, depois as traseiras, e adiantou-se. - Muito bem, sente. - Exalando um suspiro felino, ele obedeceu. - Levante. - Resignado, Quigley ergueu-se 
nas quatro patas e chutou o ar, como um tigre de circo. - Agora, se voc der o seu salto, talvez ganhe uma lata de atum no jantar.
    O gato parecia debater a idia consigo mesmo. Ento, talvez porque o truque no fosse nada se comparado com uma lata de atum, deu um pulo para o alto, girou 
num salto mortal e aterrissou sobre as quatro patas. Enquanto Jessie ria e aplaudia, Quigley lambeu a pata com modstia.
    - Eu no sabia que os gatos podiam aprender truques.
    - Quigley  um gato muito especial. - Ana deixou-a no cho e foi fazer um agrado no gato. Ele ronronou alegremente, esfregando o nariz na perna dela. - A famlia 
dele est na Irlanda, como a maior parte da minha.
    - Ele no se sente sozinho?
    Sorrindo, Ana afagou a cabea do animal.
    - Ns temos um ao outro. Agora, que tal um lanche enquanto me conta sobre o resto do seu dia?
    Jessie hesitou, tentada.
    - No sei se posso, porque est muito perto da hora do jantar e papai... Ah, j ia me esquecendo! - Correu de volta para a mesa a fim de pegar o pacote embrulhado 
num vistoso papel listrado. - Este  para voc, foi o papai quem mandou.
    - Foi o seu... - Num gesto inconsciente, Ana cruzou as mos por trs das costas. - O que ?
    - Eu sei. - Jessie sorriu, os olhos brilhando de animao. - Mas no posso dizer, seno estrago a surpresa. Voc precisa abrir. - Pegou o pacote e empurrou-o 
para ela. - Voc no gosta de presentes? - Perguntou ao ver que Ana mantinha as mos firmemente presas atrs das costas. - Eu adoro ganhar presentes e papai sempre 
d presentes bons.
    - Estou certa que sim, mas...
    - Voc no gosta do meu pai? - O lbio inferior da menina tremeu um pouco. - Est zangada com ele porque Daisy quebrou seus vasos?
    - No, no estou zangada com ele. - No pelos vasos quebrados, ao menos. - No foi culpa dele. E  claro que gosto dele... Isto , ainda no o conheo muito 
bem e... - Sem sada, Ana decidiu, e esboou um sorriso. - S fiquei surpresa de ganhar um presente sem ser meu aniversrio. - Para agradar a criana, pegou o pacote 
e balanou-o. - No faz barulho - disse, e Jessie bateu palmas e pulou.
    - Adivinhe! Adivinhe o que !
    - Ahn... Um trombone.
    - No, um trombone  muito grande. - A excitao fazia a menina agitar-se. - Abra! Abra para ver o que !
    Era a reao de Jessie que fazia seu corao bater um pouco mais rpido, Ana pensou. E a fim de acalm-la, abriu o pacote com um floreio.
    - Ah!
    Era um livro, um livro infantil de tamanho grande, com uma capa branca. Na frente havia a ilustrao de uma mulher de cabelos loiros usando uma coroa reluzente 
e um manto azul esvoaante.
    - "A Rainha das Fadas" - Ana leu o ttulo. - Por Boone Sawyer.
    -  novinho em folha! - Jessie exclamou. - Ainda nem est para vender, mas papai recebe as cpias antes. - Passou a mozinha delicada sobre a capa. - Eu disse 
a ele que parece voc.
    -  um lindo presente - Ana falou, suspirando. E muito esperto. Como ela poderia continuar irritada com ele, depois disso?
    - Ele escreveu uma coisa para voc, na parte de dentro. - Impaciente demais para esperar, Jessie abriu a capa. - Olhe, est aqui.
    Para Anastsia, esperando que um conto mgico tenha o mesmo efeito que uma bandeira branca. Boone.
    Ela sorriu. Foi impossvel evitar. Como algum poderia recusar um pedido de trgua to encantador?
    
     claro que Boone estava contando exatamente com isso. Enquanto empurrava uma caixa que estava no caminho, olhou pela janela da cozinha na direo da casa ao 
lado. Mas no estava espionando, assegurou-se.
    Imaginava que levaria alguns dias para Ana se acalmar, mas pensou que poderia dar um passo de gigante na direo certa. Afinal, no queria que nenhum antagonismo 
perdurasse entre ele e a nova amiga de Jessie.
    Voltando para o fogo, diminuiu o fogo do frango que estava cozinhando e comeou a amassar as batatas para fazer um pur.
    O prato preferido de Jssia, pensou enquanto ligava a batedeira. Ele podia fazer pur de batatas todos os dias, durante um ano inteiro, e a menina no iria se 
queixar. Mas era evidente que cabia a ele variar o cardpio e certificar-se de que ela tivesse uma alimentao variada e saudvel.
    Boone despejou mais leite na vasilha e fez uma careta. Tinha de admitir que, se havia uma parte da paternidade que ele desistiria de bom grado, era a presso 
de decidir o que iriam comer, dia aps dia.
    No se incomodava de cozinhar, mas sim de escolher diariamente entre carne assada ou cozida, frango ou costeletas de porco, alm de todas as outras coisas. Levado 
pelo desespero, comeara a colecionar receitas, secretamente, na esperana de acrescentar alguma variedade ao cardpio.
    Certa vez ele at pensara seriamente em contratar uma pessoa para cuidar da casa e das refeies. Tanto sua me quanto sua sogra estavam pressionando-o a fazer 
isso, e depois entregaram-se a mais um combate sobre como escolher a mulher mais adequada para tal funo. Mas a idia de ter uma pessoa estranha dentro de casa, 
algum que gradualmente acabaria encarregando-se da criao da sua filha, o fez desistir.
    Jesse era sua, cem por cento sua. Apesar das decises sobre o jantar e das compras no supermercado, era assim que ele queria que fosse.
    Enquanto acrescentava uma generosa colher de manteiga s batatas cremosas, Boone ouviu os passinhos correndo no terrao.
    - Chegou na hora, meu sapinho. Eu j ia assoviar para cham-la. - Ele virou-se, lambendo o pur no dedo, e viu Ana parada na porta, com a mo pousada no ombro 
de Jessie. Os msculos de seu estmago ficaram to tensos que ele quase se encolheu. - Ora, ol!
    - Eu no pretendia interromper - Ana comeou. - Queria apenas agradecer o livro que voc me deu de presente. Foi muito gentil de sua parte.
    - Fico contente que tenha gostado. - Boone percebeu que estava com um pano de prato amarrado na cintura, e tirou-o. - Foi a melhor oferta de paz em que pude 
pensar.
    - E deu certo. - Ana sorriu, encantada ao v-lo lidando com as panelas no fogo. - Obrigada por pensar em mim. Agora,  melhor eu sair do caminho para que voc 
termine o seu jantar.
    - Ela pode entrar, no pode? - Jessie j estava puxando-a pela mo. - No pode, papai?
    -  claro. Por favor. - Boone afastou outra caixa de perto da porta. - Ainda no acabamos de desempacotar nossas coisas. Est demorando mais do que eu pensava.
    Levada pela educao, e pela curiosidade, Ana entrou. As janelas ainda estavam sem cortinas e algumas caixas acumulavam-se no cho de cermica colorida. Porm, 
arrumados no balco azul, havia um pote para biscoitos no formato do coelho de Alice, um bule de ch do Chapeleiro Maluco e um aucareiro em forma de ratinho. A 
porta da geladeira fora transformada numa galeria de arte, repleta dos desenhos e pinturas de Jessie, e o filhote de cachorro dormia num canto.
    No era bem organizada nem arrumada, ela pensou, mas sem dvida aquela casa j era um lar.
    -  uma bela casa - Ana comentou. - No  de admirar que tenha sido vendida to depressa.
    - Quer ver o meu quarto? - Jessie agarrou-lhe novamente a mo. - Eu tenho uma cama com um teto e montes de bichinhos de pelcia.
    - Voc pode levar Ana l em cima mais tarde - Boone intrometeu-se. - Agora est na hora de lavar as mos. 
    - Est bem. - Jessie lanou um olhar de splica para Ana. - No v embora.
    - Que tal um pouco de vinho? - Boone ofereceu assim que a filha saiu correndo. -  uma boa maneira de se selar uma trgua.
    - Tudo bem. - Os desenhos farfalharam quando ele abriu a geladeira. - Jessie  uma artista e tanto. Achei lindo o desenho que ela fez para mim.
    - Cuidado, ou vai acabar empapelando as paredes com os desenhos. - Boone hesitou, com a garrafa na mo, perguntando-se onde teria guardado as taas de vinho, 
ou se nem as tirara da caixa. Uma rpida busca nos armrios deixou evidente que no havia tirado. - Ser que voc concorda em tomar um chardonnay num copo do Pernalonga?
    Ela riu.
    - E claro que sim. - Esperou que ele a servisse e ergueu o copo para o dele... que era do Patolino. - Bem-vindo a Monterey - disse, brindando.
    - Obrigado. - Quando Ana levou o copo aos lbios e sorriu-lhe por sobre a borda, Boone perdeu o rumo dos pensamentos. - Eu... Voc mora aqui h bastante tempo?
    - Minha vida inteira, com indas e vindas. - O aroma de frango e a alegre baguna na cozinha eram to familiares que Ana relaxou. - Meus pais tinham uma casa 
aqui e outra na Irlanda. Agora eles passam muito mais tempo na Irlanda, mas meus primos e eu continuamos por aqui mesmo. Morgana nasceu na casa em que mora, na Seventeen 
Mile Drive. Sebastian e eu nascemos na Irlanda, no Castelo Donovan.
    - Castelo Donovan.
    Ela riu um pouco.
    - Soa um tanto pretencioso, no ? Mas trata-se realmente de um castelo, muito antigo, muito bonito e bem distante. Pertence  famlia Donovan h sculos.
    - Nascida num castelo na Irlanda - ele refletiu em voz alta. - Talvez isso explique porque na primeira vez em que a vi pensei... bem, h uma rainha das fadas 
bem ali no quintal vizinho, atrs da cerca de rosas. - O sorriso desapareceu e Boone falou sem pensar. - Voc me deixa sem flego.
    Ana parou em meio ao gesto de levar o copo aos lbios, que entreabriram-se, de espanto e confuso.
    - Eu... - Bebeu um gole, enquanto aproveitava para pensar. - Imagino que faa parte do seu dom para escrever ficar imaginando fadas nos arbustos, elfos no jardim, 
feiticeiros nos topos das rvores.
    - Pode ser. - Ana exalava um perfume delicioso enquanto a brisa que trazia traos do seu jardim e indcios do mar penetrava pelas janelas. Boone aproximou-se, 
surpreso e um tanto feliz ao ver o alarme nos olhos dela. - Como vai o arranho, vizinha? - Com delicadeza, passou a mo em torno do brao dela e deslizou o dedo 
para cima, at sentir o pulso bater na parte interna do cotovelo. Fosse l o que estivesse afetando-o, provocava o mesmo efeito nela. Ele sorriu. - Ainda di?
    - No. - A voz dela enrouqueceu, surpreendendo-a, excitando-o. - No,  claro que no.
    - Voc ainda est com cheiro de flores. 
    - A slvia...
    - No. - Boone levou a outra mo at o queixo dela. - Voc sempre tem este perfume de flores. Flores silvestres e brisa marinha.
    Como ela fora parar ali, de costas para o balco, com o corpo dele roando no seu, os lbios to prximos e tentadores que ela quase podia sentir-lhes o sabor?
    E ela queria sentir, mais do que tudo no mundo, com uma fora que afastou todo e qualquer pensamento de sua mente. Devagar, mantendo os olhos nos dele, levou 
a mo at seu peito e espalmou-a sobre o corao. Que batia forte e enlouquecido.
    E assim seria o beijo, ela pensou. Forte e louco, desde o primeiro instante.
    Como se quisesse assegur-la disso, Boone pegou uma mecha de seus cabelos e enrolou-a no dedo. Estava quente, como ele sabia que estaria, quente como a luz do 
sol. Por um instante, todo seu ser concentrou-se no beijo que viria, no prazer indescritvel que lhe traria. Seus lbios estavam quase colados nos dela, a respirao 
de ambos se meclava, e foi ento que ele ouviu os passos de Jessie descendo a escada.
    Boone afastou-se como se Ana o tivesse queimado. Incapazes de falar, ficaram apenas se olhando, atnitos pelo que quase acontecera e pela fora que os impulsionara 
um ao outro.
    O que ele estava fazendo?, Boone perguntou-se. Agarrando uma mulher na cozinha, com o frango na panela, o pur de batatas esfriando na pia e sua filha prestes 
a irromper pela porta? 
    - Eu j vou embora. - Ana deixou o copo de vinho no balco, temendo que o derramasse. - Pretendia ficar apenas um minuto.
    - Ana. - Ele virou-se, bloqueando-lhe a passagem para o caso de ela decidir disparar para fora. - Tenho a impresso de que o que acabou de acontecer no combina 
muito com as nossas personalidades. Interessante, no acha?
    Ela ergueu os solenes olhos azuis para ele.
    - No conheo a sua personalidade.
    - Bem, no tenho o costume de seduzir mulheres na cozinha de minha casa, enquanto Jessie vai lavar as mos. E, certamente, no tenho o hbito de desejar uma 
mulher desde o primeiro momento em que a vejo.
    Ana desejou ainda estar segurando o copo. Sentia a garganta seca, ardendo.
    - Imagino que esteja esperando que eu diga que acredito em voc. Mas no acredito.
    Um misto de raiva e desafio brilhou nos olhos dele.
    - Neste caso, vou ter de provar, no ?
    - No, voc...
    - Minhas mos esto limpinhas, limpinhas. - Abenoadamente inconsciente da tenso que fervilhava no ar, Jessie entrou na cozinha danando, erguendo as palmas 
para a inspeo. - Por que preciso lavar as mos se no vou comer com os dedos?
    Com um esforo imenso, Boone afastou-se de Ana e deu uma torcidinha no nariz da filha.
    - Porque os germes adoram xeretar nas mos das garotinhas e tambm no pur de batata.
    - Argh! - Jessie fez uma careta, e depois sorriu. - Papai faz o pur de batata mais gostoso do mundo. No quer experimentar? Ela pode ficar para o jantar, no 
pode, papai?
    - Desculpe, mas tenho de...
    -  claro que ela pode. - Refletindo o sorriso da filha, mas com algo bem mais perigoso nos olhos, Boone olhou para Ana. - Ns adoraramos que voc ficasse. 
Temos bastante comida. E acho que seria uma boa oportunidade de nos conhecermos melhor, antes de...
    Ela nem precisou perguntar "antes" do qu. Estava bem claro. Mas, por mais que tentasse, no conseguia fazer com que sua irritao sobrepujasse o rpido fluxo 
de pnico e excitao.
    - E muita gentileza sua me convidar - disse, com uma calma admirvel. - Eu bem que gostaria, mas... - Sorriu para Jessie, ao ouvir o gemido de desapontamento. 
- Mas preciso ir  casa do meu primo para cuidar dos cavalos.
    - Voc me leva algum dia, para que eu possa v-los?
    - Se seu pai concordar... - Ana abaixou-se e beijou o rostinho fofo de Jessie. - Obrigada pelo desenho, meu raio de sol. Eu adorei. - Dando um passo cauteloso 
para trs, olhou para Boone. - E obrigada pelo livro. Sei que vou adorar. Boa noite.
    Ana no saiu correndo, embora admitisse que no estava apenas saindo, mas fugindo. Ao chegar em casa deu a Quigley o atum que prometera e trocou de roupa, vestindo 
cala jeans e uma camisa grossa a fim de ir para a casa de Sebastian.
    Estava precisando pensar um pouco, decidiu enquanto calava as botas. Pensar seriamente. Pesar os prs e contras, considerar as conseqncias. Sentiu vontade 
de rir, ao pensar em como Morgana giraria os olhos para cima e a acusaria de ser uma libriana incorrigvel.
    Talvez o seu signo fosse parcialmente responsvel pelo fato de que Ana sempre conseguia ver e simpatizar com ambos os lados de um argumento. E isso complicava 
os problemas, tanto quanto os solucionava. Mas neste caso ela tinha certeza de que, se clareasse os pensamentos e mantivesse a calma, chegaria a uma concluso.
    Talvez estivesse realmente atrada por Boone. E o aspecto fsico era completamente sem precedentes. E claro que ela j sentira desejo por um homem, mas nunca 
algo assim, to rpido, agudo e urgente. E isso geralmente significava uma dor mais forte e profunda.
    Sem dvida, era algo para se considerar. Franzindo a testa, pegou uma jaqueta jeans e desceu as escadas.
    Sim, ela era uma mulher adulta, sem compromissos, sem laos e perfeitamente livre para acalentar a idia de ter um relacionamento com um homem igualmente adulto 
e livre.
    No entanto, Ana sabia como os relacionamentos podiam ser devastadores, quando as pessoas eram incapazes de aceitar as outras pelo que eram.
    Ainda debatendo consigo mesma, ela saiu da casa. No devia nenhuma explicao a Boone. No tinha nenhuma obrigao de faz-lo compreender a sua herana, como 
tentara, anos atrs, com Robert. Mesmo se acabassem se envolvendo, ela no precisaria lhe contar nada.
    Ana entrou no carro e saiu da garagem, com os pensamentos indo e voltando.
    Ela no estaria enganando-o se omitisse alguns fatos a seu respeito. Era uma forma de proteo, conforme aprendera a duras penas. E era tolice at considerar 
este aspecto, quando ainda nem decidira se queria ou no envolver-se.
    No, isso no era verdade. Ela queria. Era mais uma questo de decidir se podia dar-se ao luxo de envolver-se.
    Afinal, ele era seu vizinho. Se o relacionamento no desse em nada, seria bastante desconfortvel continuarem vivendo to perto um do outro.
    Alm disso, tinha de pensar em Jessie. Ana j estava gostando muito da menina. No queria arriscar-se a perder aquela amizade e afeio pensando apenas em seus 
prprios interesses. Interesses puramente fsicos, alis, ela pensou enquanto seguia pela estrada sinuosa ao longo da costa.
    Era verdade que Boone poderia lhe oferecer algum prazer fsico. No duvidava disso, nem por um momento. Porm, o preo emocional seria alto demais para todos 
os envolvidos.
    Seria melhor, muito melhor para todos os envolvidos, se ela continuasse sendo amiga de Jessie e mantivesse uma distncia segura do pai dela.
    
    O jantar havia terminado, os pratos estavam lavados. Houvera uma sesso de adestramento com Daisy, no muito bem-sucedida, embora ela acabasse sentando se a 
puxasse pela cauda. Depois, muita baguna e gua esparramada no banheiro e uma brincadeira de cavalinho, para agradar a filha. Depois a histria a ser contada na 
cama e o ltimo copo de gua a ser solicitado.
    Assim que Jessie dormiu e a casa ficou em silncio, Boone deu-se ao luxo de tomar um conhaque no terrao. Havia uma pilha de formulrios em sua escrivaninha, 
o dever de casa dos pais, que precisavam ser preenchidos como parte da matrcula de Jessie na escola.
    Ele faria isso antes de dormir, decidiu. Mas aquela hora, aquela hora escura, silenciosa, quando a lua quase cheia comeava a nascer, era toda sua.
    Podia observar as nuvens que juntavam-se no cu, prometendo chuva, o som hipntico do mar batendo nas pedras, o tagarelar dos insetos na grama que ele teria 
de cortar muito em breve, o perfume das flores noturnas.
    No era de admirar que ele tivesse comprado a casa logo depois da primeira visita. Nenhum lugar no mundo o deixaria to calmo, nem lhe daria uma sensao to 
grande de paz e conforto. E ela havia apelado para sua imaginao. Os ciprestes de formatos msticos, as plantas exticas que cobriam as encostas, aquelas extenses 
de praia vazias e quase sempre misteriosas.
    A beleza etrea da mulher que morava ao lado.
    Boone sorriu consigo mesmo. Para algum que no costumava sentir nada alm de um leve interesse por uma mulher, h mais tempo do que conseguia se lembrar, ele 
estava sendo inundado, agora.
    Levara muito tempo para esquecer Alice. E, embora no se considerasse um conquistador inveterado, certamente no vivera como um monge naqueles ltimos anos. 
Sua vida no era vazia e ele j era capaz, depois de muito sofrimento, de aceitar o fato de que teria de viv-la.
    Estava bebericando o conhaque, desfrutando o simples prazer da noite, quando ouviu o carro de Ana. No que estivesse esperando por isso, Boone assegurou-se enquanto 
olhava no relgio. Porm, no conseguiu disfarar a satisfao de ver que ela estava chegando cedo, cedo demais para ter sado num encontro com algum.
    No que a vida social dela fosse problema seu.
    No podia avist-la entrando com o carro mas, como a noite estava calma, ouviu a porta bater. Ento, momentos depois, escutou-a abrir e fechar a porta da casa.
    Pousando os ps descalos no piso do terrao, tentou imagin-la andando pela casa. Indo para a cozinha. Sim, a luz acendeu-se e Boone a viu passar pela janela. 
Subindo a escada. Mais luzes, embora ele achasse que parecia o brilho de uma vela, contra o vidro escuro, e no de uma lmpada. Minutos depois, ouviu o leve ressoar 
de uma msica. Acordes de uma harpa. Suaves, romnticos e um tanto tristes.
    Por um breve segundo avistou a silhueta dela em uma das janelas. Pde ver claramente a sombra esguia e feminina enquanto Ana tirava a blusa.
    Mais que depressa, bebeu um gole de conhaque e afastou os olhos. Por mais tentador que fosse, no podia rebaixar-se ao ponto de se tornar um voyeur. No entanto, 
descobriu que estava ansiando por um cigarro e, pedindo desculpas  filha desaprovadora, tirou o mao do bolso.
    A fumaa encheu o ar, acalmou-lhe os nervos. Boone entregou-se ao prazer, ouvindo a msica da harpa.
    Um longo tempo se passou, antes que ele entrasse em casa e fosse dormir, com o barulho da chuva batendo no telhado e a lembrana dos acordes da harpa flutuando 
na brisa noturna.
    
    
    CAPTULO 4
    
    A Cannery Row fervilhava de vida, com o burburinho das pessoas que passeavam ou apressavam-se, com a campainha da bicicleta de um turista, o lamentoso chamado 
das gaivotas esmolando um petisco. Ana gostava das multides e do barulho quase tanto gostava da paz e da solido do seu quintal.
    Com toda pacincia, arrastava-se ao longo do extenso trfego de fim de semana. Na primeira vez que passou pela loja de Morgana, resignou-se com o fato de que 
aquele dia perfeito trouxera uma multido de turistas e moradores para as ruas. Encontrar um lugar para estacionar seria o mesmo que ganhar na loteria. Em vez de 
frustrar-se em busca de um espao na rua, entrou num estacionamento a trs quarteires da Wicca.
    Quando saiu para abrir o porta-malas, ouviu o choro impaciente de uma criana e o murmrio irritado dos pais cansados.
    - Se voc no parar com isso agora mesmo no vai ganhar nada. Estou, falando srio, Timothy. J agentei at demais. Agora, v andando.
    A resposta da criana quela ordem foi atirar-se no cho, transformando-se num pacotinho inerte no meio do estacionamento, enquanto a me puxava-lhe inutilmente 
o brao molhado de lgrimas. Ana mordeu o lbio, contendo um sorriso, mas era bvio que os pais no viam a menor graa na cena. Estavam carregados de pacotes e suas 
expresses eram de fria.
    Timothy, Ana pensou, estava prestes a levar umas palmadas, embora fosse pouco provvel que isso o tornasse mais cooperativo. O pai passou os pacotes para a me 
e, apertando os lbios, abaixou-se.
    Era uma coisa to pequena, Ana pensou. E todos eles pareciam to cansados e infelizes. Ela fez a primeira conexo com o pai, sentiu o amor, a irritao e uma 
sombria vergonha. Depois, com a criana, confuso, cansao e uma profunda infelicidade por no ter ganho o elefante de pelcia que vira na vitrine de uma loja.
    Ana fechou os olhos. A mo do pai havia se levantado quando ele se preparava para administrar uma boa palmada no traseirinho coberto pela fralda. O menino prendeu 
o flego, pronto para emitir um grito agudo de indignao.
    De repente, o pai suspirou, deixando a mo cair ao longo do corpo. Timothy olhou para cima, o rosto quente, rosado e molhado de lgrimas.
    O pai abaixou-se, abraando-o.
    - Ns estamos cansados, no ?
    Com um soluo sentido, Timothy aconchegou-se neles e recostou a cabea no ombro do papai.
    - Com sede.
    - Tudo bem, campeo. - O pai levou a mo ao traseiro do filho, mas para uma palmadinha tranqilizadora. Enviou um sorriso de encorajamento para a esposa de olhos 
molhados. - Por que no vamos tomar um refrigerante gelado? Acho que ele est precisando de uma soneca.
    Afastaram-se, cansados porm aliviados.
    Sorrindo consigo mesma, Ana abriu o porta-malas. Frias em famlia, pensou, no eram apenas alegria e divertimento. Na prxima vez que os trs estivessem prontos 
para rosnar uns para os outros, ela no estaria por perto. Mas imaginou que conseguiriam entender-se sem a sua ajuda.
    Depois de empurrar a bolsa para trs das costas, comeou a descarregar as caixas que estaria entregando para Morgana. Havia meia dzia delas, cheias de sachs 
de potpourris, frascos com essncias e cremes, travesseiros recheados com ervas e flores, e as encomendas de, um ms inteiro, que iam desde tnicos medicinais at 
perfumes personalizados.
    Ana considerou a idia de fazer duas viagens, levando em conta a distncia at a loja, mas decidiu que se equilibrasse tudo com cuidado conseguiria carregar 
todas as caixas de uma vez.
    Empilhou-as, arrumou-as e ajustou-as, depois conseguiu fechar o porta-malas com o cotovelo. Tambm conseguiu atravessar o estacionamento e andar por meio quarteiro, 
antes de comear a censurar-se.
    Por que estava fazendo isso?, perguntou-se. Teria sido melhor fazer duas viagens confortveis do que uma difcil. No que as caixas estivessem to pesadas assim. 
A cada passo ficava cada vez mais difcil carreg-las e a calada estava cheia de gente. E seus cabelos ficavam voando por cima dos olhos. Com uma manobra rpida 
e gil, Ana conseguiu desviar-se de dois adolescentes que vinham em sua direo.
    - Precisa de ajuda?
    Irritada consigo mesma, e com os motoristas irresponsveis, ela virou-se. E ali estava Boone, particularmente bonito usando cala de algodo e camiseta. Montada 
nos ombros dele, Jessie ria e batia palmas.
    - Ns andamos no carrossel, tomamos sorvete e depois vimos voc!
    - Parece que voc continua sobrecarregada - Boone comentou.
    - No esto pesadas.
    Ele bateu na perna de Jessie e, seguindo o sinal, ela comeou a escorregar pelas costas dele.
    - Ns lhe daremos -uma mozinha.
    - Est tudo bem. - Ana sabia que seria tolice rejeitar ajuda quando precisava, mas tivera sucesso em evitar Boone durante a maior parte da semana. E conseguira, 
com quase idntico sucesso, evitar de pensar nele. -- No quero interromper o seu passeio.
    - Ns no vamos a lugar algum, no , Jessie?
    - Hu-hum, estamos s andando por a.  o nosso dia de folga.
    Ana no pde conter um sorriso, como tambm no conteve o temor que surgiu em seus olhos quando virou-se para Boone. No tinha dvidas de que estivera olhando 
para ela com aquele seu jeito desconcertante. O sorriso que beirava-lhe os lbios tinha menos a ver com humor do que com desafio.
    - No vou muito longe - ela tentou novamente, agarrando uma caixa que comeava a escorregar. - Posso muito bem...
    - Est certo. - Ignorando suas objees, Boone tirou-lhe as caixas dos braos, com os olhos fixos nos dela. - Para que servem os vizinhos?
    - Eu posso carregar uma. - Ansiosa para ajudar, Jessie saltitava ao lado deles. - No posso?
    - Obrigada. - Ana entregou a caixa mais leve para a menina. - Vou levar estas coisas para a loja da minha prima, a uns dois quarteires daqui.
    - Ela j ganhou os bebs? - Jessie perguntou, quando comearam a andar.
    - Ainda no.
    - Perguntei ao papai como ela conseguiu ter dois bebs na barriga e ele disse que, s vezes,  porque h o dobro do amor.
    Como algum poderia defender-se de um homem como aquele?, Ana perguntou-se. Seus olhos estavam mais brandos, quando encontraram os dele.
    - Sim,  verdade. Parece que voc sempre tem a resposta certa - Ana murmurou para Boone.
    - Nem sempre. - Ele no tinha certeza se sentia-se aliviado ou aborrecido pelo fato de estar com as mos cheias de caixas. - Mas pelo menos sempre tento acertar. 
Onde tem se escondido, Anastsia?
    - Escondido? - O calor desapareceu dos olhos dela.
    - H dias que no a vejo no jardim. Voc no me parece o tipo que se amedronta facilmente.
    Como Jessie estava andando logo  frente deles, Ana achou melhor no retrucar com uma resposta afiada.
    - No sei o que est dizendo. Estive trabalhando a semana inteira. Um bocado, alis. - Fez um gesto indicando as caixas. - Voc est carregando uma parte deste 
trabalho, agora mesmo.
    - Ento foi por isso? Bem, fico contente por no ter chegado ao ponto de bater na sua porta fingindo precisar de uma xcara de acar. Quase fiz isso, mas achei 
que seria bvio demais.
    Ela enviou-lhe um olhar rpido.
    - Agradeo sua moderao.
    - Pois deveria agradecer, mesmo.
    Em resposta, Ana limitou-se a afastar os cabelos do rosto, e chamou Jessie.
    - Vamos por este caminho, para entrarmos pelos fundos. A loja sempre fica muito cheia aos sbados - ela explicou a Boone. - No gosto de entrar pela loja e incomodar 
os fregueses.
    - Afinal, o que ela vende nesta loja?
    - Ah... -Ana sorriu. - Um pouco de tudo. Creio que voc vai achar as mercadorias particularmente interessantes. Aqui estamos. - Indicou um alpendre revestido 
de pedras e enfeitado com vasos de gernios vermelhos. - Voc pode abrir a porta, Jessie?
    -  claro. - Ansiosa para ver o que haveria do outro lado, Jessie escancarou a porta e emitiu uma exclamao. - Ah, olhe, papai! - Deixou a caixa no primeiro 
espao vazio que encontrou e praticamente mergulhou em cima da enorme gata branca que lambia-se em cima da mesa.
    - Jssica! - A voz de Boone foi breve e firme, e fez com que a menina parasse imediatamente. - O que foi que eu lhe disse sobre brincar com animais estranhos?
    - Mas, papai, ele  to bonito.
    - Ela - Ana corrigiu enquanto deixava as caixas no balco. - E seu pai tem toda razo. Nem todos os animais gostam de brincar com menininhas.
    - Ela gosta?
    - As vezes Luna no gosta de ningum. - Rindo, Ana afagou a cabea da gata. - Mas se voc for bem-educada e agrad-la somente depois que ela lhe der o consentimento 
real, vai se sair muito bem. - Ana enviou um sorriso tranqilizador para Boone. - Luna no vai arranh-la. Se no gostar da brincadeira, ela simplesmente se afasta.
    Mas, ao que parecia, Luna estava disposta a receber ateno. Andando at a beirada da mesa, esfregou a cabea nas mos que Jessie estendia.
    - Ela gosta de mim! - O sorriso da menina era radiante. - Olhe, papai, ela gostou de mim!
    - , estou vendo.
    - Morgana geralmente deixa alguns refrigerantes aqui nos fundos. - Ana abriu a pequena geladeira. - Vocs querem alguma coisa?
    - Sim, obrigado. - Boone no estava realmente com sede, mas a oferta lhe dava um motivo para demorar-se um pouco mais. Recostou no balco da quitinete, enquanto 
Ana pegava os copos. - A loja fica do outro lado?
    Vendo que ele indicava a porta, Ana assentiu.
    - Sim, s que antes h um depsito. Mas a maioria das coisas que Morgana vende so peas nicas, portanto ela no tem um grande estoque guardado.
    Ele estendeu a mo sobre o ombro de Ana para tocar as folhas pontiagudas do alecrim que estava na janela.
    - Ela tambm lida com estas coisas?
    Ana tentou ignorar o fato de que seus corpos se tocavam. Podia sentir o cheiro do mar nele, e imaginou que tivesse ido com Jessie alimentar as gaivotas na praia.
    - Que tipo de coisas?
    - Ervas e tudo mais.
    - Sim, de certa forma. - Ela virou-se, sabendo que estavam prximos demais, e empurrou o copo no peito dele. - Tome, est gelado.
    - timo. - Mesmo sabendo que no era muito justo, e provavelmente muito arriscado, Boone pegou o copo e permaneceu no mesmo lugar onde estava. Ela teve de inclinar 
a cabea para encontrar-lhe os olhos. - Poderia ser um bom hobby para mim e Jessie. Talvez voc pudesse nos ensinar como cultiv-las.
    -  o mesmo que cultivar qualquer ser vivo. -- Ana precisou de um grande esforo para manter a voz firme, quando sentia tanta dificuldade em respirar. - Precisam 
de cuidado, ateno e carinho. Boone, voc est no meu caminho.
    - Espero que sim. - Com os olhos muito intensos, fixos nos dela, ele levantou a mo para tocar-lhe o rosto. - Anastsia, acho que realmente precisamos...
    - Foi o que ns combinamos, benzinho. - A voz firme ressoou quando a porta se abriu. - Um descanso de quinze minutos a cada duas horas de trabalho.
    - Voc est sendo ridculo! Pelo amor de Deus, est agindo como se eu fosse a nica mulher grvida no mundo.
    Exalando um suspiro, Morgana entrou na saleta dos fundos. Arqueou a sobrancelha assim que avistou o trio, e principalmente quando viu a maneira como Boone encurralava 
sua prima contra o balco.
    - Voc  a nica mulher grvida no meu mundo. - Nash calou-se de repente, mas por pouco tempo. - Ei, Ana, voc  exatamente a pessoa que preciso para convencer 
Morgana a ir com calma. Agora que est aqui, eu posso... - Olhou para o homem que estava ao lado dela e deu um passo para trs, a fim de focaliz-lo melhor. - Boone? 
Ora, isso no  possvel! Boone Sawyer, seu... - Interrompeu-se quando Morgana deu-lhe um cutuco na costela. Havia uma garotinha de olhos arregalados, parada ao 
lado da mesa. Atravessou a saleta para cumpriment-lo e deu-lhe um sonoro tapa nas costas, num gesto tipicamente masculino. - O que est fazendo aqui?
    - Entregando umas encomendas, eu acho. - Boone sorriu, apertando a mo de Nash com fora. - E voc?
    - Tentando manter minha esposa na linha. Meu Deus, h quanto tempo? Quatro anos?
    - Mais ou menos.
    Morgana cruzou as mos sobre a barriga.
    - Imagino que vocs j se conheam...
    -  claro que sim. Boone e eu nos conhecemos num encontro de escritores. Deve ter sido uns dez anos atrs, no ? No o vejo desde que... - Desde a morte de 
Alice, Nash lembrou de repente. E lembrou-se tambm da devastao, do desespero e da incredulidade nos olhos de Boone, enquanto postava-se ao lado da sepultura da 
esposa. - Como esto as coisas?
    - Tudo bem. - Compreendendo o que o outro sentia, Boone sorriu. - Ns dois estamos bem.
    - timo. - Nash pousou a mo no ombro de Boone e pressionou-o, antes de voltar-se para a menina. - E voc  Jssica.
    Ela abriu-lhe um largo sorriso, sempre interessada em conhecer gente nova.
    - Quem  voc?
    - Eu sou Nash. - Ele chegou mais perto e abaixou-se. Exceto pelos olhos, que eram idnticos aos de Boone, ela era a imagem de Alice. Linda, luminosa e travessa. 
Ofereceu-lhe a mo para um cumprimento formal. -  um prazer tornar a v-la.
    Ela riu e cumprimentou-o.
    - Foi voc que ps os bebs na barriga de Morgana?
    Nash ficou sem fala por um segundo.
    - Culpado! - exclamou, estendendo as mos. Depois, riu e pegou-a no colo. - Mas j encarreguei Ana de tir-los de l. Ento, o que vocs dois esto fazendo em 
Monterey?
    - Ns moramos aqui - Jessie respondeu. - Bem ao lado da casa de Ana.
    - Est brincando! - Nash sorriu para Boone. - Desde quando?
    - H pouco mais de uma semana. Eu sabia que voc estava morando aqui e at pensei em procur-lo depois que nos instalssemos. Mas nunca imaginei que fosse casado 
com a prima da minha vizinha.
    -  mesmo um mundo pequeno e fascinante, no ?! - Morgana comentou. Inclinou a cabea para a prima, ciente de que Ana no dissera nenhuma palavra, desde o instante 
em que eles entraram na saleta. - Bem, j que ningum vai me apresentar, eu sou Morgana.
    - Desculpe-me - Nash falou, mudando Jessie de posio em seu colo. - Sente-se, meu bem.
    - Eu estou perfeitamente...
    - Sente-se. - Dessa vez foi Ana quem falou, puxando uma cadeira para a prima.
    - A maioria vence. - Morgana suspirou e sentou-se. - Voc est gostando de Monterey?
    - Muito - Boone respondeu, e seus olhos voltaram-se para Ana. - Muito mais do que eu previa.
    - Eu sempre gosto de ter mais do que previa. - Rindo, Morgana deu uma palmadinha na barriga. - Temos de nos reunir os quatro muito em breve, para que voc me 
conte tudo o que Nash no quer que eu saiba.
    - Com todo prazer.
    - Benzinho, voc sabe que minha vida  um livro aberto. - Nash beijou Morgana na testa e piscou para Ana. - Estas so as coisas que Morgana estava esperando?
    - Sim, est tudo aqui. - Ansiosa para ocupar-se, Ana virou-se para a pilha de caixas. - Vou desempacotar para voc. Morgana, quero que experimente esta nova 
loo de violeta antes de comear a vender, e tambm lhe trouxe mais xampu de babosa.
    - timo, todos os que tnhamos acabaram. - Morgana pegou a loo e abriu a tampa. - O perfume  bom. - Pingou uma gota nas costas da mo e esfregou-a. - Tem 
tima textura, tambm.
    - So violetas doces e um pouco do musgo irlands que papai me mandou. - Ana ergueu os olhos da caixa. - Nash, por que no vai mostrar a loja para Jessie e Boone?
    - Boa idia. Acho que voc vai se interessar bastante pelo que temos aqui - Nash falou para Boone, enquanto o guiava para a porta.
    Boone olhou por cima do ombro, antes de sair.
    - Anastsia. - Esperou at que ela o olhasse. - No v fugir.
    - Ora, ora, ora... - Morgana recostou na cadeira e sorriu como uma gata. - Quer me contar?
    Com um pouco mais de fora do que o necessrio, Ana rasgou a fita adesiva da caixa.
    - Contar o qu?
    - Sobre voc e este seu vizinho bonito,  claro.
    - No h nada para contar.
    - Querida, eu conheo voc. Quando entrei nesta sala voc estava to envolvida com ele que eu poderia ter invocado um tornado e voc nem perceberia.
    Ana ocupou-se desembrulhando os frascos.
    - No seja ridcula. Voc no invoca um tornado desde a primeira vez que assistimos "O Mgico de Oz".
    - Ana. - A voz de Morgana era baixa e firme. - Eu amo voc.
    - Eu sei. E amo voc, tambm.
    - Voc nunca fica nervosa.  por isso que estou achando fascinante, e um tanto preocupante tambm, v-la to nervosa agora.
    - No estou nervosa. - Ana bateu dois frascos de vidro, ao tir-los da caixa, e fez uma careta. - Est bem, est bem. Eu preciso pensar. - Fez a volta em torno 
do balco. - Ele me deixa nervosa, e seria ridculo negar que fico nervosa porque estou me sentindo to atrada por ele. S preciso pensar mais um pouco.
    - Pensar em qu?
    - Em como lidar com tudo isso. Isto , com ele. No tenho inteno de cometer outro erro, principalmente se levar em conta de que tudo o que envolve Boone tambm 
envolve Jessie.
    - Ah, querida, voc est apaixonando-se por ele!
    - Isso  absurdo! - Um pouco tarde demais, Ana deu-se conta de que sua reao fora muito forada para ser levada a srio. - Estou apenas agitada,  tudo. Um 
homem no me afetava fisicamente dessa forma desde... - Desde nunca, pensou. Nunca antes, Ana tinha medo de que nunca mais. - Desde muito tempo. S preciso pensar 
- repetiu.
    - Ana. - Morgana estendeu as mos. - Sebastian e Mel estaro de volta daqui a dois dias. Por que no pede a ele que olhe para voc? Tenho certeza de que ficaria 
mais sossegada, se soubesse.
    Resoluta, Ana balanou a cabea.
    - No. Na verdade, j pensei nisso. Mas conclu que, seja l o que acontecer, ou quando acontecer, eu quero que estejamos em p de igualdade. O fato de saber 
me daria uma vantagem injusta sobre Boone. E tenho o pressentimento de que esta igualdade ser importante para ns dois.
    - Voc sabe disso melhor do que eu. Mas deixe-me dizer uma coisa, como mulher. - Morgana sorriu. - E como feiticeira. Saber ou no saber no faz diferena com 
um homem, a partir do momento em que ele toca o seu corao. Nenhuma diferena, mesmo.
    Ana assentiu.
    - Ento tenho de me certificar de que ele no toque o meu corao, antes que eu esteja preparada.
    
    - Isso  incrvel - Boone estava dizendo enquanto andava pela loja. -  incrvel!
    - Foi exatamente o que pensei, quando entrei aqui pela primeira vez. - Nash pegou um basto de cristal com uma ametista na ponta. - Acho que as pessoas que fazem 
o que ns fazemos ficariam malucas com estas coisas.
    - Escrever contos de fadas - Boone concordou, pegando o basto antes de passar o dedo sobre as costas de bronze de um lobo. - Ou escrever sobre ocultismo. Existe 
uma linha bem tnue entre essas duas coisas. Seu ltimo filme me deixou arrepiado de medo, at quando me provocava risadas.
    Nash sorriu.
    - O humor no terror.
    - Ningum faz isso melhor do que voc. - Boone olhou para a filha. Jessie admirava um castelo de prata em miniatura cercado de cristais que formavam arco-ris. 
Seus olhos estavam arregalados, as mozinhas cruzadas atrs das costas. - Jamais conseguirei sair desta loja de mos vazias.
    - Ela  linda, Boone - Nash falou, imaginando, como fazia com freqncia, como seriam seus filhos que nasceriam em breve.
    - Ela se parece muito com a me. - Boone viu a interrogao e a preocupao nos olhos do amigo. - A tristeza passa, Nash, quer voc queira ou no. Alice foi 
uma parte maravilhosa da minha vida e deu-me a melhor coisa que eu poderia ter. Agradeo por cada minuto que tive com ela. - Deixou o basto no mostrurio. - Agora, 
quero saber como  que voc, o solteiro mais convicto do mundo, acabou se casando e vai ser pai de gmeos.
    - Fazendo pesquisas. - Nash sorriu e balanou nos calcanhares. - Eu queria sair de Los Angeles, mas no para muito longe, ento me mudei para c. Estava aqui 
havia pouco tempo, quando precisei fazer algumas pesquisas para um roteiro. Entrei nesta loja, e l estava ela.
    Havia mais, evidentemente. Muito mais. Porm, no seria ele quem contaria a Boone sobre o legado dos Donovan. Nem mesmo se houvesse a menor possibilidade de 
Boone acreditar.
    - Quando finalmente decidiu dar o salto, foi dos grandes.
    - Ora, voc tambm. Indiana fica bem distante daqui.
    - Eu quis ficar bem longe - Boone falou, sorrindo. - Dos meus pais, dos pais de Alice. E queria uma mudana radical, para ns dois.
    - Vizinho de Ana, hein? - Nash estreitou os olhos. - A casa de madeira, com janelas grandes e um terrao?
    -  esta mesmo.
    - tima escolha. - Nash olhou novamente para Jessie. Ela andara pela loja, olhara os objetos, mas acabara voltando para o castelinho de prata. Em nenhum momento 
pedira ao pai que o comprasse e isso tornava ainda mais eficiente a expresso desejosa em seus olhos. - Se voc no comprar aquele castelo para ela, eu compro.
    
    Quando Ana entrou na loja a fim de guardar algumas coisas nas prateleiras, no viu apenas o castelo sendo embrulhado, mas tambm o basto de cristal, uma escultura 
de uma fada alada que ela prpria estivera cobiando, um prisma de cristal no formato de unicrnio, um feiticeiro de estanho segurando uma bola multifacetada, e 
uma pedra d'gua do tamanho de uma bola de tnis.
    - Ns somos fracos - Boone falou com um sorriso rpido e travesso, quando Ana arqueou a sobrancelha. - No temos a menor fora de vontade.
    - Mas tm um gosto excelente. - Ela passou o dedo pelas asas da fada. -  linda, no acha?
    - Uma das mais belas que j vi. Pensei em deix-la no meu escritrio, para me trazer inspirao.
    - Boa idia. - Ana inclinou-se sobre um compartimento que continha pedras avulsas. - Malaquita, para voc pensar com clareza. - Seus dedos vasculhavam as pedras, 
experimentando, rejeitando, selecionando. - Sodalite, para aliviar a confuso mental, pedra da lua para a sensibilidade. E ametista,  claro, para a intuio.
    -  claro.
    Ela ignorou a ironia.
    - Um cristal para atrair todas as coisas boas. - Inclinando a cabea, observou-o. - Jessie me disse que voc est tentando parar de fumar.
    Boone encolheu os ombros.
    - Estou diminuindo.
    Ana entregou-lhe o cristal.
    - Deixe no seu bolso. As pedras so por conta da casa. Quando ela virou-se, levando os frascos coloridos, Boone pegou o cristal e esfregou-o entre os dedos. 
Mal no iria fazer.
    
    Boone no acreditava em cristais mgicos nem no poder das pedras, embora pensasse que dariam um bom motivo para um livro. Tambm tinha de admitir que ficavam 
bem bonitos naquele prato de vidro em que os pusera, sobre a escrivaninha. Davam uma certa atmosfera, pensou, como a pedra d'gua, que estava usando como peso de 
papel.
    No fim das contas, aquela tarde lhe trouxera vrios benefcios. Ele e Jessie tinham se divertido um bocado, andando no carrossel no Emporium, jogando videogame 
e passeando pela Cannery Row e pelo Fisherman's Wharf. O fato de terem encontrado Anastsia havia coroado o dia, pensou enquanto brincava com uma sedosa pedra da 
lua. E ter reencontrado Nash, saber que ele morava ali perto, fora timo.
    Boone andava sentindo falta de companhia masculina. Era engraado que nem mesmo percebera isso, com toda a agitao dos ltimos meses, planejando e executando 
a mudana, acostumando-se  nova casa e  nova situao. E Nash, embora a amizade entre eles tivesse sido principalmente atravs de cartas em todos aqueles anos, 
era a companhia que Boone preferia. Descontrado, leal, cheio de imaginao.
    E seria interessante poder passar alguns conselhos paternais para Nash, depois que os gmeos nascessem.
    Ah, sim, ele refletiu enquanto erguia a pedra da lua, vendo como brilhava sob a luz do luar que penetrava pela janela do escritrio, era mesmo um mundo pequeno 
e fascinante.
    Um de seus mais antigos amigos casado com a prima da sua vizinha. Sem dvida, a partir de agora, seria difcil Anastsia continuar evitando-o.
    E, no importava o que ela dissesse, era exatamente o que estava fazendo. Boone tinha um forte pressentimento, e no podia deixar de achar graa nisso, de que 
estava deixando aquela fada um tanto nervosa.
    Ele quase se esquecera de como abordar uma mulher que reagisse com leves rubores, olhos confusos e rpidas palpitaes. Quase todas as mulheres com quem sara 
nos ltimos anos tinham sido modernas e sofisticadas, e no ofereciam perigo, acrescentou com um leve encolher de ombros. Gostava da companhia delas, e jamais perdera 
o prazer bsico pela companhia feminina. Porm no havia ali nenhum mistrio, nenhum encanto, nenhuma iluso.
    Boone imaginava que ainda era o tipo de homem que se sentia atrado por mulheres do tipo antiquado. O tipo que combina com rosas e luar, pensou, rindo consigo 
mesmo. Ento, ele a avistou, e o riso morreu em sua garganta.
    Ana estava no jardim, caminhando, quase deslizando sob a luz prateada, seguida pelo gato cinzento que entrava e saa das sombras. Seus cabelos estavam soltos, 
espalhando fios de ouro pelos seus ombros e pelas costas de um manto azul claro. Carregava uma cesta e Boone pensou t-la ouvido cantar, enquanto cortava as flores 
e as guardava dentro dela.
    Ela entoava um cntico antigo, que lhe fora passado de gerao aps gerao. Era mais de meia-noite, e Ana julgou que estivesse sozinha e sem ser observada. 
A primeira noite da lua cheia, no outono, era o tempo de colher, como a primeira noite de lua cheia, na primavera, era o tempo de semear. Ela j formara o crculo, 
purificando a rea.
    Deixava as flores e ervas na cesta to delicadamente quanto uma criana.
    Havia magia em seus olhos. E no seu sangue.
    - Sob a lua, atravs das sombras e da luz, estas plantas eu escolho pelo tato, pela viso. Um encanto para tecer, fortalecer e libertar. Como eu mesma, ao p 
voltars.
    Colheu betnicas e heliotrpios, arrancou razes de mandrgora e selecionou a tansia e o abeto balsmico. Rosas vermelhas para a fora e tomilho para a sabedoria. 
A cesta ficava mais pesada e fragrante.
    - Esta noite colher, amanh semear. Colher apenas o que ajudei a crescer. Lembrando sempre qual  o comeo. Para servir, para curar e no causar nenhum mal.
    Enquanto proferia o encantamento, Ana baixou o rosto para as flores, mergulhando na melodia madura do perfume.
    - Eu estava pensando se voc era real.
    Ela levantou a cabea rapidamente e o avistou, apenas um pouco mais do que uma sombra junto  cerca de flores. Ento ele entrou em seu jardim, e transformou-se 
num homem.
    O corao que havia disparado em seu peito foi aos poucos se acalmando.
    - Voc me assustou.
    - Desculpe-me. - Devia ser o luar, ele pensou, que a fazia parecer to... encantada. - Eu estava trabalhando e olhei pela janela. E vi voc. Parecia um pouco 
tarde para colher flores.
    - O luar est bem forte. - Ana sorriu. Ele no vira nada que no pudesse ver. - Acho que voc deveria saber que qualquer coisa colhida sob a lua cheia possui 
um encantamento.
    - Voc tem algum rapncio?
    A referncia a Rapunzel fez com que Ana risse.
    - Por acaso tenho, sim. Nenhum jardim mgico est completo sem esta erva. Posso preparar-lhe uma poo com ela, se quiser.
    - Eu raramente digo no  magia.
    A brisa esvoaou os cabelos dela. Entregando-se ao momento, Boone estendeu a mo e tocou-os. Viu o sorriso desaparecer dos olhos dela, sendo substitudo por 
um brilho que fez o seu sangue correr mais rpido.
    - Voc devia voltar para casa. Jessie est sozinha.
    - Ela est dormindo. - Boone aproximou-se mais, como se a mecha de cabelos que enrolara no dedo fosse um cordo, atravs do qual ela o puxava. Estava dentro 
do crculo, agora, dentro da magia que ela evocara. - As janelas esto abertas, de forma que posso ouvir se ela me chamar.
    -  tarde. - Ana agarrou a cesta com tanta fora que o vime enterrou-se em sua mo. - Eu preciso...
    Delicadamente, ele pegou a cesta e deixou-a no cho.
    - Eu tambm preciso. - Afastou-lhe os cabelos do rosto, suavemente. - Preciso muito.
    Enquanto seus lbios moviam-se na direo dos dela, Ana estremeceu e tentou, pela ltima vez, manter o controle.
    - Boone, se comearmos algo assim tudo ficar mais complicado, para ns dois.
    - Talvez eu j esteja cansado das coisas simples. - Ele virou a cabea, apenas um pouco, e seus lbios encontraram a testa de Ana. - Fico surpreso por voc no 
saber que, quando um homem encontra uma mulher colhendo flores sob o luar, ele no tem outra escolha seno beij-la.
    Ana sentiu-se derreter. Seu corpo estava dcil quando aconchegou-se nos braos dele.
    - E ela no tem outra escolha seno beij-lo tambm.
    Inclinando a cabea para trs, ela ofereceu-lhe os lbios. Boone pensou que os tomaria com delicadeza. A noite convidava a isto, com a brisa perfumada e a msica 
sonhadora do mar contra as rochas. A mulher em seus braos era frgil como uma haste de flor, e seu fino manto de seda era fresco sob o calor da pele acetinada.
    Mas ele sentiu-se mergulhar naqueles lbios macios e cheios, enquanto o perfume dela o envolvia sedutoramente. Abraou-a com fora contra si, e mergulhou.
    Instantaneamente desesperado, faminto. Nenhum pensamento racional poderia abrir caminho por entre o emaranhado de sensaes que ela lhe provocava. Uma flecha 
aguda de desejo o perpassou, fazendo-o gemer com a antecipao do prazer.
    Dor. Ele sentia dores de uma centena de espinhos por todo o corpo. Ainda assim, no conseguia afastar-se dela, no podia evitar que seus lbios quisessem devor-la 
mais e mais. Tinha medo, um medo assustador de que ela pudesse desaparecer no ar, se a soltasse, e de que nunca, nunca mais ele se sentisse assim outra vez.
    Ana no podia aliviar as dores dele. Parte de si queria afag-lo e prometer que tudo ficaria bem, para os dois. Mas no podia. Ele a devastava. Fosse por causa 
de suas prprias necessidades arrebatadoras, pelo eco do desejo dele penetrando-a, ou uma mistura de ambos, o resultado era uma completa ausncia de fora de vontade.
    Ela soubera, sim, ela soubera que aquele primeiro encontro seria forte e selvagem. E ansiara por ele, tanto quanto o temia. Agora, estava alm do medo. Como 
ele, achava a mistura de dor e prazer irresistvel.
    Suas mos trmulas deslizaram pelo rosto dele, pelos cabelos, prendendo-se ali. Seu corpo, trmulo de desejo, pressionava-se contra o dele. Quando murmurou o 
seu nome, ela estava ofegante.
    Mas ele ouviu, ouviu atravs do sangue que pulsava em seu crebro, ouviu o som suave, trmulo. Ela estava tremendo, ou seria ele? A incerteza sobre quem estava 
mais atordoado fez com que Boone se afastasse, devagar, cuidadosamente.
    Mas ele a manteve em seus braos, os olhos fixos nos dela. Sob a luz da lua, Ana enxergou-se ali, presa num mar de azul. Presa dentro dele.
    - Boone...
    - Ainda no. - ele precisava de um momento para se recuperar. Deus, ele quase a engolira inteira! - Ainda no. - Contendo-se ao mximo, tocou os lbios nos dela, 
num beijo longo e calmo, que destruiu tudo o que restava das defesas de Ana. - Eu no queria machuc-la.
    - Voc no me machucou. Voc me deixou atordoada.
    - Pensei que estivesse pronto para isso. - Ele deslizou as mos pelos braos dela, antes de solt-la. - Mas no sei se algum estaria. - Por no saber o que 
aconteceria se tornasse a toc-la, enfiou as mos nos bolsos. - Talvez seja a lua, talvez seja apenas voc. Preciso ser sincero, Anastsia, no sei muito bem como 
lidar com isso.
    - Ora... - Ela cruzou os braos no peito, apertando-os com fora. - Ento somos dois.
    - Se no fosse por Jessie, eu no iria entrar naquela casa sozinho, esta noite. E no costumo brincar quando se trata de intimidade.
    Mais controlada agora, ela concordou.
    - Se no fosse por Jessie, talvez eu lhe pedisse para ficar comigo esta noite. - Respirou fundo. Sabia que era importante ser honesta, pelo menos naquele ponto. 
- Voc seria o primeiro, para mim.
    - O primeiro... - As mos dele ficaram imveis. Agora, sentia um misto de medo e incrvel excitao ao pensar na inocncia dela. - Ali, meu Deus...
    Ana empinou o queixo.
    - No me envergonho disto.
    - No, eu no quis dizer que... - Sem saber o que falar, Boone passou a mo nos cabelos. Inocente. Uma virgem de cabelos dourados, num manto azul e com flores 
aos seus ps. E ele teria de resistir, ir embora sozinho. - Imagino que voc no tenha idia do que isso provoca num homem.
    - No exatamente, desde que no sou um homem. - Ela abaixou-se para pegar a cesta. - Mas sei o que provoca numa mulher pensar que em breve estar se entregando 
pela primeira vez a um homem. Por isso, acho que ns dois devemos pensar bem no que vamos fazer. - Ela sorriu, ou pelo menos tentou. - E  muito difcil pensar com 
clareza depois da meia-noite, quando a lua est cheia e as flores esto maduras.  melhor dizer boa noite, Boone.
    -Ana. - Ele tocou-lhe o brao, mas no a segurou. - Nada vai acontecer antes que voc esteja pronta.
    Ela balano a cabea.
    - Vai acontecer, sim. Porm, s acontecer aquilo que for para acontecer.
    Com o manto esvoaando  sua volta, Ana correu na direo da casa.
    
    
    CAPTULO 5
    
    O sono havia demorado a chegar. Mas, em vez de virar-se de um lado para outro na cama, Boone ficara apenas imvel, olhando para o teto. E vira o luar transformar-se 
naquela escurido total que antecede o amanhecer.
    Agora, com o sol penetrando em luminosas faixas sobre a cama, ele estava de bruos, todo esparramado e dormindo profundamente. No sonho que flutuava em sua mente, 
ele pegava Ana nos braos e carregava-a por uma longa e curva escadaria de mrmore branco. No alto, suspensa sobre nuvens fofas e imaculadas, havia uma cama imensa, 
recoberta por cascatas de cetim branco. Centenas de velas longas e finas ardiam num brilho oscilante. Ele sentia o perfume das velas, a suave doura da baunilha, 
o misticismo do jasmim. E o perfume de Ana, tranqilamente sensual, que estava sempre presente.
    Ela sorriu. Os cabelos brilhavam como o sol. Os olhos como fumaa azulada. Quando Boone a fez deitar na cama, ambos afundaram como se estivessem nas nuvens. 
Os acordes de uma harpa encheram o ar, romnticos como lgrimas e num sussurro que mais parecia a respirao das nuvens.
    Ela estendeu os braos, envolvendo-o, e ambos flutuavam como espritos em alguma fantasia, unidos pelo desejo, pelo conhecimento e pela doura insuportvel daquele 
primeiro e longo beijo. Os lbios dela moveram-se sob os seus, enquanto ela murmurava...
    - Papai!
    Boone acordou de repente, quando a filha aterrisou com um baque nas suas costas. Seus gemidos incompreensveis fizeram com que ela risse e se abaixasse para 
beijar-lhe o rosto spero.
    - Papai, acorde! Eu fiz o seu caf da manh!
    - Caf da manh. - Ele afundou no travesseiro, lutando para clarear a mente e afastar o sonho do seu sistema. - Que horas so?
    - O ponteiro pequeno est no dez e o grande est no trs. Eu fiz torradas com canela e servi o suco de laranja nos copinhos.
    Ele gemeu novamente e girou o corpo, observando Jessie com os olhos ardendo. Ela parecia to luminosa quanto um raio de sol, usando short e blusinha cor-de-rosa. 
Abotoara os botes na seqncia errada, mas conseguira escovar os cabelos.
    - Faz tempo que voc acordou?
    - Horas e horas e horas. Deixei Daisy sair e dei comida para ela. Depois me vesti sozinha, escovei os dentes e fiquei assistindo desenhos. Ento fiquei com fome, 
e fui fazer o caf da manh.
    - Voc andou bastante ocupada.
    - Hu-hum. E fiquei quietinha, tambm, para voc no ter de acordar cedo no seu dia de dormir at mais tarde.
    - Sim, ficou bem quietinha, mesmo. - Boone sentou na cama e arrumou os botes da blusa dela. - Acho que merece um prmio.
    Os olhos dela iluminaram-se.
    - O qu? Que prmio?
    - Que tal uma cceguinha na barriga? - Boone rolou com ela na cama, fazendo-lhe ccegas na barriga enquanto Jessie ria e dava gritinhos. Mas deixou-a vencer, 
fingindo exausto e derrota quando ela o jogou de bruos. - Voc  forte demais para mim.
    -  porque eu como toda a minha verdura. E voc no.
    - Eu como um pouco.
    - No come nada.
    - Quando voc tiver trinta e trs anos tambm no vai precisar comer couve-de-bruxelas. 
    - Eu gosto de couve-de-bruxelas. 
    Boone sorriu.
    - S porque eu as preparo to bem. Sou um timo cozinheiro. Mas a minha me no sabia cozinhar direito.
    - Ela nem faz comida, agora. - Jessie escreveu o prprio nome com o dedinho nas costas do pai. - Ela e o vov Sawyer sempre saem para comer fora.
    - Isso porque o vov Sawyer no  nenhum bobo. - Ela estava tendo dificuldade com a letra S, Boone reparou. Precisavam treinar mais um pouco.
    - Voc disse que hoje podamos ligar para o vov e a vov Sawyer e para Nana e Pop. Vamos ligar?
    - Sim,  claro, depois que tomarmos o caf. - Ele virou-se, observando-a. - Voc sente falta deles, benzinho?
    - Sinto, sim. - Com a lngua entre os dentes, ela comeou a escrever Sawyer no peito dele. -  um pouco esquisito que eles no estejam aqui. Eles vm visitar 
a gente?
    -  claro que sim. - A culpa, que era parte inerente da paternidade, atingiu-o em cheio. - Voc preferia que estivssemos em Indiana?
    - De jeito nenhum! - Ela arregalou os olhos. - L no tnhamos praia, nem as focas e tudo, ou o carrossel na cidade, nem uma vizinha como Ana. Aqui  o melhor 
lugar do mundo!
    - Eu tambm gosto daqui. - Boone sentou-se e beijou-a na testa. - Agora, d o fora que preciso me vestir.
    - Voc vai descer logo para tomar o caf da manh? - ela perguntou, escorregando para fora da cama.
    - Com certeza. Estou com tanta fome que sou capaz de comer um po inteiro de torradas com canela.
    Encantada, ela correu para a porta.
    - Ento vou fazer mais, agora mesmo.
    Sabendo que Jessie levaria seu comentrio ao p da letra e acabaria com um pacote inteiro de po de forma, Boone tomou um banho rpido, decidiu no fazer a barba 
e vestiu uma bermuda e camiseta que, provavelmente, teriam sido mais adequados a uma pilha de trapos.
    Tentou no pensar muito no sonho que tivera. Afinal, era bem fcil de ser interpretado. Ele queria Ana, nenhuma novidade, ali. E todo aquele cenrio branco era 
obviamente um smbolo da pureza dela.
    E isso o deixava muito assustado.
    Encontrou Jessie na cozinha, muito ocupada em passar manteiga em mais um pedao de torrada. Havia um prato cheio delas, e a maioria estava queimada. O cheiro 
de canela espalhava-se pela casa inteira.
    Boone ligou a cafeteira e fez o caf, antes de provar um pedao. Estava fria, dura e com uma crosta grossa de acar e canela. Era evidente que Jessie herdara 
os talentos culinrios da me.
    - Est timo - ele disse, engolindo corajosamente. -  o que mais gosto de comer, nas manhs de domingo.
    - Posso dar um pouco para Daisy?
    Boone olhou novamente para a pilha de torradas, depois para o filhote, cuja lngua pendurava-se para fora. Com alguma sorte, poderia dividir metade daquele desjejum 
dominical com a cadelinha.
    - Acho que sim. - Abaixando-se, Boone estendeu a segunda fatia de torrada perto o bastante para que Daisy a cheirasse. - Sente! - ordenou, na voz firme e direta 
que os livros de adestramento sugeriam.
    Daisy continuou com a lngua pendurada e balanando a cauda.
    - Daisy, sente! - Ele deu um empurrozinho no traseiro. Daisy deitou no cho, mas logo virou-se e se ps novamente de p, pulando para ele. - Esquea.
    Boone estendeu a torrada para fora do alcance da cachorrinha e repetiu o comando. Depois de cinco frustrantes minutos, durante os quais ele tentou no se lembrar 
de como tinha sido fcil com Ana, conseguiu que o filhote obedecesse. Daisy engoliu a torrada aucarada, satisfeita consigo mesma.
    - Ela sentou, papai!
    - Mais ou menos. - Boone levantou-se para pegar mais caf. - Ns vamos lev-la l para fora e dar-lhe uma aula de verdade.
    - Tudo bem. - Jessie mastigou a torrada alegremente. - Talvez a visita de Ana j tenha ido embora, e ela possa nos ajudar.
    - Visita? - Boone perguntou, pegando uma caneca no armrio.
    - Eu vi Ana l fora com um homem. Ele estava abraando-a com fora, deu-lhe um beijo e tudo.
    - Ela... - Boone derrubou a caneca no balco. 
    - Mo furada! - Jessie exclamou, sorrindo.
    - ... - Boone manteve-se de costas para ela enquanto virava a caneca e servia-se de caf. - Ahn... Como era este homem? - Achou que seu tom de voz era distrado 
o bastante, pelo menos para enganar uma menina de seis anos. 
    - Ele era alto, de cabelos escuros. Eles estavam rindo e andando de mos dadas. Talvez seja o namorado dela. 
    - Namorado - Boone repetiu por entre os dentes. 
    - O que foi, papai?
    - Nada. O caf est quente. - Bebeu-o puro. De mos dadas, pensou. Beijando-se. Ele tinha de dar uma olhada no sujeito. - Por que no vamos para o terrao, Jessie? 
Ver se Daisy consegue sentar outra vez.
    - Ok. - Cantando a msica que aprendera na escola, Jessie pegou o prato de torradas. - Eu gosto de comer l fora.  gostoso.
    - , muito gostoso. - Boone no sentou, quando chegaram no terrao, mas apoiou-se no gradil de madeira, com a caneca na mo.
    No avistou ningum no quintal ao lado, e isso era o pior. Agora podia imaginar o que Ana e o namorado alto e moreno estavam fazendo l dentro.
    Sozinhos.
    Comeu mais trs fatias de torrada, engolindo-as com a ajuda do caf, enquanto fantasiava sobre o que iria dizer  srta. Anastsia Donovan, na prxima vez que 
a visse.
    Se ela achava que podia beij-lo daquele jeito que fizera na noite anterior, a um ponto em que ele quase explodira, e na manh seguinte ficar entretendo um sujeito 
desconhecido, estava muito enganada.
    Ele iria esclarecer tudo, dizer tudo o que pensava daquilo. E no instante em que acabasse, iria...
    Seus pensamentos interromperam-se quando ela surgiu na porta da cozinha, chamando algum por cima do ombro.
    - Ana! - Jessie levantou-se do banco num salto, acenando e gritando. - Ana! Oi!
    Enquanto Boone observava com os olhos apertados, Ana virou-se para a direo deles. Pareceu-lhe que ela hesitava um pouco para retribuir o aceno, e seu sorriso 
estava um tanto contido.
     claro, pensou enquanto bebia mais um gole de caf. Qualquer um ficaria nervoso com um sujeito estranho dentro de casa.
    - Posso contar a ela o que Daisy fez? Posso?
    - ... - O sorriso dele foi sombrio, quando pousou a caneca no parapeito de madeira. - Pode, sim.
    Pegando mais algumas fatias de torrada, Jessie desceu correndo os degraus, enquanto gritava para Daisy segui-la e para Ana esper-la.
    Boone tambm esperou at avistar o homem que saa da casa para reunir-se  Ana. Ele era alto mesmo, reparou com uma pontada de ressentimento. Empurrou os prprios 
ombros para trs, endireitando-se. Os cabelos do sujeito eram realmente pretos, e compridos, chegando at a altura do colarinho da camisa e esvoaando sob a brisa, 
de um jeito que Boone no teve dvidas de que as mulheres achariam muito romntico.
    Ele era bronzeado, esguio e elegante. E Boone soltou o ar por entre os dentes cerrados, quando o desconhecido passou o brao em torno dos ombros de Ana, num 
gesto que indicava intimidade.
    "Bem,  o que veremos", Boone decidiu comeando a descer a escada com as mos enfiadas nos bolsos. " o que veremos, agora mesmo."
    No momento em que chegou na cerca de rosas, Jessie j estava falando a cem por minuto sobre Daisy, e Ana estava rindo, com o brao enlaando a cintura do sujeito.
    - Eu tambm sentaria, se algum me oferecesse uma torrada com canela - o homem falou, piscando para Ana.
    - Voc sentaria se algum lhe oferecesse qualquer coisa de comer. - Ana deu-lhe um rpido abrao, antes de reparar na presena de Boone junto s rosas. - Ah... 
- Seria intil amaldioar o rubor que subiu ao seu rosto. - Bom dia.
    - Como vai? - Boone balanou a cabea devagar. Ento, seus olhos moveram-se desconfiados para o homem ao lado dela. - Ns no pretendamos incomod-la quando 
voc est com... visitas.
    - No, est tudo bem, eu... - Ana interrompeu-se, confusa e desconcertada pela tenso que vibrava no ar. - Sebastian, este  Boone Sawyer, pai de Jessie. Boone, 
este  Sebastian Donovan, meu primo.
    - Primo? - Boone repetiu, e Sebastian nem se deu ao trabalho de disfarar o sorriso que espalhou-se em seu rosto.
    - Ainda bem que voc fez logo as apresentaes, Ana - ele disse. - Eu gosto do meu nariz exatamente como est. - Estendeu a mo. - Muito prazer. Ana estava me 
contando sobre os novos vizinhos.
    - Ele  quem tem os cavalos, papai.
    - Eu me lembro. - Boone achou o aperto de mo de Sebastian firme e forte. Talvez at tivesse apreciado, se no fosse pelo brilho de divertimento que percebeu 
nos olhos dele. - Voc casou-se h pouco tempo?
    - Sim, de fato. Minha... - Ele virou-se ao ouvir a porta da cozinha batendo. - Ah, aqui est ela. A luz da minha vida!
    Uma mulher alta e magra, usando short e com os cabelos revoltos, aproximou-se com as botas empoeiradas.
    - No comece com essas besteiras, Donovan.
    - Minha noivinha recatada. - Era bvio que divertiam-se um com o outro. Sebastian pegou a mo da esposa e beijou-a. - Estes so os vizinhos de Ana, Boone e Jessie 
Sawyer. Minha esposa e nico amor, Mary Ellen - apresentou.
    - Mel - ela apressou-se em corrigir. - Donovan  o nico que tem a coragem de me chamar de Mary Ellen.  uma bela casa - acrescentou, com um gesto na direo 
da construo vizinha.
    - Parece que o sr. Sawyer escreve contos de fadas, livros de histrias para crianas, no mesmo estilo que tia Bryna.
    -  mesmo? Puxa, isso  interessante. - Mel sorriu para Jessie. - Aposto que voc adora.
    - Ele escreve as histrias mais bonitas do mundo. E esta  Daisy. Ns a ensinamos a sentar. Posso ver os seus cavalos?
    -  claro que sim. - Mel ajoelhou-se para afagar o plo do filhote.
    Enquanto Mel iniciava uma conversa com Jessie sobre cavalos e cachorros, Sebastian olhou para Boone.
    - De fato, voc tem uma bela casa - disse. Na verdade, ele prprio j estivera pensando em compr-la. Um brilho de humor surgiu novamente em seus olhos. - E 
muito bem localizada.
    - Ns gostamos. - Boone decidiu que seria tolice fingir que no entendera a insinuao de Sebastian. - Gostamos muito. - Num gesto proposital, passou o dedo 
pelo rosto de Ana. - Voc.parece um pouco plida esta manh, Anastsia.
    - Estou bem.
    No foi difcil manter a voz firme, mas Ana sabia muito bem o quanto seria simples para Sebastian ver o que ela estava pensando. J podia at sentir a sutil 
intromisso, e tinha certeza de que ele tambm enfiava o nariz mental na mente de Boone.
    - Se me der licena - acrescentou, - preciso colher algumas folhas de estrepeiro para Sebastian.
    - No colheu estas ervas ontem  noite?
    Ana encarou-o fixamente.
    - Tenho outros usos para aquelas ervas.
    - Bem, ns vamos deix-los  vontade. Venha, Jessie. - Boone pegou a mo da filha. - Muito prazer em conhecer a ambos. Nos vemos mais tarde, Ana.
    Sebastian teve a sensibilidade de esperar que Boone estivesse fora do alcance da sua voz.
    - Ora, ora... Eu saio por duas semanas, e veja a encrenca em que voc se meteu.
    - No seja ridculo. - Ana deu-lhe as costas e encaminhou-se para os canteiros de ervas. - No me meti em nenhuma encrenca.
    - Minha querida Ana, seu vizinho e amigo estava prestes a pular no meu pescoo, at a hora em que voc me apresentou como seu primo.
    - Eu teria protegido voc - Mel falou solenemente. 
    - Minha herona...
    - Alm disso - Mel continuou, - tive a impresso de que ele estava mais disposto a agarrar Ana pelos cabelos do que atacar voc.
    - Vocs dois esto sendo absurdos. - Ana cortou as folhas da erva sem olhar para cima. - Ele  um homem muito gentil e educado.
    - Estou certo que sim - Sebastian murmurou. - Mas, veja bem, os homens entendem estas questes de territrio que, naturalmente,  um conceito obscuro para as 
mulheres.
    - Ah, tenha d! - Mel deu-lhe um cutuco na costela.
    - Fatos so fatos, minha cara Mary Ellen. Eu invadi o territrio dele. Ou foi o que ele pensou. Mas  claro que eu no lhe daria tanto valor se ele no fizesse 
nenhum esforo para defend-lo.
    -  claro - Mel falou, irnica.
    - Diga-me, Ana, at que ponto voc est envolvida?
    - Voc no tem nada a ver com isso. - Ana endireitou-se, amarrando firmemente s hastes das ervas. - E muito obrigada por ter se mantido fora disso, primo. Eu 
sei muito bem que voc estava espiando.
    - E foi por isso que me bloqueou. Seu vizinho no obteve tanto sucesso.
    - Isso  falta de educao - ela murmurou. -  extremamente rude a maneira como voc espia a mente das pessoas a um piscar de olhos.
    - Ele gosta de se exibir - Mel falou, solidria.
    - Que injustia. -- Ofendido, Sebastian balanou a cabea. - Eu no espio nem espiono a um piscar de olhos. Sempre tenho um excelente motivo para fazer isso. 
Nesse caso, sendo seu nico parente do sexo masculino neste continente, sinto que tenho obrigao de pesquisar os fatos, e tambm os personagens envolvidos.
    Mel limitou-se a fazer uma careta, enquanto Ana se empertigava toda.
    -  mesmo? - Com os olhos fuzilando, Ana espetou o dedo no peito de Sebastian. - Ento deixe-me esclarecer uma coisa. S porque sou mulher no significa que 
preciso de proteo, nem de orientao, ou de qualquer coisa de um homem, seja parente ou no. Eu cuido da minha prpria vida h vinte e seis anos.
    - Vai completar vinte e seis apenas no ms que vem - Sebastian acrescentou, solcito.
    - E posso muito bem continuar fazendo isso sozinha. O que h entre Boone e eu...
    - Ah! -- Sebastian ergueu o dedo, em triunfo. - Ento h alguma coisa entre vocs.
    - V para o inferno, Sebastian.
    - Ela s fala assim comigo quando sabe que est num beco sem sada - Sebastian falou para Mel. - Normalmente  uma pessoa muito meiga e bem-educada.
    - Cuidado, ou farei uma poo para Mel colocar em sua sopa que deixar suas cordas vocais congeladas por uma semana.
    -  verdade? - Interessada pela idia, Mel inclinou a cabea. - Pode preparar, assim mesmo?
    - Seria muito bom para voc, considerando-se que sou eu que cozinho - Sebastian salientou. Depois, adiantou-se e abraou a prima. - Vamos l, querida, no fique 
zangada. Eu tenho de me preocupar com voc.  a minha funo.
    - No h nada com que se preocupar. - Mas Ana j se abrandava.
    - Voc est apaixonada por ele?
    Ela enrijeceu no mesmo instante.
    - Ora, Sebastian, eu o conheo h uma semana!
    - E que diferena isso faz? - Ele enviou um olhar demorado para Mel, por cima do ombro da prima. - Eu levei menos tempo do que isso para perceber que o motivo 
de Mel me irritar tanto era porque estava louco por ela.  claro que ela demorou um pouco mais para entender que me amava perdidamente. Mas Mel tem uma cabea dura.
    - Vou levar a tal poo, Ana.
    Ignorando a ameaa, ele deu um passo para trs, olhando a prima de frente.
    - Eu perguntei porque, definitivamente, ele nutre por voc algo mais do que uma simples amizade de vizinhos. Na verdade, ele...
    - J chega, Sebastian. Seja l o que for que voc tenha desencavado da mente dele, guarde consigo mesmo. Estou falando srio - Ana acrescentou, antes que ele 
pudesse interromper. - Prefiro fazer as coisas do meu jeito.
    - J que voc insiste - ele falou, suspirando.
    - Insisto, sim. Agora, tome aqui as suas esporinhas, v para casa e comporte-se como um recm-casado.
    - Esta  a melhor sugesto que j ouvi hoje. - Pegando o brao do marido com firmeza, Mel puxou-o para perto de si. - Deixe-a em paz, Donovan. Ana  perfeitamente 
capaz de cuidar dos seus prprios assuntos.
    - Mas, dependendo do assunto, ela deveria saber que...
    - Fora. - Contendo o riso, Ana deu-lhe um empurro. - Fora do meu jardim, agora mesmo. Tenho mais o que fazer. Se precisar de um vidente, ligo para voc.
    Sebastian desistiu e deu-lhe um beijo.
    - Ligue mesmo. - Um novo sorriso surgiu nos lbios dele, quando se afastava de brao dado com a esposa. - Acho que vamos dar uma passadinha para ver Morgana 
e Nash.
    - Por mim est timo. - Mel lanou um ltimo olhar por cima do ombro. - Eu gostaria de ouvir o que eles tm a dizer sobre esse sujeito.
    Sebastian riu e apertou-a contra si.
    - Voc  a mulher do meu corao.
    - No sou, no. - Ela beijou-o sonoramente. - O seu corao j  meu.
    
    Nos dias que se seguiram, Ana ocupou-se em trabalhar dentro de casa. No que estivesse evitando Boone, pelo menos, no muito. Ela simplesmente tinha muito o 
que fazer. Seus estoques de medicamentos haviam chegado a um nvel lamentavelmente baixo. Naquele mesmo dia, recebera uma ligao de uma das suas clientes em Carmel 
que estava sem o elixir para reumatismo. Ana tinha apenas o suficiente para lhe mandar, mas isso significava que teria de preparar mais, o mais breve possvel. Naquele 
momento, estava preparando uma mistura de prmula e agipalma, que fervia numa panela no fogo.
    Num cmodo contguo  cozinha, separado por uma larga porta em arco, Ana j arrumara os bales de vidro destiladores, os condensadores, queimadores e tubos de 
ensaio, juntamente com os frascos, vasilhas de prata e velas, tudo preparado para o trabalho do dia. Para um visitante desavisado, o local assemelhava-se a um pequeno 
laboratrio de qumica. Mas havia uma diferena marcante entre a qumica e a alquimia. Na alquimia havia um ritual a seguir e a utilizao meticulosa do tempo astrolgico.
    Todas as flores, ervas e razes que ela colhera sob a lua cheia tinham sido cuidadosamente lavadas no orvalho da manh. Outras, colhidas nas diferentes fases 
da lua, j haviam sido preparadas para usos especficos.
    Havia o xarope de papoula para ser destilado, o hissopo para ser seco a fim de servir de xarope para tosse. Ela precisava de essncia de esclaria para um perfume 
exclusivo e aproveitaria para combin-la com um pouco de camomila, para ajudar na digesto. Tinha de concluir as infuses, os cozimentos, e preparar os leos e incensos.
    Muita coisa a fazer, Ana pensou, principalmente quando tinha de aproveitar a magia das flores colhidas na lua cheia. E ela gostava do seu trabalho, de sentir 
os aromas que enchiam a cozinha e o laboratrio, de ver as graciosas ptalas rosadas das flores de manjerona, o prpura profundo das dedaleiras, o toque ensolarado 
da simples margarida do campo.
    Todas eram lindas, e Ana jamais resistia ao prazer de coloc-las em vasos e espalh-los pela casa inteira. Estava experimentando uma diluio de genciana, e 
fazendo uma careta com o gosto amargo, quando Boone bateu na porta da cozinha.
    - Desta vez estou mesmo precisando de acar - ele disse, com um sorriso rpido e charmoso que fez o corao dela disparar. - Sou a "me da classe" esta semana 
e preciso fazer trs dzias de biscoitos para amanh.
    Inclinando a cabea para o lado, Ana analisou-o.
    - Por que no compra os biscoitos prontos?
    - Que "me da classe" digna do seu posto serviria biscoitos comprados para crianas da primeira srie? Uma xcara basta.
    A imagem de Boone assando biscoitos a fez sorrir.
    - Entre. Deixe-me apenas terminar isto aqui.
    - Est um cheiro fantstico aqui dentro. - Boone abaixou-se para espiar nas panelas que ferviam no fogo. - O que voc est fazendo?
    - No! - Ela avisou, no instante em que ele estava prestes a mergulhar o dedo numa panela de vidro escuro que esfriava na pia. - Isso  beladona. Expressamente 
proibido para uso interno.
    - Beladona. - Ele franziu a testa. - Voc est preparando veneno?
    - Estou fazendo uma loo, um analgsico, para nevralgia e reumatismo. E no  veneno, se preparado e ministrado adequadamente.  um sedativo.
    Ainda intrigado, ele olhou no cmodo ao lado, com todos os equipamentos e mistras borbulhando.
    - Voc no precisa ter uma licena, ou algo assim, para fazer estas coisas?
    - Sou uma herbalista prtica qualificada, com diploma de farmacologia, se isto o deixa mais tranqilo. - Ana afastou a mo dele de um dos potes. - E isto no 
 para amadores.
    - Voc tem alguma coisa para insnia... alm da beladona? Sem querer ofender.
    Ela ficou imediatamente preocupada.
    -Voc est com problemas para dormir? Est com febre? - Ergueu a mo para a testa dele, depois imobilizou-se quando Boone segurou-a pelo pulso.
    - Sim, s duas perguntas. Pode-se dizer que voc  a causa e a cura. - Boone levou a mo dela aos lbios. - Posso ser a "me da classe", mas ainda sou um homem, 
Ana. No consigo parar de pensar em voc. - Virou a mo dela, pressionando os lbios em seus pulsos, sentindo o palpitar acelerado do corao. - E no consigo parar 
de desej-la.
    - Lamento se tenho perturbado as suas noites.
    Ele arqueou a sobrancelha.
    - Lamenta mesmo?
    Ana no pde conter um sorriso.
    - Pelo menos estou tentando.  difcil no ficar lisonjeada com a idia de que voc fica acordado pensando em mim. E  difcil saber o que fazer. - Ana virou-se 
para desligar o fogo do fogo. - Eu tambm tenho me sentido um tanto agitada.
    Ela fechou os olhos quando as mos dele deslizaram pelos seus ombros.
    - Faa amor comigo, Ana. - Boone roou um beijo em seu pescoo. - Juro que no vou machuc-la.
    No de propsito, ela pensou. Nunca. Havia tanta bondade nele. No entanto, eles no iriam machucar-se mutuamente se ela se entregasse ao que queria, ao que precisava 
dele, e ocultasse aquela parte de si que a tornava o que era?
    -  um grande passo para mim, Boone.
    - Para mim tambm. - Com delicadeza, ele a fez encar-lo. - Nunca tive ningum, desde que Alice morreu. Nos ltimos dois anos tive uma ou duas mulheres, mas 
nada que significasse qualquer coisa alm de preencher um vazio fsico. Com nenhuma delas eu desejei passar meu tempo, conversar, apenas ficar junto. Gosto muito 
de voc, Ana. - Baixou os lbios para os dela, com todo cuidado, bem devagar. - No sei como passei a gostar tanto e to depressa, mas foi o que aconteceu. Espero 
que acredite nisso.
    Mesmo sem um contato verdadeiro, Ana no pde deixar de sentir. E, de alguma forma, isso tornava tudo mais complicado.
    - Acredito em voc.
    - Estive pensando. E, desde que no tenho dormido muito, tive bastante tempo para pensar. - Distrado, ele ajustou um grampo que estava solto nos cabelos dela. 
- Naquela noite, eu fui apressado demais e provavelmente a assustei.
    - No. - Ento, ela desvencilhou-se dele e voltou para o balco da cozinha, comeando a coar uma das misturas num frasco j rotulado. - Sim, para dizer a verdade, 
acho que voc se apressou um pouco.
    - Se eu soubesse que voc ... Se percebesse que voc nunca...
    Com um suspiro, ela tampou o frasco.
    - Minha virgindade  por opo, Boone. No precisa sentir-se constrangido com isso.
    - Eu no pretendia... - Ele exalou um suspiro desolado.
    - Acho que estou fazendo tudo errado, no ?
    Ana escolheu outro funil, outro frasco, e retomou a tarefa. 
    - Voc est nervoso.
    Com uma pontada de frustrao, Boone reparou que as mos dela estavam firmes como rocha quando tampou o frasco seguinte.
    - Creio que "aterrorizado" define melhor. Fui muito rude com voc, e no deveria ter sido. Por uma srie de razes. O fato de voc no ter experincia  apenas 
uma delas.
    - Voc no foi rude. - Ela continuou trabalhando a fim de esconder o prprio nervosismo, que era to intenso quanto o dele. Mas, contanto que conseguisse se 
concentrar no que fazia, poderia ao menos fingir estar calma e confiante. - Voc  um homem passional. No tem do que se desculpar.
    - Estou pedindo desculpas por t-la pressionado. E por vir aqui hoje com a toda a inteno de manter as coisas leves e fceis, e ento pression-la novamente.
    Ela sorriu, enquanto levava as panelas vazias para a pia.
    -  isso que est fazendo?
    - Prometi a mim mesmo que no iria lhe pedir que fosse para cama comigo, embora eu queira muito que voc v. Na verdade, tinha planejado convid-la para passar 
algum tempo comigo. Para jantar, ou sair, ou qualquer coisa que as pessoas fazem quando esto tentando conhecer-se melhor.
    - Eu gostaria de jantar, ou sair, ou qualquer coisa.
    - timo. - No tinha sido to difcil, ele concluiu. - Talvez neste fim de semana. Sexta-feira  noite. Acho que consigo arrumar uma bab. - Ele ficou srio. 
- Algum em quem eu possa confiar.
    - Pensei que voc fosse fazer o jantar para mim e Jessie.
    Um peso foi retirado da conscincia dele.
    - Voc no se importaria?
    - Pelo contrrio, adoraria.
    - Ento est bem. - Boone segurou-lhe o rosto entre as mos. - Muito bem.
    O beijo que trocaram foi leve e doce.
    - Sexta-feira, ento - repetiu.
    No foi difcil sorrir, mesmo se Ana sentisse que todo seu corpo tivesse sido sacudido por um pequeno terremoto.
    - Levarei o vinho.
    - Perfeito. - Ele queria beij-la novamente, mas teve medo de assust-la. - Nos vemos na sexta, ento.
    - Boone. - Ana o fez parar antes que ele chegasse na porta. - No vai levar o acar?
    Ele sorriu.
    - Eu menti.
    Ela estreitou os olhos.
    - Quer dizer que no  a "me da classe" da semana e no vai assar os biscoitos?
    - No, esta parte  verdade. Mas tenho cinco quilos de acar na despensa. Ei, at que deu certo!
    Boone estava assoviando, quando passou pela porta.
    
    
    CAPTULO 6
    
    - Por que Ana ainda no chegou? A que horas ela vem?
    - Daqui h pouco - Boone respondeu pela dcima vez.
    No entanto, esperava que ela se atrasasse um pouco, pois ele estava atrasado demais. A cozinha estava um desastre. Sujara quase todas as panelas. Mas isso no 
era novidade, porque quase sempre sujava tudo. Nunca conseguira entender como algum podia cozinhar sem sujar todas as panelas, frigideiras e vasilhas disponveis.
    O frango  caadora exalava um cheiro bom, mas Boone estava incerto quanto aos resultados. Fora estupidez, pensou, uma tremenda estupidez experimentar uma receita 
nova numa ocasio como aquela. Mas, ao mesmo tempo, achava que a visita de Ana merecia mais do que o bolo de carne que sempre comiam nas sextas-feiras.
    Jessie estava a ponto de enlouquec-lo, o que era uma raridade. Estava superagitada com a idia da visita de Ana, e o atormentara sem descnso desde que a trouxera 
da escola.
    A cachorrinha escolhera aquela tarde para mastigar um dos travesseiros dele, portanto Boone passara uma boa parte do seu valioso tempo correndo atrs de penas 
e de cachorro. A mquina de lavar havia transbordado, inundando a lavanderia. E ele era macho demais para sequer pensar em chamar um tcnico, de forma que desmontara 
a mquina e tornara a mont-la novamente.
    Tinha quase certeza de que a consertara.
    Seu agente havia ligado para lhe dizer que o livro "O Terceiro Desejo de Miranda" tinha sido escolhido, por um famoso estdio de cinema, como enredo de um desenho 
animado. Esta teria sido uma tima notcia em qualquer outro momento, mas agora Boone pensava como iria encaixar uma viagem para Los Angeles em sua agenda.
    Jessie decidira que queria ser uma bandeirante e, generosamente, deu o nome dele como voluntrio para lder das bandeirantes.
    A idia de ter um grupo de meninas de seis e sete anos esperando que ele as ensinasse a fazer caixinhas de jias a partir de caixas de ovos usadas, fazia seu 
sangue gelar.
    Porm, com muita imaginao e uma boa dose de covardia, ele pensou, talvez conseguisse escapar daquela.
    - Tem certeza de que ela vem, papai? Tem certeza?
    - Jssica. - O tom de aviso na voz dele foi o suficiente para que ela fizesse um beicinho. - Voc sabe o que acontece a garotinhas que ficam perguntando a mesma 
coisa sem parar?
    - No.
    - Pois continue fazendo isso e voc vai descobrir. Agora, d uma olhada em Daisy e certifique-se de que ela no est comendo toda a moblia da casa.
    - Voc est muito bravo com Daisy?
    - Estou, sim. Agora, v, seno voc ser a prxima. - Boone suavizou a ordem dando uma leve palmada no traseirinho da menina.
    Dois minutos depois, ouviu o alarido que significava que Jessie encontrara Dasy, e que agora estavam rolando juntas no tapete da sala. Os gritinhos agudos e 
alegres latidos provocavam fascas na dor que latejava em sua cabea.
    S preciso de uma aspirina, ele pensou, uma ou duas horas de silncio e umas frias no Hava.
    Estava a ponto de dar um grito que provavelmente tiraria sua cabea de cima dos ombros, quando Ana bateu na porta.
    - Ol! O cheiro est bom.
    Boone esperava que sim. E ela estava tima. Ele nunca a tinha visto usando um vestido, e aquele, de seda azul pastel fazia maravilhas para seu corpo esguio. 
Coisas como deixar  mostra os ombros claros e sedosos sob as alas finas. Ana tambm usava um amuleto, preso numa corrente de ouro, que pendia bem no meio de seus 
seios. Um cristal brilhava ali, captando o olhar, e a mesma pedra repetia-se nos brincos em forma de lgrima em suas orelhas.
    Ela sorriu.
    - Voc disse sexta-feira, mesmo, no ? 
    - Sim, sexta-feira.
    - Ento, no vai me convidar para entrar?
    - Desculpe-me. - Deus, ele parecia um adolescente idiota. No, decidiu enquanto abria a porta para ela, nenhum adolescente jamais fora assim to idiota. - Estou 
um pouco atrapalhado.
    Ana franziu a testa ao deparar-se com o caos de panelas e vasilhas.
    - Estou vendo. Precisa de ajuda?
    -Acho que tenho tudo sob controle. - Boone pegou a garrafa que ela lhe entregava, reparando que havia smbolos pintados no vidro esverdeado, mas nenhum rtulo. 
- Feito em casa?
    - Sim, pelo meu pai. Ele tem... - Os olhos dela iluminaram-se com segredos e humor. - Um toque mgico.
    - Envelhecido nas masmorras do Castelo Donovan. - Boone usou um tom solene.
    - Para dizer a verdade,  isso mesmo. - Sem dar maiores explicaes, Ana foi para perto do fogo, enquanto ele pegava as taas. - Nenhum Pernalonga, desta vez?
    - Infelizmente o Pernalonga sofreu um acidente fatal na mquina de lavar loua. - Boone serviu o vinho dourado em taas de cristal. - No foi uma cena agradvel.
    Ela riu e ergueu a taa para um brinde.
    - Aos vizinhos.
    - Aos vizinhos - ele concordou tocando cristal em cristal. - Se todas fossem como voc, eu seria um homem morto. - Bebeu, e arqueou a sobrancelha. - Na prxima 
vez faremos um brinde ao seu pai. Este vinho  incrvel!
    -  um dos muitos hobbies dele, pode-se dizer.
    - Do que  feito?
    - Mas, algumas flores, ervas. Voc pode cumpriment-lo pessoalmente, se quiser. Ele e o restante da famlia devem vir para c para a vspera do Dia de Todos 
os Santos. O Halloween.
    - Eu sei o que . Jessie est dividida entre fantasiar-se de fada ou de roqueira. Os seus pais faro a viagem da Irlanda para os Estados Unidos apenas para o 
Halloween?
    -  o que fazem quase todos os anos.  um tipo de tradio de famlia. - Incapaz de resistir, ela ergueu a tampa da panela e aspirou o aroma. - Ora, ora, estou 
impressionada.
    - A idia era esta, mesmo. - Igualmente incapaz de resistir, Boone tocou-lhe os cabelos. - Sabe aquela histria que lhe contei no dia em que Daisy trombou com 
voc? Por algum motivo, me senti compelido a escrev-la. Tanto que deixei de lado o outro livro em que estava trabalhando.
    - Foi uma linda histria.
    - Em circunstncias normais, eu a teria guardado para depois. Mas precisava saber por que a mulher estava encerrada no castelo por todos aqueles anos. Seria 
um encantamento que ela prpria fizera? Seria o encantamento que fizera com que o homem escalasse a muralha para encontr-la?
    - Isso  voc quem tem de decidir.
    - No. Isso eu terei de descobrir.
    - Boone... - Ana levantou a mo para a dele, mas abaixou os olhos rapidamente. - O que aconteceu?
    - Arranhei os dedos. - Ele flexionou os dedos, fazendo uma careta. - Consertando a mquina de lavar roupa.
    - Voc deveria ter-me procurado, eu faria um curativo. - Ana passou os dedos sobre a pele arranhada, desejando estar em condies de cur-lo. -  doloroso.
    Boone comeou a negar, mas logo percebeu o seu erro.
    - Eu sempre dou um beijo nos machucados de Jessie, para que ela se sinta melhor.
    - Um beijo produz maravilhas - ela concordou, e contentou-o tocando os lbios levemente no ferimento.
    De maneira muito breve e delicada, Ana arriscou uma conexo, para certificar-se de que realmente no havia dor e nem a possibilidade de uma infeco. Descobriu 
que, embora os dedos estivessem apenas doloridos, ele realmente tinha uma dor de cabea provocada pela tenso, bem atrs dos olhos. Pelo menos com isso ela poderia 
ajud-lo.
    Com um sorriso, afastou-lhe os cabelos da testa.
    - Voc anda trabalhando demais, arrumando a casa, escrevendo sua histria, preocupando-se se tomou a deciso certa ao trazer Jessie para c.
    - Eu no sabia que era to transparente.
    - No  to difcil de se ver. - Ana pressionou os dedos nas tmporas dele, massageando com pequenos crculos. - Agora, teve todo este trabalho de preparar o 
jantar para mim. 
    - Eu queria...
    - Eu sei. - Ela ficou imvel ao sentir a dor faiscar atrs dos seus prprios olhos. A fim de distra-lo, tocou-lhe os lbios enquanto absorvia a dor e a fazia 
desaparecer gradualmente. - Obrigada.
    - Estou sempre s ordens - ele murmurou, aprofundando o beijo.
    As mos dela deslizaram de suas tmporas, pousando levemente em seus ombros. Era muito mais difcil absorver aquela dor, a dor que espalhava-se insidiosamente 
pelo seu corpo. Pulsando, latejando. Provocando-a.
    Provocando-a demais.
    - Boone. - Incerta, ela afastou-se. - Ns estamos nos apressando.
    - Eu lhe disse que no faria isso. Mas tambm no vou impedir-me de beij-la sempre que tiver uma chance. - Ele pegou as taas de vinho, entregando-lhe a dela. 
- Nada ir alm disso, at que voc diga que sim.
    - No sei se devo ou no lhe agradecer por isso. Mas acho que sim. 
    - No. No precisa me agradecer por isso, nem pelo fato de eu desej-la tanto. Apenas aconteceu assim. s vezes penso em Jessie crescendo e passo por maus momentos. 
E sei que se houvesse um homem pressionando-a ou forando-a a fazer algo que ela no estivesse pronta para fazer, eu seria capaz de mat-lo. - Ele bebeu o vinho 
e sorriu. - E,  claro, se ela pensa que estar pronta para fazer qualquer coisa deste tipo antes de completar, digamos, quarenta anos, acho que sou capaz de tranc-la 
no quarto at a vontade passar.
    Ana riu e percebeu, enquanto ele estava parado ali, de costas para o fogo entulhado e sujo, com um pano de prato amarrado na cintura, que estava muito, muito 
prxima de comear a am-lo.
    Uma vez que isso acontecesse, ela estaria pronta. E nada no mundo faria o sentimento passar.
    - Falou como um verdadeiro pai paranico.
    - Parania e paternidade so sinnimos. Pode acreditar. Espere s para ver Nash com aqueles gmeos. Ele vai comear a se preocupar com planos de sade e higine 
bucal. Um espirro no meio da noite ser capaz de provocar-lhe crises de pnico.
    - Morgana vai mant-lo na linha. Um pai paranico precisa apenas de uma me equilibrada para... - A voz dela sumiu, enquanto se repreendia mentalmente. - Desculpe-me.
    - Est tudo bem.  mais fcil quando as pessoas no se sentem como se tivessem de pisar em ovos. Alice se foi h quatro anos. As feridas cicatrizam, especialmente 
quando se tem boas lembranas. - Houve um rudo na sala ao lado, seguida do barulho de pezinhos correndo. - E uma filha de seis anos que o deixe de cabelos em p.
    Naquele instante, Jessie entrou correndo na cozinha e atirou-se nos braos de Ana.
    - Voc veio! Eu pensei que nunca mais fosse chegar!
    -  claro que vim. Jamais recusaria um convite dos meus vizinhos preferidos.
    Enquanto as observava, Boone percebeu que a dor de cabea desaparecera. Estranho, pensou desligando o fogo e preparando-se para servir o jantar. Ele nem precisara 
tomar a aspirina.
    
    No foi o que se poderia considerar um jantar tranqilo e romntico. Boone acendera velas e arrumara as flores, colhidas no jardim que havia herdado quando comprara 
a casa. E serviu a refeio na sala de jantar, com a ampla janela em arco, com a msica do mar e o canto dos pssaros. Um cenrio perfeito para o romance.
    Porm, no houve segredos murmurados nem promessas sussurradas. Em vez disso, houve risos e a voz borbulhante de uma criana. A conversa no foi sobre a maneira 
como a luz das velas iluminava a pele de Ana, nem como aprofundava o puro azul dos seus olhos. Mas girou em torno das aulas da primeira srie, sobre o que Daisy 
fizera naquele dia e sobre o conto de fadas que Boone tinha em mente.
    Quando o jantar terminou e Ana acabou de ouvir as aventuras de Jessie com Lydia, sua mais nova amiga da escola, anunciou que ela e a menina se encarregariam 
da limpeza na cozinha.
    - No, pode deixar que limpo tudo mais tarde. - Boone sentia-se muito confortvel na sala de jantar banhada pelo sol poente, mas lembrava-se nitidamente da baguna 
que deixara na cozinha. - Os pratos sujos no iro para lugar algum.
    - Voc fez a comida. - Ana j se levantava para juntar os pratos. - Quando meu pai cozinha, minha me lava a loua. E vice-versa. So as regras dos Donovan. 
Alm disso, a cozinha  um timo lugar para duas garotas conversarem, no acha, Jessie?
    Jessie no tinha a menor idia, mas ficou imediatamente interessada por aquela nova regra.
    - Eu posso ajudar. Quase nunca quebro pratos.
    - E os homens no podem entrar na cozinha, quando as garotas esto conversando. - Ana inclinou-se para a menina com um ar de conspirao. - Porque eles sempre 
atrapalham. - Enviou um olhar enviesado para Boone. - Acho que voc e Daisy deviam dar um passeio na praia.
    - Eu no... - Um passeio na praia, ele pensou. Sozinho. Sem precisar apanhar conchinhas. - Posso mesmo?
    -  claro. Fique  vontade. Jessie, quando eu estava na cidade, outro dia, vi um vestido lindo numa vitrine. Era azul, da cor exata dos seus olhos, com um lao 
de cetim. - Ana parou de falar, com a pilha de pratos na mo, e olhou para Boone. - Ainda est aqui?
    - J estou saindo.
    Enquanto se afastava, sob a fraca luz do anoitecer, ouvia a msica alegre dos risos femininos, vinda atravs das janelas.
    - Papai disse que voc nasceu num castelo - Jessie falou, ajudando Ana a arrumar a loua na mquina.
    -  verdade. Na Irlanda.
    - Um castelo de verdade?
    - De verdade, perto do mar. Ele tem torres, torrees, passagens secretas e at uma ponte levadia.
    - Como nos livros que o papai escreve.
    - Sim,  bem parecido.  um lugar mgico. - Ana escutou o barulho da gua, enquanto enxaguava os pratos, e lembrou-se dos risos e vozes na imensa cozinha do 
castelo, com o fogo ardendo na lareira e o aroma delicioso de po sendo assado, perfumando todo o ar. - Meu pai e os irmos dele nasceram no castelo, e o pai deles, 
o pai do pai deles, e assim por diante, tanto quanto a gente consiga se lembrar.
    - Se eu tivesse nascido num castelo iria querer morar ali para sempre. - Jessie ficava bem prxima de Ana enquanto conversavam, adorando, sem nem mesmo saber 
por que, o seu perfume e o timbre suave da voz feminina. - Por que voc se mudou de l?
    - Ah, ali ainda  o meu lar, mas s vezes a gente precisa se mudar para formar a sua prpria casa. A sua prpria magia.
    - Como o papai e eu fizemos.
    - Isso mesmo. - Ana fechou a mquina de lavar pratos e comeou a encher a pia com gua quente, para lavar as panelas. - Voc gosta de morar aqui em Monterey?
    - Gosto muito. Nana disse que eu vou ficar com saudade da outra casa, quando a novidade passar. O que  novidade?
    -  quando acontecem coisas novas. - Ana achou que no era algo muito sensato para se sugerir a uma criana impressionvel. Porm, concluiu que Nana no devia 
estar muito contente com aquela situao. - Se voc sentir saudade, deve tentar se lembrar de que o melhor lugar geralmente  aquele onde a gente est no momento.
    - Eu gosto de estar onde o papai estiver, nem que seja em Timbuktu.
    - O qu?
    - A vov Sawyer disse que ele pode muito bem querer se mudar para Timbutku. - Jessie pegou a panela limpa que Ana lhe passara e comeou a enxug-la, com uma 
expresso concentrada. - Este lugar existe?
    - Hu-hum. Mas tambm  uma expresso que significa para muito longe. Seus avs sentem a sua falta, querida.  isso.
    - Eu tambm sinto falta deles, mas converso com eles pelo telefone e o papai me ajudou a escrever uma carta no computador. Voc acha que pode se casar com papai, 
para que a vov Sawyer largue do p dele?
    A panela que Ana estava lavando caiu dentro da gua, formando uma onda que espalhou-se por toda a pia.
    - Acho que no.
    - Eu o ouvi dizendo para a vov Sawyer que ela "pegava no p dele" o tempo todo para que se casasse, para que ele no ficasse sozinho e eu no crescesse sem 
uma me. A voz dele estava daquele jeito zangado, como quando eu fao alguma coisa muito errada, ou quando Daisy estraga os travesseiros. E ele falou tambm que 
preferia ir para o inferno do que se casar s para ter um pouco de paz.
    - Entendo. - Ana pressionou os lbios para impedir-se de sorrir. - Creio que seu pai no gostaria que voc repetisse o que ele falou, Jessie, principalmente 
estas coisas.
    - Voc acha que o papai  sozinho?
    - No acho, no. Acho que ele  muito feliz com voc, e com Daisy. Se ele decidir se casar, algum dia, ser porque encontrou algum que vocs dois amam muito.
    - Eu amo voc.
    - Ah, meu raio de sol. - Com as mos cheias de detergente, Ana abaixou-se para dar um abrao e um beijo na menina. - Eu tambm amo voc.
    - Voc ama o papai?
    Eu bem que gostaria de saber.
    -  diferente - ela disse. Sabia que estava pisando em terreno perigoso. - Quando a gente cresce, o amor tem significados diferentes. Mas estou muito feliz por 
vocs terem se mudado para c e por podermos ser amigos.
    - Papai nunca convidou uma moa para jantar, antes.
    - Bem, vocs esto aqui h pouco tempo.
    - No, eu quis dizer nunca, nunca. Nem em Indiana. Por isso eu pensei que talvez voc fosse casar com ele e morar aqui conosco, para que a vov Sawyer largue 
do p dele e eu no seja mais uma pobre menina sem me.
    - No. - Ana fez o possvel para no rir. - Isso significa que ns gostamos uns dos outros e quisemos jantar juntos. - Ana olhou pela janela a fim de certificar-se 
de que Boone no estava voltando. - Ele sempre cozinha assim?
    - Ele sempre faz uma tremenda baguna, e s vezes fala uns palavres... voc sabe, no ?
    - Sei.
    - Bom, ele s fala os palavres quando tem de ficar limpando tudo. E hoje papai estava de mau humor porque Daisy comeu o travesseiro dele e espalhou penas para 
todo lado. Depois, a mquina de lavar roupa explodiu e, talvez, ele precise viajar para tratar de negcios.
    - Foi muita coisa num dia s. - Ana mordeu o lbio. No queria ficar arrancando informaes da criana, mas estava curiosa. - Ele vai viajar?
    - Acho que vai para aquele lugar onde fazem filmes, porque querem fazer um filme do livro dele.
    - Isso  maravilhoso.
    - Ele tem de pensar nisso.  o que papai sempre diz, quando no quer dizer sim, mas provavelmente vai dizer sim.
    Desta vez, Ana no preocupou-se em esconder o riso.
    - Voc j o conhece direitinho.
    Quando terminaram a limpeza, Jessie estava bocejando.
    - Voc quer subir para ver o meu quarto? Eu arrumei tudo, como o papai mandou, porque tnhamos visitas.
    - Eu adoraria ver o seu quarto.
    As caixas de mudana j haviam desaparecido, Ana reparou quando saram da cozinha e passaram para a sala de estar, com as amplas janelas e a escadaria em curva. 
A moblia parecia confortvel e os sofs eram forrados com tecidos neutros e resistentes, do tipo que agenta as mos e ps de uma criana ativa.
    Ele poderia fazer bom uso de algumas flores nas janelas, Ana pensou. Algumas velas perfumadas no aparador na lareira. Talvez algumas almofadas coloridas, espalhadas 
aqui e ali. Ainda assim, havia detalhes que indicavam uma preocupao em formar um ambiente aconchegante, como fotos de famlia emolduradas, um relgio antigo. E 
outros detalhes interessantes, e at exticos, como os suportes de lenha de bronze, no formato de cabeas de drago, montando guarda na lareira de pedra. E um unicrnio 
de madeira num canto da sala
    E havia tambm uma fina camada de poeira no aparador, que acrescentava um charme.
    - Eu tenho de arrumar a minha cama todos os dias - Jessie estava dizendo. - E quando tudo estiver pronto, papai disse que posso escolher o papel de parede para 
o meu quarto. Aqui  o quarto do papai.
    Ela apontou para a direita e Ana teve um relance de uma cama enorme coberta por uma colcha verde jade, sem travesseiros, uma cmoda antiga, faltando um puxador, 
e uma trilha de penas no carpete.
    - O banheiro dele  ali dentro, tambm, com uma banheira grande que faz jatos de gua para massagem e um chuveiro. O meu banheiro  do outro lado, e tem duas 
pias e uma coisa que no  um vaso sanitrio, mas que parece.
    - Um bid?
    -- Acho que sim. Papai diz que  para as moas usarem. Este  o meu quarto.
    O quarto era a fantasia de qualquer garotinha, realizada por um homem que obviamente entendia que a infncia  breve demais e preciosa demais. Todo em cor-de-rosa 
e branco, com uma cama de espaldar alto no centro e cercada por estantes com bonecas, livros e brinquedos de cores vivas, uma cmoda branca com um espelho, e uma 
escrivaninha pequena repleta de papis e lpis de cor.
    Nas paredes, quadros com graciosas ilustraes de livros de histrias. Cinderela correndo pela escadaria de um castelo prateado, levando um sapatinho de cristal 
na mo. Rapunzel, com a trana dourada pendendo da alta torre, enquanto olhava para seu prncipe l em baixo. Um elfo brincalho de um dos livros de Boone e, para 
total surpresa de Ana, uma das ilustraes premiadas de sua tia Bryna.
    - Esta aqui  do livro "A Bola de Ouro".
    - A senhora que escreveu este livro mandou o desenho pelo correio, para papai e para mim, quando eu era bem pequena. Depois das histrias do papai, so as dela 
que eu mais gosto.
    - Eu no fazia idia - Ana murmurou. Pelo que sabia, sua tia Bryna jamais se desfizera de nenhuma de suas gravuras, exceto para d-las de presente aos membros 
da famlia.
    - Foi papai quem desenhou o elfo - Jessie explicou. - Todos os outros desenhos foram feitos pela mame.
    - Eles so lindos. - No eram apenas bem-feitos, Ana pensou. Talvez no tivessem os mesmos traos firmes do duende desenhado por Boone, ou o refinamento do desenho 
de sua tia, mas eram graciosos e to fiis ao esprito dos contos de fadas quanto a prpria magia.
    - Mame fez estes desenhos para mim, quando eu era beb. Nana disse que papai deveria guard-los para que eu no ficasse triste. Mas eles no me deixam triste. 
Eu gosto de olh-los.
    - Voc tem sorte por ter lembranas to bonitas de sua me.
    Jessie esfregou os olhos sonolentos e lutou para conter um bocejo.
    - Eu tambm tenho bonecas, mas no brinco muito com elas. Minha av gosta de me dar bonecas, mas eu prefiro o lobo marinho de pelcia que papai me deu. Voc 
gostou do meu quarto?
    -  lindo, Jessie.
    - Eu posso ver o mar, e o seu quintal tambm, daqui da janela. - Ela abriu a cortina transparente para mostrar a vista. - E aqui  a cama de Daisy, mas ela gosta 
mais de dormir comigo. - Apontou uma cesta de vime com um forro cor-de-rosa.
    - Talvez voc queira se deitar, enquanto Daisy no chega.
    - Talvez. - Jessie enviou-lhe um olhar de dvida. - Mas ainda no estou com sono. Voc sabe alguma histria?
    - Bem, acho que posso pensar em alguma. - Ana pegou Jessie no colo e sentou-se na cama. - Que tipo de histria voc gostaria de ouvir?
    - De mgica.
    - So as melhores. - Ana pensou por um instante e sorriu. - A Irlanda  um pas muito antigo - comeou. - E  cheio de lugares secretos, montanhas escuras e 
campos muito verdes, e o mar  to azul que os olhos ardem quando se fica muito tempo olhando para ele. A magia existe ali h muitos e muitos sculos, e ainda  
um lugar seguro para as fadas, os duendes e as feiticeiras.
    - Feiticeiras boas ou feiticeiras ms?
    - As duas, porm sempre existe mais bem do que mal. No apenas nas feiticeiras, mas em tudo.
    - As feiticeiras boas so bonitas - Jessie falou, passando a mozinha pelo brao de Ana. -  assim que a gente sabe a diferena. Esta histria  sobre uma feiticeira 
boazinha?
    - Sim, de fato. Uma feiticeira linda e boazinha. E tambm sobre um feiticeiro muito bom e atraente.
    - Os homens no so feiticeiros - Jessie informou, com uma risadinha. - Eles so magos.
    - Quem est contando a histria? - Ana beijou-lhe a testa. - Ento, certo dia, no muito tempo atrs, uma linda feiticeira viajou com suas duas irms para visitar 
o av, que estava muito velhinho. Ele havia sido um feiticeiro poderoso, um mago, mas ficara rabugento e entediado depois de velho. No muito distante da manso 
onde ele morava, havia um castelo. E, ali, viviam trs irmos. Eles eram trigmeos, e tambm eram magos muito poderosos. Por mais tempo do que qualquer pessoa conseguisse 
se lembrar, a famlia do velho mago e a famlia dos trs irmos eram inimigas. Ningum se lembrava mais por que, ou desde quando, mas a inimizade persistia. Assim, 
as famlias no trocavam nem uma palavra uma com a outra, por muitas geraes.
    Ana ajeitou Jessie no colo, afagando-lhe os cabelos. Sorria consigo mesma, sem perceber que passara a falar com um leve sotaque irlands.
    - Mas a jovem feiticeira era voluntariosa, alm de muito bonita. E tinha muita curiosidade. Num lindo dia de vero, ela escapuliu da velha manso e foi andando 
pelos campos na direo do castelo do inimigo de seu av. No caminho, encontrou um lago e parou para mergulhar os ps na gua fresca, enquanto observava o castelo 
 distncia. E quando ela estava ali, com os ps molhados e os cabelos caindo nos ombros, um sapo pulou para a margem do lago, a fim de conversar com ela. "Linda 
dama", ele disse. "Por que est vagando pelas minhas terras?" Bem, a jovem feiticeira no ficou nem um pouco surpresa em ver um sapo falar. Afinal, ela sabia muitas 
coisas sobre magia e pressentiu que ali havia um truque. "Suas terras?", ela perguntou. "Os sapos possuem apenas a gua e a lama. Eu posso andar onde quiser."
    "Mas os seus ps esto na minha gua", disse o sapo. "Voc ter de pagar uma multa." Ento ela riu e disse que no devia nada a um sapo qualquer.
    Ana fez uma pausa para suspense, e prosseguiu:
    - Bem, nem  preciso dizer que o sapo ficou intrigado com a atitude dela. Afinal, no era todos os dias que ele saltava para fora do lago a fim de falar com 
uma linda jovem, e esperava ao menos que ela desse um gritinho ou demonstrasse um pouco de temor respeitoso. Ele gostava de pregar peas nas pessoas e ficou extremamente 
desapontado por aquela no ter funcionado como esperava. Ento, explicou que no era um sapo qualquer, e se ela no concordasse em pagar a multa, ele teria de castig-la. 
E que multa seria esta?, ela perguntou. A resposta dele foi: um beijo, que no era nem mais nem menos do que ela imaginava pois, como eu disse, era jovem mas no 
era tola.
    Ana sorriu, continuando:
    - A jovem disse que duvidava muito que o sapo se transformasse num belo prncipe se ela o beijasse, e que preferia economizar os seus beijos. Agora o sapo estava 
realmente frustrado, e comeou a fazer outras mgicas, assoviando para que o vento aumentasse, sacudindo as folhas das rvores, mas a jovem feiticeira apenas bocejou 
diante de tudo aquilo. Com a pacincia esgotada, o sapo pulou direto no colo dela e comeou a repreend-la. Querendo dar-lhe uma boa lio por causa daquele atrevimento, 
a jovem pegou-o pela perna e jogou-o no lago. Quando ele voltou  superfcie, no era mais um sapo, mas sim um rapaz muito molhado e furioso por ver que sua brincadeira 
voltara-se contra ele. Depois que ele nadou at a beirada, os dois ficaram gritando um com o outro, ameaando fazer feitios e maldies, enviando relmpagos para 
o cu e enchendo o ar com o barulho dos troves. Embora ela o ameaasse com o fogo do inferno, e coisas piores, ele dizia que iria receber o pagamento da multa de 
qualquer jeito, pois aquelas eram suas terras, o seu lago, e seu direito. Ento, ele a beijou. E apenas isso bastou para abrandar o corao dela, para que a fria 
em seu peito se transformasse em amor. Pois at mesmo as feiticeiras podem ser atingidas pelo mais poderoso de todos os encantamentos. Ali mesmo, naquela hora, eles 
confessaram seu amor e, um ms depois, casaram-se nas margens daquele lago. E foram felizes, dali em diante, com suas vidas repletas de amor. E todos os anos, num 
dia de vero, embora j no seja mais jovem, ela vai para o lago, mergulha os ps na gua fresca e espera que o sapo indignado aparea para conversarem.
    Ana levantou a menina adormecida. Contara o final da histria apenas para si mesma... ou foi o que pensou. Mas quando abaixou-se para puxar a colcha da cama, 
a mo de Boone fechou-se sobre a sua.
    - Foi uma boa histria para uma amadora. Deve ser herana dos irlandeses.
    -  uma velha histria de famlia - ela disse, pensando em quantas vezes ouvira o relato do primeiro encontro entre seu pai e sua me.
    Boone tirou os sapatos da filha com gestos experientes. 
    - Tenha cuidado. Eu posso roub-la de voc - disse. Enquanto ele cobria Jessie, Daisy deu um salto certeiro para os ps da cama.
    - Aproveitou bem o passeio? - Ana perguntou.
    - Depois que parei de me sentir culpado por deix-la com toda aquela loua suja... o que levou uns noventa segundos. - Boone afastou os cabelos de Jessie do 
rosto e abaixou-se para beij-la na testa. - Uma das coisas mais invejveis da infncia  esta capacidade de mergulhar no sono imediatamente.
    - Ainda est com dificuldade para dormir?
    - Tenho muito em que pensar. - Pegando a mo de Ana, levou-a para fora do quarto e deixou a porta aberta, como sempre fazia. - A maior parte  sobre voc, mas 
h outras coisas tambm.
    - Honesto, sem ser bajulador. - Ana parou no topo da escada. - Falando srio, Boone, eu poderia dar-lhe algo que... - Ruborizou, rindo baixinho ao ver o brilho 
que surgiu nos olhos dele. - Estou me referindo a um calmante feito de ervas, bastante suave.
    - Eu prefiro o sexo.
    Balanando a cabea, ela desceu os degraus.
    - Voc no me leva a srio.
    - Pelo contrrio.
    - Como herbalista, quero dizer.
    - No sei nada a respeito deste tipo de coisas, mas no descarto. - Mas tampouco iria permitir que ela o medicasse, pensou. - Como comeou a fazer isso?
    - Sempre tive muito interesse. H muitas geraes existem pessoas que curam, na minha famlia.
    - Mdicos?
    - No exatamente.
    Boone pegou a garrafa de vinho e duas taas, quando saram da cozinha para o terrao.
    - Voc no quis ser mdica.
    - No me sentia qualificada para seguir a carreira de medicina.
    - Ora, isto  algo muito estranho, vindo de uma mulher moderna e independente.
    - Uma coisa no tem nada a ver com a outra. - Ana pegou a taa que ele lhe ofereceu. - No  possvel curar todo mundo. E eu... eu tenho dificuldade em estar 
cercada de sofrimento. O que fao  a minha maneira de satisfazer minhas necessidades e proteger-me, ao mesmo tempo. - Aquilo era o mximo que ela poderia lhe dizer. 
- Alm disso, gosto de trabalhar sozinha.
    - Sei bem como  isso. Meus pais achavam que eu fosse maluco. O fato de gostar de escrever, tudo bem, mas esperavam que fosse escrever o "grande romance americano", 
no mnimo. No incio acharam bem difcil engolir os meus contos de fadas.
    - Devem ter muito orgulho de voc.
    - Do jeito deles. So boas pessoas - Boone falou devagar, percebendo que jamais conversara sobre seus pais com ningum, exceto Alice. - Eles sempre me amaram. 
E, Deus sabe, so loucos por Jessie. Mas acham difcil aceitar que o que eu quero talvez no seja o que eles querem. Uma casa nos subrbios, um bom jogo de golfe 
e uma esposa que me seja devotada.
    - Nada disso  ruim.
    - No, e eu j tive estas coisas antes... exceto pelo jogo de golfe. Mas preferia no ter de passar o resto da minha vida convencendo-os de que estou satisfeito 
com o que tenho agora. - Ele enrolou um cacho dos cabelos dela entre os dedos. - Voc no escuta estas mesmas queixas dos seus pais? "Anastsia, quando voc vai 
se acomodar com um rapaz e iniciar uma famlia?"
    - No. - Ela riu e bebeu um gole de vinho. - Absolutamente no. - A idia de sua me dizendo uma coisa assim, ou mesmo pensando, fez com que risse novamente. 
- Creio que pode-se dizer que meus pais so... excntricos. - Sentindo-se bem, ergueu a cabea e olhou para as estrelas. - Na verdade, acho que os dois ficariam 
desconcertados se eu me acomodasse. Voc no me contou que tem uma ilustrao de tia Bryna.
    - Quando voc ficou sabendo da minha conexo com ela, estava a ponto de me mandar embora. Achei que no seria o momento adequado e, depois, creio que acabei 
me esquecendo.
    -  bvio que ela tem voc em alto conceito. Tia Bryna s deu uma de suas gravuras para Nash depois do casamento, e era algo que ele cobiava havia anos.
    -  mesmo? Pois vou me lembrar de esfregar isso no nariz dele, na prxima vez que nos encontrarmos. - Prendendo o queixo dela entre os dedos, Boone virou-lhe 
o rosto para o seu. - Faz muito tempo desde a ltima vez em que fiquei namorando no terrao. Estou me perguntando se ser que perdi o jeito.
    Boone roou os lbios sobre os dela, uma, duas, trs vezes, at que Ana os entreabriu, num convite. Tirou o copo da mo dela e deixou-o junto ao seu, enquanto 
a boca movia-se para aceitar o que ela oferecia.
    O gosto dela era to doce, to quente, acolhedor e excitante. A pele era macia, suave, tentadora, seduzindo-o e encantando-o. E o suspiro que ela exalou, to 
leve e rpido, provocou um arrepio instantneo por todo o corpo dele.
    Mas Boone no era nenhum adolescente ansioso agarrando a namorada no escuro. O vulco de desejos que borbulhava dentro de si poderia ser controlado. Se no podia 
dar a ela a totalidade de sua paixo, ento lhe daria o beneficio de sua experincia.
    Enquanto preenchia-se com ela, devagar, dando um doloroso passo de cada vez, retribua com um carinho e uma ternura que a fez estremecer desamparadamente naquele 
ltimo limiar antes do amor.
    Ser abraada daquela maneira, Ana pensou vagamente, com tal compaixo mesclada com avidez, era maravilhoso. Em todas as suas fantasias, jamais alcanara um prazer 
to intenso. A lngua dele brincava com a sua, fazendo-a sentir os sabores msculos e speros. As mos acariciavam-na sedutoramente, enquanto os msculos dos braos 
dele enrijeciam. Quando Boone passou a beij-la no rosto e no pescoo, ela arqueou o corpo para trs, desejando, desejando desesperadamente que ele lhe mostrasse 
mais e mais.
    Era a rendio que ele sentia vindo dela, to nitidamente quanto sentia a brisa da noite em sua pele. Sabendo que isto o levaria mais perto do limite, entregou-se 
 necessidade febril de toc-la.
    Era era pequena, gloriosamente macia. Seu corao batia frentico sob as mos dele. Boone quase podia sentir o gosto, sentir a pele quente e acetinada em seus 
lbios, de sua lngua, no fundo de sua boca. Era tortura no prov-la agora, no puxar-lhe o vestido para baixo e banquetear-se.
    A sensao dos mamilos dela enrijecendo, pressionados contra a seda do vestido, provocou-lhe um gemido quando tornou a beij-la.
    A boca de Ana recebeu-o com avidez, desespero. Suas mos moveram-se sobre ele com a mesma urgncia que a dele. Ela sabia, enquanto entregava-se inteira ao momento, 
que no haveria mais volta. Eles no se amariam agora. No poderia ser agora, no terrao iluminado pelas estrelas, sob a janela onde uma criana podia acordar e 
procurar pelo pai durante a noite.
    Mas no havia mais volta para o amor que ela sentia.
    No para ela. Ana no poderia mudar o curso de seus sentimentos, do mesmo jeito que no mudaria o curso do sangue que corria em suas veias.
    E, por causa disso, chegaria o momento, muito em breve, em que ela entregaria a ele o que jamais entregara a qualquer outro homem.
    Quase sufocando pelo que acabara de perceber, Ana virou a cabea e mergulhou o rosto no ombro dele.
    - Voc no imagina o que faz comigo.
    - Ento me diga. - Boone mordiscou-lhe a orelha, provocando-lhe um estremecimento. - Quero ouvi-la me dizer tudo.
    - Voc me faz doer, e ansiar. - E ter esperana, ela pensou, fechando os olhos com fora. - Ningum jamais fez isso. - Com um longo e trmulo suspiro, afastou-se. 
-  disso que ns dois temos medo.
    - No posso negar. - Os olhos dele tinham a cor de cobalto na escurido. - E no posso negar que lev-la para o meu quarto, para a minha cama,  algo que desejo 
tanto quanto desejo respirar.
    Tal imagem fez com que o corao dela disparasse. 
    - Voc acredita no inevitvel, Boone? 
    - Tenho de acreditar.
    Ana assentiu.
    - Eu tambm. Acredito no destino, nos caprichos da sorte, nas artimanhas daquilo que os homens costumavam chamar de deuses. Quando olho para voc, vejo o inevitvel. 
- Ela levantou-se, pressionando a mo no ombro dele para evitar que ele fizesse o mesmo. - Voc  capaz de aceitar que eu tenho alguns segredos que no posso lhe 
contar, partes de mim que no poderei compartilhar? - Viu um misto de curiosidade e negao nos olhos dele, e balanou a cabea antes que ele respondesse. - No 
precisa responder agora... Voc precisa pensar bem, antes de ter certeza. E eu tambm.
    Abaixou-se para beij-lo e fez uma conexo rpida e firme. Sentiu o baque de surpresa, antes de recuar.
    - Durma bem esta noite - disse, sabendo que ele dormiria. E que ela no.
    
    
    CAPTULO 7
    
    Um presente que Ana sempre fazia questo de se dar, no seu aniversrio, era um dia completamente livre. Poderia ficar sem fazer nada, se quisesse, ou trabalhar 
o dia inteiro, se essa fosse sua vontade. Poderia levantar de madrugada e comer um pote de sorvete como caf da manh, ou ficar na cama at o meio-dia, vendo filmes 
na tev.
    O nico plano para aquele dia do ano que pertencia somente a ela, era no ter plano algum.
    Mas acordou cedo e entregou-se ao luxo de um banho demorado, perfumado com seus leos preferidos e com um sach de ervas escolhidas por suas propriedades relaxantes. 
No rosto, passou um tnico facial preparado com flores, iogurte e p de caulim, relaxando na banheira ao som da msica de harpas e bebericando um suco de frutas, 
enquanto esperava os efeitos da magia.
    Com o rosto reluzente e os cabelos brilhando graas ao xampu de camomila, passou o seu leo de corpo personalizado e escorregou para dentro de um robe de seda 
da cor dos raios de lua.
    Ao sair do banheiro, considerou seriamente a idia de voltar para a cama e cochilar mais um pouco, a fim de completar a auto-indulgncia matinal. Mas no meio 
do quarto, onde havia apenas um tapetinho antigo na hora em que ela fora para o banheiro, agora encontrava-se um grande ba de madeira.
    Com um gritinho de alegria, Ana abaixou-se e passou as mos sobre a madeira antiga e entalhada, que fora polida a ponto de brilhar como um espelho. A madeira 
exalava um cheiro de cera de abelhas e alecrim, e era macia como uma seda sob seus dedos.
    O ba tinha sculos de idade e era um objeto que Ana admirava desde criana, quando morava no Castelo Donovan. Dizia-se que em certa poca o ba ficara em Camelot, 
tendo sido presenteado a Merlin pelo jovem Arthur.
    Com um suspiro sorridente, Ana sentou apoiada nos calcanhares. Eles sempre conseguiam surpreend-la, pensou. Seus pais, seus tios e tias... to distantes, mas 
nunca longe de seu corao.
    Os poderes combinados de seis feiticeiros haviam enviado o ba desde a Irlanda, num piscar de olhos, atravs do tempo e do espao, por meios que eram bem pouco 
convencionais.
    Lentamente, Ana abriu a tampa e o perfume de antigas vises, de encantamentos imemoriais, de feitiarias eternas chegou at ela. Era uma fragrncia seca, to 
aromtica quanto ptalas amassadas at virarem p, pungente com a fumaa do fogo frio que as feiticeiras evocam  noite.
    Ali estava o poder, para ser respeitado e aceito. As palavras que ela falou foram num idioma antigo, a lngua dos Sbios. O vento que ela evocou sacudiu as cortinas, 
fez com que o ar batesse em seu rosto. O ar cantava, milhares de cordas de harpas entoando na brisa, depois silenciou.
    Abaixando os braos, Ana comeou a pegar o contedo do ba. Ao tirar um amulet de hematita, com o centro da pedra vermelho parecendo sangrar pelas bordas de 
um verde profundo, teve de sentar novamente no cho. Ana sabia que pertencia  famlia de sua me havia geraes, uma pedra de cura de valor incalculvel e com um 
poder inigualvel. Sentiu lgrimas nos olhos ao dar-se conta de que estava sendo passada para ela, como acontecia a cada meio sculo, a fim de design-la como uma 
curandeira da mais elevada ordem.
    Seu presente, pensou, deslizando os dedos sobre a pedra lapidada por outros dedos, em outros tempos. Seu legado.
    Guardou o amuleto delicadamente no ba e pegou o presente seguinte. Ergueu nas mos um globo de calcednia, a superfcie quase transparente oferecendo-lhe um 
relance do universo, caso ela decidisse olhar. Era dos pais de Sebastian, ela sabia, pois pde senti-los quando espalmou o globo entre as mos. Depois, havia um 
pergaminho gravado com os smbolos da linguagem antiga. Um conto de fadas, ela concluiu enquanto lia e sorria. To velho quanto o tempo, e to doce quanto o amanh. 
Tia Bryna e tio Matthew, pensou enquanto o guardava novamente no ba.
    Embora o amuleto tivesse sido um presente de sua me, Ana sabia que sempre haveria algo especial enviado pelo seu pai. Encontrou-o, e riu quando o pegou. Um 
sapo, to pequeno quanto uma unha, intrincadamente esculpido em jade.
    - Igualzinho a voc, papai - ela disse, rindo outra vez.
    Tornou a guard-lo, fechou o ba e levantou-se. Na Irlanda, seis pessoas deviam estar  espera do seu telefonema, para saber se ela havia gostado dos presentes.
    Quando comeou a encaminhar-se para o telefone, ouviu batidas na porta dos fundos. Seu corao deu um salto rpido e incerto, depois se acalmou. A Irlanda teria 
de esperar.
    
    Boone escondia o pacote atrs das costas. Havia outro presente em casa, que ele e Jessie tinham escolhidos juntos. Mas aquele, ele mesmo queria dar para Ana. 
Sozinho.
    Ele ouviu-a aproximar-se da porta e sorriu, com o cumprimento j na ponta da lngua. Mas teve sorte por no engolir a lngua, bem como as palavras, no instante 
em que a viu.
    Ela parecia iluminada, com os cabelos caindo como uma cascata de ouro plido pelas costas de um robe prateado. Os olhos pareciam mais escuros, mais profundos. 
Como podiam ser claros como um lago, pensou, e ainda assim darem a sensao de estar guardando milhares de segredos? O perfume gloriosamente feminino que a rodeava 
quase o fez cair de joelhos.
    Quando Quigley enroscou-se em suas pernas numa saudao, Boone pulou como se tivesse sido alvejado por um tiro.
    - Boone. - Com um riso mal contido na garganta, Ana apoiou-se na soleira da porta. - Voc est bem?
    - Sim, sim. Eu... Voc estava dormindo?
    - No. - To calma quanto ele estava agitado, Ana abriu-lhe a porta. - Acordei faz tempo. Estou apenas bancando a preguiosa. - Vendo que ele continuava parado 
na porta, inclinou a cabea para o lado. - Voc no quer entrar?
    - Sim,  claro. - Boone deu um passo para dentro, mas manteve uma distncia cautelosa.
    Ele havia se comportado da maneira mais contida e respeitosa que pudera, naquelas duas semanas, resistindo  tentao de ficar a ss com ela e, quando ficava, 
mantendo-se calmo e controlado. Agora, percebia que todo este controle fora tanto para seu prprio bem quanto dela.
    Era doloroso resistir, mesmo quando estavam l fora, ao sol, conversando sobre Jessie ou mexendo no jardim, falando sobre o trabalho dela ou sobre o seu.
    Mas agora, parado diante de Ana, a casa vazia e silenciosa rodeando-os, o perfume misterioso atormentando seus sentidos, era mais do que ele podia suportar.
    - Aconteceu alguma coisa? - ela perguntou, mas sorria, como se soubesse.
    - No, nada... Ahn, como voc est?
    - Otima. - O sorriso dela alargou-se, suavizou-se. - E voc?
    - Muito bem. - Boone pensou que, se ficasse um pouco mais tenso, se transformaria numa esttua. - Muito bem.
    - Eu ia mesmo preparar um ch. Desculpe se no tenho caf em casa, mas talvez voc queira me acompanhar.
    - Ch. - Ele suspirou baixinho. - Excelente.
    Observou-a caminhar at o fogo, com o gato deslizando entre suas pernas como se fosse um cordo cinzento. Ela deixou a chaleira no fogo, depois despejou a comida 
de Quigley num potinho. Abaixando-se, afagou o animal enquanto ele comia. O robe abriu-se, espalhando-se no cho como gua, e deixou  mostra sua perna acetinada.
    - Como vo indo as asprulas? E os hissopos?
    - Hein?
    Ela jogou os cabelos para trs, olhou para Boone e sorriu.
    - As ervas que dei para voc plantar no seu jardim.
    - Ah, sim, parecem timas.
    - Eu tenho alguns vasos com mudas de manjerico e tomilho, l na estufa. Talvez voc queira lev-los, deix-los na janela da cozinha por algum tempo. Para usar 
como temperos. - Ana levantou-se quando a chaleira comeou a apitar. - Voc vai achar muito melhor do que aqueles que compra no supermercado.
    - Que bom, obrigado. - Estava quase sentindo-se novamente  vontade, ele pensou. Ou, pelo menos, esperava que sim.
    Era tranqilizador observ-la coar o ch, esquentar o bulezinho de porcelana, tirando as folhinhas aromticas de um pote azul-claro. No sabia que uma mulher 
podia ser calmante e sedutora ao mesmo tempo.
    - Jessie fica vigiando aquelas sementes de margarida do campo, que voc lhe deu para plantar, como uma galinha chocando os ovos.
    - S no deixe que ela molhe demais. - Deixando o ch descansar, ela virou-se. - E ento?
    Ele piscou.
    - Ento?
    - Boone, voc vai ou no me mostrar o que est escondendo atrs das costas?
    -  impossvel engan-la, no ? - Ele estendeu-lhe a caixa embrulhada num vivo papel azul. - Feliz aniversrio, Ana.
    - Como sabia que  meu aniversrio?
    - Nash me contou. No vai abrir?
    -  claro que sim. - Ana rasgou o papel, revelando uma caixa com o logotipo da loja de Morgana. - Excelente escolha. Voc no teria como errar, comprando-me 
alguma coisa da Wicca. - Levantou a tampa da caixa e, com um leve suspiro, retirou uma delicada figura de uma feiticeira, esculpida em mbar.
    A cabea estava inclinada para trs e magnficos filetes de cabelos dourado-escuros caam em cascata pelo manto. Os braos esguios estavam erguidos, levemente 
curvados nos cotovelos, as mos espalmadas para cima, numa posio idntica quela que Ana assumira junto ao ba, naquele mesma manh. Numa das mos ela segurava 
uma pequena prola reluzente, e na outra um fino basto de prata.
    -  linda - Ana murmurou. - Absolutamente linda.
    - Passei na loja na semana passada e Morgana acabara de receb-la. Me fez lembrar de voc.
    - Obrigada. - Ainda segurando a esttua, levantou a mo livre at o rosto dele. - Voc no poderia ter encontrado um presente mais perfeito.
    Ela ergueu-se na ponta dos ps para tocar-lhe os lbios. Sabia exatamente o que estava fazendo, bem como sabia, quando ele retribuiu o beijo, que Boone estava 
sufocando-se numa priso de autocontrole. O poder, como uma chuva limpa e refrescante, banhou-a por inteiro.
    Era por isso que ela estivera esperando, fora por isso que passara a manh dedicando-se ao antigo ritual feminino de leos, cremes e perfumes.
    Para ele. Para si mesma. Para a primeira vez deles.
    Boone sentia-se como se houvesse ns pontiagudos contorcendo-se em seu estmago. Um latejar constante em sua cabea. Embora seus lbios mal se tocassem, o gosto 
dela parecia atra-lo como um m, transformando idias como conteno e controle em conceitos vagos e sem importncia. Tentou recuar, mas ela enlaou-o com seus 
braos sedosos.
    - Ana...
    - Shh. - Ela o acalmava e excitava ao mesmo tempo, enquanto os lbios danavam sobre os seus. - Apenas beije-me.
    Como ele poderia negar, quando os lbios dela entreabriram-se suavemente sob os seus? Boone tocou-lhe o rosto, segurando-o entre as mos tensas enquanto lutava 
uma violenta batalha interna para impedir que o abrao fosse longe demais.
    Quando o telefone tocou, deixou escapar um gemido que era um misto de frustrao e alvio.
    -  melhor eu ir embora.
    - No. - Ela queria rir, mas limitou-se a sorrir quando desvencilhou-se dos braos dele. Jamais experimentara um poder to delicioso quanto aquele. - Fique, 
por favor. Por que no serve o ch, enquanto atendo?
    Servir o ch, ele pensou. Teria sorte se conseguisse levantar o bule. Seu corpo inteiro agitava-se e ele virou-se cegamente para o fogo, enquanto Ana atendia 
o telefone.
    - Mame! - Agora, ela riu de verdade, e Boone escutou a pura alegria no riso. - Obrigada. Obrigada a todos vocs. Sim, recebi esta manh. Foi uma surpresa maravilhosa! 
- Ela riu outra vez, ouvindo. -  claro. Sim, estou bem, estou tima. Eu... Papai? - Ela riu, quando o pai interrompeu a conversa. - Sim, eu sei o que o sapinho 
significa. Adorei. Tambm amo voc. No, eu no preferia um de verdade, muito obrigada. - Sorriu para Boone quando ele entregou-lhe a xcara de ch. - Tia Bryna? 
Sim, adorei a histria,  muito linda. Sim, estou. Morgana est muito bem, e os gmeos tambm. No vai demorar muito, agora. Sim, vocs chegaro a tempo.
    Inquieto, Boone ficou andando pela cozinha, bebericando o ch, surpreendendo-se ao ver como estava bom. Perguntava-se o que diabos ela teria colocado ali. E 
apenas ficar ouvindo a voz dela j o fazia arder de desejo.
    Podia lidar com isso, lembrou-se. Iriam tomar o ch como duas pessoas civilizadas, enquanto ele manteria as mos bem afastadas dela. Depois, fugiria dali e mergulharia 
no trabalho pelo restante do dia, para manter a mente bem afastada dela, tambm.
    J havia concludo o enredo da histria e estava quase pronto para iniciar as ilustraes. E j sabia exatamente quem queria usar como modelo.
    Ana.
    Balanando bruscamente a cabea, bebeu mais um gole do ch. Parecia que ela iria conversar com todos os parentes irlandeses. Mas por ele estava tudo bem. Isso 
lhe daria tempo para se acalmar.
    - Sim, estou com muita saudade tambm. De todos vocs. Nos vemos daqui a duas semanas. Abenoada seja.
    Ela estava com os olhos midos quando desligou, mas sorriu para Boone.
    - Era a minha famlia.
    - Eu percebi.
    - Eles me enviaram um ba de presentes hoje cedo, e no tive chance de ligar para agradecer.
    - Que bom. Escute, Ana, eu realmente preciso... Hoje cedo? - ele disse, franzindo a testa. - Mas no vi nenhum caminho de entregas.
    - Chegou bem cedo. - Ana desviou os olhos, deixando a xcara na mesa. - Foi uma entrega especial, por assim dizer. Eles esto ansiosos com a viagem no fim do 
ms.
    - Voc vai ficar feliz em rev-los.
    - Sempre fico. Estiveram aqui no vero, por poucos dias. Mas com toda a agitao sobre o noivado e o casamento de Sebastian e Mel, no tivemos muito tempo para 
ficar juntos. - Foi abrir a porta para deixar Quigley sair. - Quer mais um pouco de ch?
    - No, obrigado. Preciso ir embora, Ana. Tenho de trabalhar. - Ele tambm aproximou-se da porta. - Mais uma vez, feliz aniversrio.
    - Boone. - Ela pousou a mo no brao dele, sentiu-o estremecer. - Todos os anos, no meu aniversrio, eu me dou um presente. Muito simples, na verdade.  um dia 
em que fao qualquer coisa que quiser. Qualquer coisa que seja do meu agrado. - Mal parecendo se mover, ela fechou a porta e postou-se entre ele e a sada. - Este 
ano eu escolhi voc. Se voc ainda me quiser.
    Tais palavras pareciam ecoar nos ouvidos dele, quando Boone baixou os olhos para fit-la. Ana estava to calma, to serena que parecia estar apenas conversando 
sobre o tempo.
    - Voc sabe que eu quero.
    - Sim, eu sei. - Ana sorriu. Naquele momento estava calma, como o olho de um furaco. - Eu sei. - Quando ela deu um passo adiante, Boone recuou um passo. - Eu 
vejo isso quando olho para voc, sinto sempre que voc me toca. Voc tem sido muito paciente, muito bondoso. Manteve sua palavra de que nada aconteceria entre ns 
antes que eu me decidisse.
    - Estou tentando. - Incerto, ele deu outro passo para trs. - No tem sido fcil.
    - Nem para mim. - Ana parou onde estava, o robe prateado reluzindo em torno dela sob a claridade do sol. - Voc tem apenas de aceitar-me, aceitar que estou disposta 
a lhe entregar tudo o que puder. Aceite, e deixe que seja o suficiente.
    - O que est me pedindo, Ana?
    - Que seja o meu primeiro - ela respondeu simplesmente. - Que me mostre como o amor pode ser.
    Ele atreveu-se a estender a mo e tocar-lhe os cabelos.
    - Tem certeza?
    - Certeza absoluta. - Oferecendo e pedindo, ela estendeu as duas mos. - Voc quer me levar para a cama e ser meu amante?
    Como ele poderia responder? No existiam palavras no mundo para traduzir o que ele sentia naquele momento. Portanto, no desperdiou palavras e apenas pegou-a 
no colo.
    Boone carregou-a como se ela fosse to delicada quanto a feiticeira de mbar que lhe dera de presente. Na verdade, pensou, pensava nela daquela maneira, e sentiu 
um instante de pnico ao pensar que poderia no ser delicado o bastante, contido o bastante. Seria to fcil destruir a delicadeza.
    Quando chegou ao p da escada e comeou a subir, seu corao disparava de antecipao e medo.
    Para o bem dela, desejou que fosse noite, uma noite iluminada por velas, com a luz da lua e msica suave no ar. Porm, de alguma forma lhe pareceu certo que 
ele a amasse, naquela primeira vez, quando o sol brilhava no cu profundamente azul e quando a msica vinha dos pssaros que voejavam pelo jardim e dos sininhos 
batidos pelo vento, que ela mantinha na varanda.
    - Onde? - ele perguntou, e Ana fez um gesto para a porta do quarto.
    Aquele cmodo continha o mesmo perfume dela, um misto de fragrncias femininas e ps aromticos, e algo mais, algo que ele no conseguiu identificar. Como fumaa 
e flores. O sol penetrava alegremente atravs das cortinas de croch e espalhava-se pela enorme e antiga cama, com a cabeceira de madeira entalhada.
    Boone desviou-se do ba, encantado ao ver o arco-ris de cores formados pelos cristais suspensos em finos cordes, na frente de cada janela. Arco-ris em vez 
de raios de luar, ele pensou enquanto a deitava na cama.
    Ela tolice ficar nervosa agora, Ana disse a si mesma, mas suas mos tremiam levemente quando estendeu-as para abra-lo. Ela o queria. Queria que isso acontecesse. 
Ainda assim, a calma certeza que sentira apenas momentos atrs desaparecera sob uma onda de nervosismo e desejo.
    E ele podia ver o desejo e o nervosismo nos olhos dela. Seria possvel que ela compreendesse que eram um espelho dos seus prprios sentimentos? Ela era to frgil 
e linda. Pura e intocada. E estava ali para ele. Boone sabia que era vital para ambos que ele a tomasse com toda ternura.
    - Anastsia. - Abrandando seus prprios temores, ele tomou-lhe a mo e beijou-a. - No vou machuc-la. Eu juro.
    - Eu sei. - Ana entrelaou os dedos nos dele, desejando ter certeza se o medo que sentira era o devido ao momento que uma mulher experimenta apenas uma vez em 
sua vida, ou pela imensido do amor que sentia por ele, que a deixava to frgil e insegura. - Mostre-me.
    Boone abaixou-se para beij-la. Um beijo profundo, explorador, que era tanto excitante quanto tranqilizador. O tempo deixou de existir. Parou. Havia apenas 
aquele momento, em que suas bocas se encontravam.
    Ele tocou-lhe os cabelos, os dedos mergulhando na sedosa maciez. Ento, espalhou-os por cima do travesseiro, formando um lago de fios dourados contra o linho 
branco irlands.
    Quando separou os lbios dos dela, foi para iniciar uma jornada lenta atravs do seu rosto, at sentir o tremor nervoso ser substitudo por uma leve splica. 
Mesmo quando seus temores foram vencidos pelas sensaes suaves e deliciosas que ele lhe provocava, Boone manteve o ritmo lento, to lento que apenas um beijo parecia 
durar uma eternidade.
    Ela ouviu-o murmurar doces promessas, delicadas palavras de carinho. O murmrio baixo de sua voz fez com que a mente de Ana flutuasse, e seus lbios se curvassem 
num sorriso enquanto encontrava os dele novamente.
    Ela deveria saber que seria assim, com ele. Lindo, dolorosamente lindo. Boone a fazia sentir-se amada, protegida, segura. Quando ele puxou o robe de seus ombros, 
no teve mais medo, mas acolheu com prazer a sensao dos lbios dele em sua pele. Ansiosa, agora, puxou-lhe a camisa e ele hesitou apenas um instante antes de ajud-la 
a tir-la.
    Ele deixou escapar um gemido, enquanto seu corpo estremecia. Deus, a sensao das mos dela em suas costas... Lutou contra uma onda de avidez e manteve as mos 
calmas enquanto tirava-lhe o robe.
    A pele dela era como um creme. Insuportavelmente macia e perfumada com os leos. To tentadora quanto um nctar, convidava-o a prov-la. Quando Boone fechou 
os lbios em torno dos seios dela, o som abafado que ela emitiu ecoou em seu crebro como um trovo.
    Delicadamente, ele usava a lngua e os lbios para lev-la ao estgio seguinte do prazer, enquanto suas prprias paixes o atormentavam, exigindo que fosse mais 
rpido, mais rpido...
    Ana sentia os olhos pesados, no conseguia abri-los. Como ele podia saber exatamente onde tocar, onde beijar, para fazer com que seu corao saltasse no peito. 
Mas ele sabia, e ela suspirou por entre os lbios enquanto Boone lhe mostrava mais e mais.
    Sussurros e carcias delicadas. O perfume de lavanda e rosas tornando o ar mais denso. Os lenis aquecendo-se, os corpos umedecendo de paixo. Um arco-ris 
de cores brincando por cima dos olhos semicerrados de Ana.
    Ela flutuava ali, carregada pela magia que ambos produziam, sua respirao tornando-se mais rpida e ofegante  medida que ele a levava mais alto, mais alto.
    Ento uma onda de calor invadiu-a. Explodiu dentro dela to rapidamente, com tanta violncia que ela gritou, agarrando-se a ele.
    - No. No, Boone, eu... - Ento, um relmpago, um lampejo de prazer que deixou-a imvel, aturdida e trmula.
    - Ana... - Boone teve de enterrar as mos no colcho para impedir-se de penetr-la naquele instante, a fim de lev-los a ambos para onde ele sabia que as recompensas 
seriam desesperadamente intensas. - Minha querida. - Beijou-a, saboreando sua respirao ofegante. - Meu anjo, no tenha medo.
    - No. - Excitada at o mago de si, ela abraou-o com fora. Seu corao disparava, o corpo dele estava tenso contra o seu. - No, mostre-me, mostre-me mais.
    Ento, Boone abriu-lhe o robe por inteiro, sentindo-se enlouquecer com a viso da nudez dela naquele lago de sol. Ela abrira os olhos, agora, fixando-os nos 
dele com firmeza. Sob a paixo que fora apenas despertada, Boone viu a confiana que ela lhe depositava.
    Ento, mostrou-lhe mais.
    Os temores se dissolveram. No havia lugar para eles quando Ana sentiu o corpo vibrando, invadido por sensaes muito mais vvidas. Quando Boone a levou novamente 
para o clmax, ela deixou-se levar pela tempestade, entregando-se totalmente ao lampejo de calor, desesperada pelo seguinte.
    Ele se continha, obtendo prazer no prazer que lhe proporcionava, surpreso pela maneira como ela correspondia a cada toque, a cada beijo. A inocncia dela era 
sua, ele sabia. Com a respirao ofegante, o sangue pulsando em seu crebro, penetrou-a, preparado para senti-la enrijecer e gritar. Sabendo que teria de parar se 
ela lhe pedisse, no importava o quanto seu prprio corpo ansiasse pelo final.
    Mas Ana no enrijeceu, apenas soluou o nome dele enquanto seus braos o enlaavam. O breve instante de dor foi imediatamente aliviado pelo prazer muito maior, 
mais completo do que ela jamais imaginara ser possvel.
    "Dele", ela pensou. "Eu sou dele." E moveu-se sob Boone, levada pelo instinto mais antigo que o tempo.
    Mais profundamente, ele a penetrava, preenchendo-a, carregando-a na direo do prazer final e mximo. Quando ela gritou, com o corpo estremecendo de prazer, 
Boone mergulhou o rosto em seus cabelos e permitiu-se segui-la.
    
    Ele ficou olhando o bal das luzes na parede, ouvindo o corao dela acalmar-se. Ana estava deitada sob ele, imvel, com os braos ainda enlaando-o, as mos 
acariciando-lhe os cabelos.
    Boone nunca pensara que pudesse ser assim. Era tolice, pensou. J tivera muitas mulheres, antes. Mais do que isso, havia amado antes, mais profundamente do que 
qualquer pessoa conseguiria. Ainda assim, aquela unio havia sido mais do que qualquer coisa que j tivesse esperado ou experimentado.
    No tinha como explicar a ela, quando ele prprio estava longe de entender.
    Depois de pressionar um beijo em seu ombro, levantou-se e fitou-a. Os olhos dela estavam fechados, o rosto afogueado e completamente relaxado. Boone perguntou-se 
se Ana teria alguma idia de como tudo havia mudado, para os dois, naquela manh.
    - Voc est bem?
    Ana balanou a cabea em negativa, alarmando-o. Preocupado, Boone apoiou-se nos braos a fim de remover o peso do seu corpo de cima dela. Ana entreabriu os olhos, 
apenas o bastante para que ele visse o azul esfumaado por entre os clios espessos.
    - Eu no estou bem - ela disse, num tom baixo e enrouquecido. - Estou tima. Voc  maravilhoso. - Ela sorriu lindamente. - Isso foi maravilhoso.
    - Voc me deixou preocupado. - Boone afastou-lhe os cabelos do rosto. - Acho que nunca fiquei to nervoso. - Os lbios dela j o aguardavam, quando ele inclinou-se 
para beij-la. - No est arrependida?
    Ana arqueou a sobrancelha.
    - Pareo arrependida?
    - No. - Sem pressa, ele observou o rosto dela, traando-o com a ponta do dedo. - Voc est parecendo um tantinho segura de si. - E isso provocou nele uma rpida 
onda de satisfao.
    - Estou me sentindo assim. E preguiosa, tambm. - Ela espreguiou-se um pouco e Boone ajeitou-se ao seu lado, para deix-la recostar a cabea em seu ombro.
    - Feliz aniversrio.
    Ela riu baixinho.
    - Este foi o presente mais... exclusivo que algum j me deu.
    - A vantagem  que voc poder us-lo muitas e muitas vezes.
    - Melhor ainda. - Ana ergueu a cabea para encar-lo, e seus olhos estavam srios. - Voc foi muito bom para mim, Boone. Muito bom.
    - No foi exatamente um ato de altrusmo. Eu queria fazer isso desde a primeira vez em que a vi.
    - Eu sei. Isso me assustava e... me excitava, tambm. - Ela acariciou-lhe o peito e desejou, por um instante, que pudessem ficar ali para sempre, abraados e 
aconchegados sob a luz do sol.
    - Isso vai mudar tudo.
    As mos dela pararam, tensas.
    - Somente se voc quiser.
    - Ento eu quero. - Boone sentou-se, trazendo-a consigo de forma que ficaram frente a frente. - Eu quero que voc faa parte da minha vida. Quero estar com voc, 
tanto quanto for possvel... e no apenas assim.
    Ana sentiu o antigo e incmodo medo tentanto vir  superfcie. Rejeio. A rejeio podia ser devastadora.
    - J fao parte da sua vida. E farei para sempre, de agora em diante.
    Ele viu algo nos olhos dela, pressentiu na tenso que invadiu a atmosfera entre eles subitamente. 
    - Mas...
    - Sem "mas" - ela apressou-se em dizer, e abraou-o. - Nada, agora. Apenas isso, apenas ns dois. - Beijou-o, transmitindo tudo o que podia naquele beijo, sabendo 
que estava trapaceando a ambos por ocultar-lhe seu segredo. - Estarei aqui quando voc me quiser, pelo tempo que voc quiser. Eu prometo.
    Estou apressando-a novamente, Boone censurou-se enquanto a abraava. Como poderia esperar que ela o amasse, s porque tinham acabado de fazer amor? Nem mesmo 
tinha certeza dos seus prprios sentimentos. Tudo acontecera depressa demais e ele estava deixando-se levar pela emoo do momento. Lembrou a si mesmo, enquanto 
a mantinha nos braos, que tinha outras necessidades a considerar em sua vida.
    Havia Jessie.
    O que acontecesse entre ele e Ana iria afetar sua filha. Portanto, no poderia haver erros, nem atos impulsivos, nem tampouco um compromisso verdadeiro antes 
que ele estivesse absolutamente certo.
    - Iremos devagar - disse, mas sentiu uma pontada de ressentimento quando Ana relaxou no mesmo instante. - Mas se algum outro sujeito aparecer na sua porta pedindo 
uma xcara de acar ou lhe trazendo presentes...
    - Eu o expulso na hora! - Ana apertou-o com fora. - No h mais ningum, alm de voc. - Beijou-o no pescoo. - Voc me faz feliz.
    - Posso faz-la mais feliz ainda.
    Ela riu, inclinando a cabea.
    -  mesmo?
    - No  o que est pensando. - Divertido, e tambm lisonjeado, Boone mordiscou-lhe o lbio. - Ainda no, pelo menos. Eu estava pensando em algo como preparar-lhe 
um belo almoo, enquanto voc fica aqui descansando e esperando por mim. E, depois, faremos amor outra vez. E mais uma vez...
    - Bem... - Era tentador, mas Ana lembrava-se muito bem da baguna que ele fazia quando cozinhava. E sua cozinha continha muitas panelas e vasilhas que no podiam 
ser usadas incorretamente. - Por que no fazemos o contrrio? Voc fica me esperando e eu fao o almoo?
    -  o seu aniversrio.
    - Exatamente. - Ela beijou-o, antes de escorregar para fora da cama. -  por isso que devo fazer tudo do jeito que quero. No vou demorar.
    
    Ele teria de ser muito estpido para no aceitar um oferecimento desses, Boone decidiu enquanto recostava na cama, apoiando-se nos braos cruzados. Ouviu o barulho 
de gua correndo no banheiro e acomodou-se, imaginando como seria passar a tarde inteira na cama.
    Ana amarrava o robe, enquanto descia as escadas. O amor, pensou, fazia coisas maravilhosas para o esprito. E era muito, muito melhor do que qualquer poo que 
ela pudesse fazer ou conjurar. Talvez com o tempo, talvez com muito mais desse amor, ela pudesse dar-lhe o que ainda faltava.
    Boone no era Robert, pensou, sentindo-se envergonhada por t-los comparado, nem que fosse por um instante. Mas o risco era to grande, e o dia estava to maravilhoso...
    Cantarolando baixinho, ocupou-se na cozinha. Sanduches, decidiu. No seria um cardpio muito refinado, mas perfeito para comer na cama. Sanduches e o vinho 
especial do seu pai. Comeou a prepar-los, flutuando at a geladeira, cuja porta estava repleta dos desenhos de Jessie.
    - Ainda nem est vestida - Morgana falou, entreabrindo a porta da cozinha. - Bem como eu suspeitava.
    Segurando um peito de peru na mo, Ana virou-se. No era apenas Morgana quem estava ali, mas Nash, Sebastian e Mel, tambm.
    - Ah... - Ela sentiu-se ruborizar no mesmo instante, e deixou o peito de peru no balco. - No ouvi vocs chegando.
    - Obviamente porque estava ocupada demais consigo mesma, com seu aniversrio e tudo o mais - Sebastian comentou.
    Eles entraram todos ao mesmo tempo, abraando-a, beijando-a e empurrando-lhe caixas enfeitadas com laos. Nash j estava abrindo uma garrafa de champanhe.
    - Procure as taas, Mel. Vamos comear a festa. - Piscou para a esposa, que desabara numa cadeira. - Para voc, suco de ma, amor.
    - Estou gorda demais para discutir. - Morgana ajeitou o corpo na cadeira, ou pelo menos tentou. - Ento, recebeu alguma coisa da Irlanda?
    - Sim, um ba, hoje cedo.  lindo. As taas esto no outro armrio - ela falou para Mel. - E cheio de presentes. Conversei com eles no telefone... - Um pouco 
antes de subir e fazer amor com Boone. Mais uma onda de rubor aqueceu-lhe as faces. - Eu, anh, preciso... - Mel entregou-lhe uma taa cheia de champanhe at a borda.
    - Beber a primeira taa - Sebastian completou a frase para ela. Inclinou a cabea para o lado. - Anastsia, minha querida, voc est simplesmente radiante. Parece 
que os vinte e sete anos combinam bem com voc.
    - Fique longe da minha mente - ela resmungou, e bebeu um gole a fim de ter tempo de pensar em como iria explicar. - Nem sei como lhes agradecer por terem vindo 
at aqui. Mas, se me derem licena por um minuto...
    - No precisa ir vestir-se por nossa causa. - Nash encheu o restante das taas. - Sebastian tem razo. Voc est fantstica.
    - Sim, mas realmente preciso...
    - Ana, eu tive uma idia melhor. - O som da voz de Boone, vindo da escada, fez com que todos ficassem em silncio. - Por que ns no... - Sem camisa, descalo 
e com os cabelos desgrenhados, ele entrou na cozinha e parou abruptamente.
    - Epa!_ - Mel falou, e baixou os olhos para o copo, sorrindo.
    - Suscintamente colocado. - Sebastian observou Boone por entre os olhos apertados. - Fazendo uma visitinha  sua vizinha, ?
    - Fique quieto, Sebastian - Morgana falou, enquanto pousava as mos na barriga e sorria. - Parece que viemos interromper.
    - Pois acho que teramos interrompido se chegssemos mais cedo - Nash murmurou no ouvido de Mel, fazendo-a engolir um risinho.
    Ana enviou-lhe um olhar fulminante, antes de voltar-se para Boone.
    - Meus parentes vieram me preparar uma festinha, e parecem estar achando.graa na idia de que eu possa ter uma vida particular que... - olhou por sobre o ombro, 
significativamente - no interessa a nenhum deles.
    - Ela sempre fica rabugenta quando  obrigada a sair da cama - Sebastian falou, resignando-se com a presena de Boone. - Mel, acho que vamos precisar de mais 
uma taa.
    - J peguei. - Sorrindo, ela adiantou-se e entregou a taa de champanhe a Boone. - Temos de ser mais rpidos do que eles - acrescentou num cochicho, e ele assentiu.
    - Bem. - Boone bebeu um gole e suspirou. Era evidente que os planos para o resto do dia teriam de ser alterados. - Algum trouxe o bolo?
    Com uma risada deliciosa, Morgana fez um gesto para e enorme caixa de confeitaria.
    - Pegue uma faca, Nash, para que Ana possa cortar a primeira fatia. Mas acho que podemos dispensar as velas. Parece que o desejo dela j foi realizado.
    
    
    CAPTULO 8
    
    J estava acostumada demais com o jeito a sua famlia para sentir-se irritada ou envergonhada por muito tempo. E estava simplesmente feliz demais com Boone para 
ficar de mau-humor. Conforme os dias passavam eles progrediam, lenta e cuidadosamente, na construo de um relacionamento.
    Porm, embora ela passasse a confiar o seu corao e seu corpo a ele, ainda no conseguira confiar-lhe os seus segredos.
    Quanto a Boone, apesar de saber que seus sentimentos por ela tinham amadurecido ao ponto de um amor que jamais esperava sentir novamente, estava to incerto 
quanto ela de dar o passo final que uniria suas vidas.
    No centro disso, havia uma criana que nenhum deles teria coragem de magoar, colocando as suas prprias necessidades em primeiro plano.
    Se ambos roubavam algumas horas nas tardes ensolaradas, ou nas manhs chuvosas, cabia apenas a eles.  noite, Ana deitava-se sozinha e perguntava-se quanto tempo 
duraria aquele interldio mgico..
    Com a aproximao do Halloween, ela e Boone ocupavam-se com seus prprios preparativos. De vez em quando Ana sentia seus nervos  flor da pele diante da idia 
de seu amante conhecer sua famlia no feriado. Ento, ria de si mesma por agir como uma adolescente prestes a apresentar o primeiro namorado aos pais.
    Na tarde do dia trinta e um, ela j estava na casa de Morgana, ajudando a prima muito grvida com os preparativos do banquete de Halloween.
    - Eu poderia ter pedido a Nash para fazer isso. - Morgana pressionou a mo na dor que lhe atingia as costas, e sentou-se para preparar a massa de po na mesa 
da cozinha.
    - Voc pode pedir a Nash que faa qualquer coisa. - Ana cortava a carne de cordeiro em cubinhos, para o tradicional ensopado irlands. - Mas ele est divertindo-se 
tanto em instalar aqueles efeitos especiais.
    - Exatamente como um leigo que pensa ser capaz de superar os profissionais. - Morgana fez uma careta de dor e gemeu, chamando imediatamente a ateno de Ana.
    - Querida?
    - No, ainda no est na hora, embora eu desejasse que sim.  que estou sempre to desconfortvel, o tempo todo, ultimamente. - Ouvindo o som da prpria voz, 
ela fez uma outra careta. - E detesto ficar me queixando.
    - Voc pode se queixar quanto quiser. Estamos s ns duas aqui. - Sempre preparada, Ana serviu um lquido numa xcara. - Beba um pouco disto.
    - J estou me sentindo como se pudesse flutuar na gua... como uma imensa caravela. Meu Deus, estou enorme. - Mas bebeu, mexendo no cristal que tinha no pescoo.
    - E voc tem dois marinheiros nesta caravela.
    Aquele comentrio fez com que Morgana risse.
    - Vamos conversar sobre outra coisa - ela pediu, voltando para a massa do po. Qualquer coisa que no me deixe pensar o quanto estou gorda e rabugenta.
    - Voc no est gorda, e est s um pouquinho rabugenta. - Mas Ana tentou mudar de assunto. - Voc sabia que Sebastian e Mel esto trabalhando juntos em outro 
caso?
    - No, no sabia. - O interesse de Morgana aguou-se. - E fico surpresa com isso. Mel  bastante convicta nesta questo de trabalhar sozinha em suas investigaes.
    - Bem, desta vez ela entregou os pontos. Trata-se de uma criana que fugiu de casa, de apenas doze anos. Os pais esto desesperados. Quando conversei com ela, 
ontem  noite, Mel disse que tinha uma pista e por isso no poderia vir nos ajudar.
    - Quando Mel est na cozinha, mais atrapalha do que ajuda. - Apesar do comentrio, havia afeio pela nova prima em cada palavra. - Ela  maravilhosa para Sebastian, 
no acha?
    - , sim. - Sorrindo, Ana levou ao fogo o cordeiro com batatas e cebolas. - Teimosa, cabea-dura e com um corao enorme. Exatamente o que Sebastian precisa.
    - E voc, encontrou o que precisa?
    Sem. dizer nada a princpio, Ana acrescentou as ervas na panela. Sabia que Morgana daria um jeito de descobrir tudo antes que aquele dia terminasse.
    - Estou muito feliz - respondeu.
    - Eu gosto dele. Tive uma boa impresso sobre ele, desde o comeo.
    - Fico contente com isso.
    - E Sebastian tambm se sente assim... embora ainda tenha algumas reservas. - Morgana franziu a testa, mas manteve o tom de voz alegre. - Principalmente depois 
que deu uma espiada na mente de Boone.
    Ana estreitou os lbios enquanto acertava a temperatura do fogo.
    - Eu ainda no o perdoei por isso.
    - Bem. - Morgana encolheu os ombros e deixou a massa do po numa tigela, para crescer. - Boone no tinha como saber, e isto serviu para deixar Sebastian um pouco 
mais tranqilo. Ele no ficou exatamente encantado ao chegar na sua casa no dia do seu aniversrio e descobrir que voc estivera na cama com um homem.
    - Sem dvida isso no  problema dele.
    - Sebastian ama voc. - Morgana pressionou de leve o brao da prima, enquanto passava pelo fogo. - E ele sempre vai preocupar-se mais com voc, porque  a mais 
nova... e tambm porque o seu dom a deixa muito vulnervel.
    - No sou uma pessoa indefesa, Morgana, e confio no meu bom senso.
    - Eu sei. Querida, eu... - Morgana sentiu lgrimas nos olhos e afastou-as com um gesto impaciente. - Foi a sua primeira vez. Eu no queria intrometer-me, mas... 
Meu Deus, nunca fui assim to sentimental!
    - Foi, sim, s que conseguia disfarar melhor. - Deixando a panela por um momento, Ana atravessou a cozinha para abraar a prima. - Foi lindo, e ele foi muito 
delicado. Eu sempre soube que existia um motivo para esperar, e o motivo era ele. - Afastou-se, sorrindo. - Boone deu-me muito mais do que eu poderia imaginar.
    Com um suspiro, Morgana tocou o rosto de Ana.
    - Voc est apaixonada.
    - Estou, sim. Eu o amo, muito. 
    - E ele?
    Ana desviou os olhos.
    - No sei.
    - Ana...
    - No vou conectar-me com ele desta maneira. - Ana fitou a prima, e falou com voz firme. - Seria desonesto fazer isso, quando no contei a ele o que sou, e nem 
tive coragem de confessar o que sinto. Sei que ele gosta de mim, e no precisaria de nenhum dom para saber disso. E  o que basta. Quando houver mais, se houver 
mais, ele me dir.
    - Sempre fico surpresa ao ver o quanto voc  teimosa, Ana.
    - Sou uma Donovan .- Ana retrucou. - E isso  importante.
    - Concordo. Voc devia contar tudo a ele. - Morgana segurou-a pelo brao, antes que Ana se afastasse. - Ah, eu sei. Detesto quando as pessoas vm me dar conselhos 
que no quero ouvir. Mas voc precisa esquecer o passado e encarar o futuro.
    - Estou encarando o futuro. Gostaria que Boone fizesse parte dele. Mas preciso de mais tempo. - Ana sentiu a voz falhar e pressionou os lbios, at que conseguisse 
controlar-se. - Morgana, eu o conheo. Ele  um bom homem. Tem compaixo, imaginao e tanta generosidade que nem ele mesmo se d conta. E tambm tem uma filha.
    Dessa vez, quando Ana se virou, Morgana foi obrigada a apoiar-se na mesa.
    -  disso que voc tem medo? De ter de cuidar da filha de outra pessoa?
    - Ah, no, eu amo Jessie. E como no poderia? Mesmo antes de comear a amar Boone, eu j amava aquela criana. E ela  o centro do mundo dele, bem como deveria 
ser. No h nada, absolutamente nada que eu no fizesse por eles.
    - Ento, explique.
    Ignorando a pergunta, Ana enxaguou os ovos cozidos que iria descascar.
    - Voc tem endro fresco? Sabe como tio Douglas gosta dos ovos temperados com endro.
    Deixando o ar escapar por entre os dentes, Morgana bateu com fora o pote de tempero na pia.
    - Anastsia, explique.
    Com as emoes em ebulio, Ana tirou a tampa do pote.
    - Ah, voc nem imagina o quanto teve sorte com Nash. Por ter encontrado algum que a ama do jeito que voc , sem importar-se com nada.
    -  claro que sei que tenho sorte - Morgana falou, num tom suave. - Mas o que Nash tem a ver com isso?
    - Quantos homens seriam capazes de nos aceitar to completamente? Quantos homens se casariam com uma feiticeira, ou teriam filhos com ela?
    - Em nome de Finn, Anastsia. - A impacincia na voz de Morgana foi um tanto abafada pelo fato de que foi forada a sentar novamente. - Voc fala como se fossemos 
umas velhas bruxas voando em cabos de vassoura, e rindo enquanto secamos o leite dos seios das mes.
    Ana no sorriu.
    - No  isso que pensa a maioria das pessoas? Robert...
    - Robert que v para o inferno.
    - Tudo bem, vamos esquecer Robert - Ana concordou, com um aceno de mo. - Mas quantas vezes, atravs dos sculos, no fomos perseguidas, caadas, temidas e desprezadas, 
simplesmente por sermos o que fomos predestinadas a ser? No me envergonho da minha herana. No lamento pelo meu dom, nem pelo meu legado. Mas no poderia suportar 
a idia de contar a ele e ser encarada como se... - Deu um risinho forado. - Como se eu tivesse um caldeiro fumegante no poro, cheio de pernas de sapos e presas 
de lobo.
    - Se ele a ama...
    - Se - Ana repetiu. - Veremos. Agora, acho que voc devia ir se deitar por uma hora.
    - Voc s est querendo mudar de assunto - Morgana comeou, ento ergueu os olhos quando Nash irrompeu na cozinha. Havia teias de aranha nos cabelos dele, de 
mentira, felizmente, e um brilho de triunfo no olhar.
    - Vocs precisam ver isso.  incrvel. Eu sou mesmo um gnio, nem acredito! - Pegou um talo de salso de cima da pia e mastigou-o. - Venham, no fiquem paradas 
a!
    - Amadores - Morgana suspirou, e levantou-se com dificuldade.
    As duas estavam admirando os fantasmas produzidos por holografia, no vestbulo, quando Ana ouviu um carro chegar.
    - Eles esto aqui! - Enchendo-se de alegria com a perspectiva de rever a famlia, ela deu um passo largo na direo da porta. Ento, parou abruptamente, atingida 
por uma sbita dor. J estava se virando quando viu Morgana vergando-se na direo de Nash.
    No mesmo instante ele ficou to plido quanto seus fantasmas.
    - Benzinho? Voc j est... Ah, meu Deus!
    - Est tudo bem. - Morgana respirou fundo, enquanto Ana a segurava pelo outro brao. - Foi s uma contrao, de verdade. - Apoiando-se em Nash, ela sorriu para 
Ana. - Acho que no poderia haver um dia mais apropriado para os gmeos nascerem do que o Halloween.
    
    - No h absolutamente nada com que se preocupar - Douglas Donovan estava dizendo a Nash.
    Como o seu filho, era um homem alto e seus cabelos negros tinham apenas alguns fios prateados. Escolhera um smoking para a ocasio e completara o traje com um 
par de tnis cor de laranja fosforescente, achando muita graa ao v-los brilhar no escuro.
    - Um parto  a coisa mais natural do mundo. E esta  uma noite perfeita, tambm.
    - Certo. - Nash engoliu em seco. Sua casa estava cheia de gente... de feiticeiros, para ser mais exato... e sua esposa estava sentada no sof, parecendo no 
dar a mnima para o fato de estar em trabalho de parto havia quase trs horas. - Talvez seja um alarme falso.
    Camilla flutuou pela sala num vestido de baile todo bordado e deu um tapinha no ombro de Nash com um leque de plumas.
    - Deixe tudo nas mos de Ana, querido. Ela vai cuidar de Morgana. Ora, quando Sebastian nasceu fiquei treze horas em trabalho de parto. Ns demos muitas risadas 
com isso, no foi, Douglas?
    - Sim, depois que voc parou de me atirar maldies, querida.
    - Bem,  claro. - Ela foi para a cozinha a fim de verificar o ensopado. Ana nunca usava tomilho suficiente.
    - Ela teria me transformado num porco-espinho, se no estivesse to ocupada com outras coisas - Douglas confidenciou a Nash.
    - Isso me faz sentir bem melhor - Nash murmurou.
    Satisfeito por ter ajudado, Douglas deu uma sonora palmada em suas costas.
    -  para isto que estamos aqui, Dash.
    - Nash.
    Douglas sorriu, benigno.
    - Sim, de fato.
    - Mame. - Morgana deu um aperto na mo de sua me. - V salvar o pobre Nash das garras do tio Douglas. Parece que ele est prestes a desmaiar.
    Bryna deixou o bloco de desenhos de lado.
    - Acha que devo pedir ao seu pai que o leve para dar um passeio?
    - tima idia. - Morgana suspirou com gratido enquanto Ana continuava a massagear-lhe os ombros. - Ainda no h nada que ele possa fazer.
    Padrick, o pai de Ana, sentou-se no instante em que Bryna deixou a cadeira vaga.
    - Como vai indo a minha menina?
    - Estou bem, de verdade. As contraes ainda esto brandas, mas tenho certeza de que no vai demorar muito para as coisas ficarem mais srias. - Morgana inclinou-se 
para beijar a bochecha gorducha do tio. - Estou muito contente por vocs estarem aqui.
    - No poderamos estar em nenhum outro lugar. - Pousou a mo na barriga da sobrinha a fim de aliviar o desconforto, e enviou um sorriso de duende para Ana. - 
E a minha queridinha? Est linda como uma pintura. Puxou o seu pai, no ?
    -  claro que sim. - Ana sentiu a contrao seguinte comear e manteve as mos firmes nos ombros de Morgana. - Agora respire fundo, relaxando.
    - No quer dar a ela um pouco de actia azul? - Padrick perguntou  filha.
    Ana pensou um pouco e balanou a cabea.
    - Ainda no. Ela est indo bem. Mas voc podia pegar a minha algibeira. Vou precisar de alguns cristais.
    - Est feito. - Ele levantou-se e abriu a mo. Na sua palma havia um ramo de urzes floridas. - Ora, de onde isso surgiu? - falou, do mesmo jeito que fazia quando 
a mulher que agora estava em trabalho de parto era ainda uma criana. - Cuide disto para mim. Tenho um trabalho a fazer.
    Morgana roou o ramo de urzes no rosto.
    - Ele  o homem mais querido do mundo.
    - E vai estragar estes dois, se voc deixar. Papai tem um fraco por crianas. - Com a conexo emptica, sabia que Morgana estava mais desconfortvel do que demonstrava. 
- Teremos de ir para o quarto daqui h pouco, Morgana.
    - Ainda no. - Morgana segurou a mo da prima por sobre o ombro. -  to bom ficar aqui, junto com todos. Onde est tia Maureen?
    - Mame est na cozinha, provavelmente discutindo com tia Camilla por causa do ensopado.
    Com um gemido, Morgana fechou os olhos.
    - Ah, meu Deus, eu seria capaz de comer uma panela inteira, sozinha.
    - Depois - Ana prometeu. Ergueu os olhos, quando o barulho de correntes arrastando-se e gemidos sofredores encheu a sala. - Algum tocou a campainha.
    - Pobre Nash. No pde relaxar o bastante para apreciar a prpria obra de arte.  Sebastian?
    Ana esticou o pescoo.
    - , sim. Ele e Mel esto criticando os fantasmas hologrficos. Epa, l se foram a mquina de fumaa e os morcegos. 
    Sebastian entrou na sala balanando a cabea. 
    - Amadores...
    
    - E Lydia ficou com tanto medo que comeou a gritar sem parar - Jessie falou, relatando os arrepios de medo provocados pela casa mal-assombrada da escola primria. 
- Ento, Frankie comeu tantos doces que vomitou.
    - Parece que foi um dia daqueles. - A fim de evitar a mesma eventualidade, Boone j escondera metade dos doces que Jessie recolhera em seu saquinho de guloseimas.
    - Achei a minha fantasia a mais bonita de todas.
    Quando saram do carro, em frente  casa de Morgana, Jessie fez um giro de forma que a saia cor-de-rosa e cintilante flutuasse em torno dela. Satisfeito com 
o que via, Boone abaixou-se para ajustar as asas de papel alumnio. Ele levara dois dias para conseguir alinhavar, costurar e pregar a fantasia de fada. Mas valera 
a pena.
    Jessie bateu no ombro do pai com uma varinha feita de papelo.
    - Agora voc  um belo prncipe.
    - E o que eu era antes?
    - Um sapo muito feio. - Jessie comeou a rir, quando Boone beliscou-lhe o nariz. - Acha que Ana vai ficar surpresa? Ser que ela vai me reconhecer?
    - De jeito nenhum. Nem sei se eu mesmo a reconheo.
    Eles tinham decidido dispensar a mscara e Boone pintara as faces dela com um blush, passara-lhe um batom nos lbios e uma sombra dourada nas plpebras.
    - Ns vamos conhecer toda a famlia dela - Jessie lembrou ao pai, como se ele precisasse ser lembrado. Boone ficara a semana inteira nervoso com aquele evento. 
- E eu vou ver a gata e o cachorro de Morgana novamente.
    - Certo. - Boone tentava no se preocupar demais com o cachorro. Pan realmente parecia um lobo, mas fora delicado e amigvel com Jessie, na ltima vez em que 
visitaram Morgana.
    - Esta vai ser a melhor festa de Halloween do mundo!
    Erguendo-se na ponta dos ps, Jessie apertou a campainha. Ficou imediatamente boquiaberta quando sons de gemidos e correntes arrastadas encheram o ar.
    Um homem moreno, com cabelos escasseando e os olhos muito alegres abriu a porta. Bastou dar uma olhada em Jessie e falou, num tom malfico:
    - Bem-vindos ao castelo assombrado. Entrem, se estiverem dispostos a se arriscar.
    Jessie arregalou os olhos azuis.
    -  mesmo assombrado?
    - Entre... se tiver coragem. - Ele abaixou-se at que seus olhos se nivelassem aos dela, depois tirou um coelhinho de pelcia da manga do palet.
    - Ooh! - Encantada, Jessie encostou o bichinho no rosto. - Voc  um mgico?
    - Certamente. Todos so mgicos, no so? 
    - Hu-hum. Eu sou uma fada.
    - J  bom o bastante. E este  o seu acompanhante nesta noite? - ele perguntou, olhando para Boone.
    - No. - A menina riu, divertida. - Este  o meu pai. Na verdade, eu sou Jessie.
    - E, na verdade, eu sou Padrick.
    Padrick endireitou o corpo e, embora seus olhos continuassem alegres, Boone teve certeza de que estavam analisando-o. - E voc ...
    - Sawyer. - Ele ofereceu a mo. - Boone Sawyer. Somos vizinhos de Anastsia.
    - Vizinhos, voc diz? Bem, duvido que seja apenas isso. Mas, entre, vamos entrar. - Padrick trocou a mo de Boone pela de Jessie. - Veja o que temos aqui para 
voc.
    - Fantasmas! - Jessie deu um pulo de excitao. - Olhe, papai, so fantasmas!
    - Nada mal, para um amador - Padrick comentou, num tom bondoso. - Ah, a propsito, Ana acabou de subir, com Nash e Morgana. Ns teremos os gmeos ainda esta 
noite. Maureen, minha flor, venha conhecer os vizinhos de Ana. - Virou-se para Boone quando uma mulher alta e vigorosa, usando um turbante vermelho, apareceu no 
corredor. - Imagino que gostaria de uma bebida, meu rapaz - disse para Boone.
    - Sim, senhor. - Boone inspirou profundamente. - Acho que estou precisando.
    
    Hesitante e incerta, Mel bateu na porta do quarto de Morgana, depois espiou pela fresta. No tinha certeza se iria encontrar a atmosfera clnica, e, em sua mente, 
assustadora, de uma sala de parto, ou o brilho mstico de um crculo mgico. E poderia passar muito bem sem nenhum dos dois.
    Mas, em vez disso, viu Morgana recostada numa cama grande e de aparncia confortvel, cercada de flores e velas acesas. O som da msica de harpa e flautas flutuava 
pelo cmodo. Morgana parecia um tanto afogueada, Nash um tanto plido, mas a normalidade bsica do ambiente deixou-a mais sossegada para atravessar a soleira da 
porta, quando Ana lhe fez um gesto para entrar.
    - Pode entrar, Mel. Voc j deve ser uma especialista nisso, agora. Afinal, ajudou no parto de Psique, poucos meses atrs.
    - Eu me sinto como uma gua - Morgana murmurou, - mas isso no siginifica que aprecie a comparao.
    - No quero interromper, nem atrapalhar ou... Uau! - sussurrou, quando Morgana ergueu a cabea e comeou a bufar como uma locomotiva a vapor.
    - Tudo bem, tudo bem... - Nash segurou-lhe a mo e ficou olhando num cronmetro. - A vem outra. Ns estamos indo bem, tudo bem.
    - Sim, ns - Morgana falou, por entre os dentes cerrados. - Queria ver voc...
    - Respire. - A voz de Ana era gentil, quando posicionou os cristais sobre a barriga de Morgana. Estes oscilaram no ar, emitindo uma luz sobrenatural com a qual 
Mel tentou no se perturbar.
    Afinal, estava casada com um feiticeiro havia dois meses.
    - Est tudo bem, meu amor. - Nash pressionou os lbios na mo da esposa, desejando desesperadamente que a dor passasse. - J est quase acabando.
    - No v embora. - Morgana apertou-lhe a mo com fora, quando a contrao comeou a diminuir. - No v embora.
    - No vou a lugar algum. Voc  maravilhosa. - Seguindo as instrues de Ana, ele refrescou-lhe o rosto com um pano mido. - Amo voc, minha querida.
    -  bom, mesmo. - Morgana conseguiu esboar um sorriso e exalou um suspiro alto e reparador. Sabendo que ainda teria muito o que enfrentar, fechou os olhos. 
- Como estou me saindo, Ana?
    - Muito bem. Mais umas duas horas.
    - Duas... - Nash mordeu o lbio e fixou um sorriso forado no rosto. - Que maravilha.
    Mel limpou a.garganta, e Ana virou-se para ela. 
    - Desculpe. Ficamos um pouco distrados, aqui.
    - Sem problema. S achei que voc gostaria de saber que Boone est aqui, com Jessie.
    - Ah... - Ana enxugou a testa com a manga da blusa. - Eu havia me esquecido. Vou descer num instante. Voc poderia pedir para tia Bryna subir?
    -  claro. Ei, Morgana, estamos todos com voc. O sorriso de Morgana foi breve e cansado.
    - timo. Ser que algum quer trocar de lugar comigo? 
    - No, obrigada, desta vez eu passo. - Mel j se afastava na direo da porta. -  melhor no ficar por aqui, atrapalhando.
    - No vai demorar muito, no ? - Lutando contra o pnico, Nash acariciava a mo da esposa e enviou  Ana um olhar de splica.
    - S uns minutinhos. Tia Bryna ficar aqui, ela  muito habilidosa. Alm disso, vamos precisar de um conhaque.
    - Conhaque? Mas ela no pode beber!
    -  para voc - Ana falou com gentileza, enquanto saa.
    A primeira coisa que Ana reparou, quando entrou na sala, foi que Jessie estava sendo muito bem recebida. A me de Ana ria com gosto, enquanto Jessie lhe contava 
as agruras dos seus coleguinhas na festa de Halloween. E, vendo que a menina j segurava dois bichinhos de pelcia, Ana deduziu que seu pai j lhe mostrara alguns 
de seus truques.
    Mas esperava que tivesse sido discreto.
    - Como esto as coisas l em cima? - Bryna perguntou baixinho, quando encontraram-se na porta.
    - Perfeitas. Voc ser av antes da meia-noite.
    - Abenoada seja, Anastsia. - Bryna beijou-lhe o rosto. - E gostei muito do seu namorado.
    - Ele no ... - Mas Bryna j subia as escadas apressadamente.
    E ali estava Boone, parado junto  lareira, onde o fogo crepitava alegremente, bebendo o que devia ser uma das misturas do seu pai, e ouvindo com uma expresso 
de divertida fascinao a uma das histrias do tio Douglas.
    - Ento, naturalmente, acolhemos a pobre alma por aquela noite. A tempestade estava terrvel. E o que ele fez, seno sair correndo na manh seguinte, gritando 
sobre fantasmas, espritos malignos e coisas assim. Maluco - Douglas falou com tristeza, batendo o dedo na prpria cabea, onde agora havia um chapu de seda cor 
de laranja. - Uma histria muito triste e lamentvel.
    - Talvez tivesse algo a ver com o fato de voc ter andado pela casa usando aquela armadura - Matthew Donovan comentou, aquecendo o conhaque entre as mos.
    - No, no... Uma armadura no tem nada a ver com um esprito maligno. Imagino que tenham sido os guinchos do gato de Maureen que o assustaram.
    - Meus gatos no guincham - ela retrucou, ofendida. - Eles so muito bem-educados.
    - Eu tenho um cachorro - Jessie intrometeu-se. - Mas gosto de gatos, tambm.
    -  mesmo? - Sempre disposto a agradar, Padrick retirou um gatinho de pelcia listrado de trs das asas da fada. - E deste, voc gosta?
    - Ah! - Jessie afundou o rosto na pelcia, depois deixou Padrick deliciado ao subir em seu colo e beijar-lhe a bochecha rosada.
    - Papai... - Ana inclinou-se no sof e pressionou os lbios na cabea quase careca. - Voc no muda nunca.
    - Ana! - Jessie pulou do colo de Padrick e tentou segurar todos os seus brinquedos de uma s vez. - O seu pai  a pssoa mais engraada do mundo!
    - Eu tambm gosto dele. - Ana inclinou a cabea para o lado. - Mas, quem  voc?
    - Eu sou Jessie. - Rindo, a menina fez um giro no meio da sala.
    - No acredito...
    -  verdade! Papai me fez esta fantasia de fada para o Halloween.
    - Bem, voc  parecida com Jessie. - Ana abaixou-se. - D-me um beijo, e ento terei certeza.
    Jessie tocou os lbios pintados no rosto de Ana, ruborizando de prazer pelo sucesso da sua fantasia.
    - Voc no me reconheceu? Mesmo?
    - Voc me enganou completamente. Eu tinha certeza de que era uma fada de verdade.
    - Seu pai me disse que voc  a princesa das fadas porque a sua me  a rainha.
    Maureen deu mais uma risada vigorosa e piscou para o marido.
    - Meu sapinho...
    - Sinto muito no poder ficar aqui e conversar mais com voc - Ana falou para Jessie.
    - Eu sei. Voc est ajudando os bebs de Morgana a nascerem. Eles vo sair da barriga dela um de cada vez?
    - Um de cada vez, espero. - Ela riu, mexendo nos cabelos da menina, e olhou para Boone. - Voc sabe que pode ficar pelo tempo que quiser. H bastante comida.
    - No se preocupe conosco. Como est Morgana?
    - Muito bem. Na verdade, desci para pegar um pouco de conhaque para Nash. Ele est com os nervos  flor da pele.
    Assentindo a cabea com compreenso, Matthew pegou a garrafa de conhaque e uma taa.
    - Ele tem toda a minha solidariedade - disse. Quando entregou-os para Ana, ela sentiu o choque do poder dele e soube que, embora parecesse calmo, sua mente e 
seu corao estavam l em cima, com a filha.
    -No se preocupe, tio Matthew. Estou cuidando bem dela.
    - Morgana no poderia estar em melhores mos. Voc  a melhor que, j conheci, Anastsia. - Os olhos de Matthew fixaram-se nos dela, enquanto passava o dedo 
pela pedra hematita que ela trazia no pescoo. - E j conheci muitas. - Sorriu levemente. - Boone, talvez voc queira acompanhar Anastsia at o quarto.
    - Com todo prazer. - Boone pegou a garrafa de conhaque da mo dela, antes de segui-la para fora da sala. - A sua famlia... - Ele balanou a cabea quando chegaram 
ao p da escada, sem perceber que ela enrijecia.
    - O que tem?
    - Eles so incrveis. Absolutamente incrveis. E no  todo dia que me vejo atirado no centro de um grupo de pessoas desconhecidas, com uma mulher prestes a 
dar a luz  gmeos no andar de cima, um lobo... porque juro que aquilo no  um cachorro... mastigando o que parece ser um osso de mastodonte embaixo da mesa da 
cozinha, e com morcegos mecnicos voando pelo teto. Ah, esqueci de mencionar os fantasmas no vestbulo.
    - Bem,  Halloween.
    - No creio que tenha muito a ver com isso. - Boone parou no alto da escada. - No me lembro de qualquer outra ocasio em que me diverti tanto. Eles so fantsticos, 
Ana. Seu pai faz todos aqueles truques de mgica... uns truques incrveis. E juro que no consigo descobrir como ele os realiza.
    - E nem vai conseguir. Papai  muito... ahn... muito habilidoso.
    - Ele poderia ganhar dinheiro com isso. Sinceramente, Ana, eu no perderia esta festa por nada no mundo. - Boone passou a mo livre em torno do pescoo dela. 
- S est faltando voc.
    - Fiquei preocupada com a idia de que voc pudesse se sentir deslocado.
    - No. Embora isso tenha estragado meus planos de lev-la para um cantinho escuro e faz-la tremer de medo com uma histria de terror, para que voc me agarrasse 
em busca de proteo.
    - No me assusto facilmente. - Sorrindo, ela abraou-o. - Cresci ouvindo histrias de terror.
    - E com seus tios andando pela casa vestidos em armaduras - ele murmurou, roando os lbios nos dela.
    - Ah, isso era o mnimo. - Ana colou-se a ele, mudando o ngulo do beijo. - Ns costumvamos brincar nos calabouos do castelo. E eu passei uma noite inteira 
numa torre assombrada, para enfrentar o desafio de Sebastian.
    - Voc  muito corajosa.
    - No, sou teimosa. E estpida. Nunca me senti to desconfortvel, em toda minha vida. - Ela flutuava ao encontro do beijo, perdendo a noo de si mesma. - Pelo 
menos Morgana evocou um travesseiro e um cobertor.
    - Evocou? - Boone repetiu, achando graa no termo que ela usara.
    - Levou-me - Ana apressou-se em corrigir, e entregou-se ao abrao, para que ele no pensasse em mais nada, exceto nela.
    Quando a porta se abriu atrs deles, ambos viraram-se como se fossem crianas apanhadas em flagrante. Bryna arqueou a sobrancelha, entendeu a situao e sorriu.
    - Desculpe interromper, mas acho que Boone  exatamente quem estamos precisando, no momento.
    Ele segurou a garrafa de conhaque com mais fora. 
    - A dentro?
    Ela riu.
    - No. Fique aqui mesmo e tome conta de Nash por alguns minutos. Ele est precisando conversar com um homem.
    - S um minuto - Ana alertou. - Morgana precisa dele ao seu lado.
    Antes que Boone pudesse concordar ou discordar, ela entrou no quarto. Resignado, ele encheu a taa de conhaque, tomou um bom gole e tornou a encher quando Nash 
saiu pela porta.
    - Tome um gole - disse, empurrando-lhe a taa.
    - No imaginei que fosse demorar tanto tempo. - Depois de respirar fundo, Nash bebeu o conhaque. - Ou que ela fosse sofrer tanto. Se conseguirmos superar tudo 
isso, juro que nunca mais vou toc-la.
    - , certo.
    - Estou falando srio. - Apesar de saber que era um lugar-comum para um pai em expectativa, ficou andando de um lado para outro no corredor.
    - Nash, no tenho inteno de intrometer-me, mas voc no se sentiria melhor, mais seguro, se Morgana estivesse num hospital, com o acompanhamento de um mdico 
e todos os equipamentos necessrios  mo?
    - Num hospital? No. - Nash esfregou as mos no rosto. - Morgana nasceu naquela mesma cama. Ela no teria os gmeos em nenhum outro lugar. E creio que eu tambm 
no iria querer.
    - Bem, um mdico, ento.
    - Ana  a melhor. - Lembrando-se disso, ele relaxou um pouco. - Acredite, Morgana no poderia estar em mos melhores.
    - Sei que as parteiras so excelentes, e que fazem um parto mais natural. - Boone encolheu os ombros. Se Nash estava satisfeito com aquela situao, no seria 
ele quem se preocuparia. - Imagino que ela j tenha feito isso antes.
    - No,  a primeira vez de Morgana.
    - Estava me referindo a Ana - Boone falou, com um risinho.
    - Ah, sim,  claro. Ana sabe muito bem o que est fazendo. No  isso. Na verdade, acho que eu ficaria maluco se Ana no estivesse aqui. Mas... - Nash bebeu 
outro gole, andou um pouco mais. - Isto , est demorando demais. No sei como Morgana est conseguindo suportar. No sei como qualquer mulher consegue agentar 
isso. A mim me parece que ela poderia fazer alguma coisa a respeito. Diabos, ela  uma bruxa!
    Disfarando bravamente mais um risinho, Boone deu uma palmadinha encorajadora nas costas do amigo.
    - Nash, no  o momento de dizer estas coisas. As mulheres realmente ficam zangadas quando esto em trabalho de parto.  um direito delas.
    - No, estou dizendo que... - Nash calou-se, percebendo que comeava a passar dos limites. - Preciso me controlar. 
    - De fato.
    - Sei que tudo vai correr bem. Ana no permitiria que nada acontecesse. Mas  to difcil v-la sofrer.
    - Quando a gente ama,  a coisa mais difcil do mundo. Mas voc vai superar. E, neste caso, estar recebendo algo fantstico.
    - Nunca pensei que pudesse me sentir deste jeito por uma pessoa. Ela  tudo em minha vida. 
    - Sei como se sente.
    Sentindo-se melhor, Nash devolveu o copo para Boone.
    -  como voc se sente com Ana? - perguntou.
    - Talvez seja. Sei que ela  especial.
    - Ah, ela , sim. - Nash hesitou e, quando falou novamente, escolheu as palavras com cuidado. A lealdade, dividida entre os dois amigos, era a mais pesada das 
cargas. - Voc ser capaz de compreend-la, Boone, graas  sua imaginao,  sua maneira de enxergar o que existe alm do que  considerado realidade. Ana  uma 
pessoa muito especial, com qualidades que a tornam diferente de qualquer uma que voc j tenha conhecido. Se voc a ama, e se quiser que ela faa parte da sua vida 
e da de Jessie, no permita que tais qualidades o impeam de ser feliz.
    Boone franziu a testa.
    - No sei se estou entendendo.
    - Apenas lembre-se do que eu disse. E obrigado pela bebida.
     Nash respirou fundo e voltou para o lado da esposa.
    
    
    CAPTULO 9
    
    - Respire. Vamos l, meu amor, respire!
    - Estou respirando - Morgana resmungou as palavras entre duas respiraes ofegantes, e mal conseguiu enviar um olhar fulminante para Nash. - O que diabos voc 
acha que estou fazendo, se no respirando?
    Nash concluiu que j passara do seus prprios limites. Morgana j o xingara com todos os nomes que conhecia, e at alguns que inventara. Ana dissera que estava 
quase no fim, e Nash agarrava-se a isto to desesperadamente quanto Morgana agarrava-lhe a mo. Portanto, limitou-se a sorrir para a doce esposa e umedeceu-lhe a 
testa com o pano molhado.
    - Voc est resmungando, gritando e ameaando. - Ele beijou-a de leve na boca, aliviado ao ver que no recebia uma mordida de volta. - No vai me transformar 
num inseto, nem num bezerro de duas cabeas, no ?
    Ela riu, gemeu, e deixou escapar a ltima baforada de ar.
    - Posso pensar em coisas bem mais criativas do que isso. Preciso ficar mais sentada. Ana?
    - Nash, fique por trs dela. Segure-lhe as costas. Vai ser rpido, agora. - Arqueando as prprias costas, sentindo os ecos das dores de Morgana, Ana verificou 
uma ltima vez para certificar-se de que tudo estava pronto.
    Havia cobertores aquecidos pelo fogo, gua fervida, os instrumentos cirrgicos e tesouras j esterilizados, o brilho dos cristais pulsando de poder.
    Bryna permanecia ao lado da filha, os olhos iluminados pela compreenso e preocupao. Imagens das suas prprias horas de parto, naquela mesma cama, surgiram 
rapidamente em sua memria. Aquela mesma cama, pensou enquanto piscava as lgrimas em seus olhos, onde a sua filha agora lutava atravs dos ltimos momentos, das 
ltimas dores.
    - No empurre enquanto eu no mandar. Assopre, assopre - Ana repetia enquanto sentia a contrao crescer dentro de si mesma, uma dor terrvel e doce que provocou 
uma camada de suor em sua pele. Morgana enrijeceu, lutou contra a necessidade de tensionar-se, e lutou para fazer o que Ana lhe instrua. - timo, timo. Est quase 
no fim, querida, prometo. Vocs j escolheram os nomes?
    - Eu gosto de Curlie e Moe - Nash falou, acompanhando a respirao da esposa at que ela conseguisse lhe dar um cutuco com o cotovelo. - Tudo bem, ento Ozzie 
e Harriet, mas apenas se tivermos um de cada.
    - No me faa rir agora, seu idiota. - Mas ela riu, e a dor aliviou-se um pouco. - Quero empurrar. Preciso empurrar.
    - Se forem duas meninas - Nash continuou, num tom que beirava o desespero, - quero que sejam Lucy e Ethel. - Pressionou o rosto no dela.
    - So dois meninos, e sero Boris e Bela. - O riso de Morgana adquiriu um tom levemente histrico, enquanto ela estendia os braos para agarrar-se ao pescoo 
de Nash. - Meu Deus, Ana, eu preciso...
    - Agentar um pouco mais - Ana completou a frase. - Agora, Morgana, v em frente. Empurre.
    Apanhada entre o riso e as lgrimas, Morgana lutou para trazer a vida quele quarto.
    - Ah, Deus! - L fora, um relmpago cortou o cu sem nuvens e um trovo ressoou em seu encalo celestial.
    - Est indo bem, amor - Nash comeou, mas de repente no conseguia pensar em mais nada. - Olhe! Ah, meu Deus, olhe s para isso!
    Aos ps da cama, Ana virava a cabea do beb, com delicadeza e competncia.
    - Agente firme agora, querida. Sei que  difcil, mas agente s mais um minuto. Assopre. Isso, assim mesmo. A prxima vez ser mais fcil.
    - Tem cabelos! - Nash exclamou, num fio de voz. Seu rosto estava molhado de suor e lgrimas, como o de Morgana. - Olhe s para isso... O que ?
    - Ainda no cheguei nesta parte. - Ana enviou um sorriso radiante para a prima. - Muito bem, chegou a hora do grande prmio. Agente mais um pouco, querida, 
e veremos quem est aqui, se  Ozzie ou Harriet.
    Rindo, Morgana deu  luz ao beb, enquanto Ana o acolhia em suas mos. Quando o primeiro grito agudo e indignado ecoou no quarto, Nash mergulhou o rosto nos 
cabelos da esposa.
    - Morgana. Bom Deus, Morgana... O nosso beb.
    - Nosso. - J esquecida da dor, com os olhos iluminados, Morgana estendeu as mos para que Ana depositasse ali o pequeno volume que remexia-se. No idioma do 
seu sangue, murmurou  criana, enquanto as mos acariciavam-na dando-lhe boas-vindas.
    - O que ? - Com a mo trmula, Nash tocou a cabea minscula. - Esqueci de olhar.
    - Vocs tm um filho - Ana anunciou.
    
    Ao som do primeiro choro, a conversa na sala foi interrompida subitamente. Todos os olhares voltaram-se para a escada. Havia silncio, imobilidade. Emocionado, 
Boone olhou para sua prpria filha, que dormia pacificamente no sof, com a cabea recostada no colo confortvel de Padrick.
    De repente, ele sentiu um tremor sob seus ps, viu o vinho balanar em seu copo. Antes que pudesse falar, Douglas estava removendo seu chapu e dando uma sonora 
palmada nas costas de Matthew.
    - Um novo Donovan - ele disse, e pegou um copo para um brinde. - Um novo legado.
    Com os olhos marejados de lgrimas, Camilla aproximou-se para beijar o rosto do cunhado.
    - Abenoado seja.
    Boone estava prestes a oferecer suas congratulaes quando Sebastian atravessou a sala. Acendeu uma vela branca, depois uma dourada. Pegando uma nova garrafa 
de vinho, abriu o lacre e serviu o lquido dourado plido num clice de prata trabalhada.
    - Uma estrela amanhece na noite. Vida por vida, sangue atravs do sangue para gerar a sua luz. Atravs do amor a ele foi dado a ddiva do nascimento, e desde 
o primeiro at o ltimo sopro, ele caminhar pela terra. A outra ddiva vem atravs do sangue e da carne, e a ele caber aceit-la e possu-la. Encantos da lua, 
poderes do sol. Sem jamais esquecer que nenhum mal ser feito.
    Sebastian passou o clice para Matthew, que foi o primeiro a beber. Fascinado, Boone viu os Donovan passarem o clice de vinho um para o outro. Seria uma tradio 
irlandesa?, perguntou-se. Certamente era mais emocionante e belo do que distribuir charutos.
    Quando o clice foi passado a ele, sentiu-se honrado e lisonjeado. E no instante em que comeou a beber, um outro som de choro fez-se ouvir, anunciando a chegada 
de mais uma vida.
    - Duas estrelas - Matthew falou, num tom enrouquecido pelo orgulho. - Duas ddivas.
    Ento a atmosfera solene foi rompida, quando Padrick evocou uma chuva de confetes e serpentinas. Enquanto ele dava um assovio comemorativo, sua esposa explodia 
num riso de alegria.
    - Viva! - ela disse indicando o relgio, que acabara de dar a meia-noite. - Este  o melhor Halloween que tivemos, desde que Padrick fez aqueles porcos voarem. 
- Ela sorriu para Boone. - Ele  um moleque incorrigvel.
    - Porcos? - Boone comeou, mas o grupo reuniu-se no instante em que Bryna entrou na sala.
    Ela foi direto para o marido, que abraou-a com fora.
    - Eles esto bem. - Bryna enxugou as lgrimas de felicidade. - Esto todos bem, e lindos. Temos um neto e uma neta, meu amor. E nossa filha convida a todos para 
subirem a fim de lhes dar as boas-vindas.
    Sem querer intrometer-se, Boone ficou para trs quando o grupo amontoou-se para sair da sala. Sebastian parou na soleira e arqueou a sobrancelha na direo dele.
    - Voc no vem?
    - Acho que a famlia...
    - Voc foi aceito - Sebastian falou num tom breve, sem estar muito certo de que concordava com o restante dos Donovan. Ele no esquecera o quanto Ana fora magoada, 
uma vez.
    -  uma maneira estranha de colocar as coisas. - Boone manteve um tom calmo a fim de contrabalanar com a sbita irritao que o invadiu. - Principalmente levando-se 
em conta que no  assim que voc se sente.
    - No importa. - Sebastian inclinou a cabea, num gesto que Boone interpretou como desafio e aviso. Porm, quando olhou na direo do sof, a expresso de Sebastian 
suavizou-se. - Imagino que Jessie ficaria desapontada, se voc no a acordasse e a levasse para ver os bebs.
    - Mas voc preferia que eu no o fizesse.
    - Ana prefere que voc o faa - Sebastian retrucou. - E  isso que importa. - Encaminhou-se novamente para a porta, e parou. - Voc ir mago-la. Anastsia no 
derrama lgrimas, mas ir derram-las por voc. E porque eu a amo, terei de perdo-lo por isto.
    - Eu no vejo...
    - No - Sebastian interrompeu. - Mas eu vejo. Traga a menina, Sawyer, e junte-se a ns. Esta  uma noite de bondade e pequenos milagres.
    Sem saber exatamente por que as palavras de Sebastian o deixavam to irritado, Boone ficou olhando para a soleira vazia. No precisava provar nada para aquele 
primo super-protetor e insolente. Quando Jessie remexeu-se no sof e piscou os olhinhos sonolentos, ele tirou Sebastian da mente.
    - Papai?
    - Estou aqui, meu sapinho. - Boone inclinou-se e pegou a menina no colo. - Adivinhe uma coisa.
    Jessie esfregou os olhos.
    - Estou com sono.
    - Ns j vamos para casa, mas acho que primeiro h algo que voc gostaria de ver. - Enquanto ela bocejava e recostava a cabea em seu ombro, ele carregou-a escada 
acima.
    Os parentes de Ana estavam todos reunidos em volta da cama, fazendo muito mais barulho do que Boone imaginava que fosse o normal, mesmo tratando-se de um parto 
em casa. Nash estava sentado na beirada da cama, ao lado de Morgana, segurando um beb no colo e sorrindo feito um bobo.
    - Ele parece comigo, no acham? - Perguntava, a ningum em particular. - O nariz. Tem o meu nariz.
    - Esta  Allysia - Morgana informou, roando o rosto na cabea do beb. - Donovan est comigo.
    - Certo. Bem, ento ela tem o meu nariz. - Nash espiou para o filho. - Ele tem o meu queixo.
    - Ele tem o queixo dos Donovan - Douglas corrigiu. - Firme como uma lana.
    - Hah! - Maureen exclamou, num tom de desprezo. - Os dois herdaram tudo dos Corrigan, de cima a baixo. O nosso lado da famlia sempre teve os gens mais fortes.
    Enquanto todos davam palpites na discusso, Jessie emergiu do sono e esticou a cabea.
    - Estes so os bebs? Eles nasceram? Posso ver?
    - Deixem a criana passar - Padrick cutucou o irmo, abrindo passagem. - Ela quer olhar.
    Jessie manteve o brao em torno do pescoo do pai, enquanto inclinava-se para a frente.
    - Ah! - Os olhinhos cansados iluminaram-se quando Ana pegou um beb em cada brao e ergueu-os para que Jessie os visse. - Eles parecem duas fadas pequeninas. 
- Com muita delicadeza ela passou o dedinho no rosto de um, e depois no do outro.
    - E  exatamente isso que eles so. - Padrick beijou o nariz de Jessie. - Um prncipe das fadas e uma princesa das fadas.
    - Mas eles no tm asas - Jessie falou, rindo.
    - Algumas fadas no precisam de asas. - Padrick piscou para a filha. - Porque elas tm asas em seus coraes.
    - E estas fadinhas aqui precisam de descanso e silncio, agora. - Ana virou-se e pousou os bebs nos braos de Morgana. - E a mame deles tambm.
    - Eu me sinto tima.
    - Assim mesmo... - O olhar de aviso que Ana enviou por cima do ombro fez com que os Donovan comeassem a sair do quarto, embora relutantes.
    - Boone - Morgana chamou. - Voc pode esperar um pouco e levar Ana para casa? Ela est exausta.
    - Estou perfeitamente bem. Ele precisa...
    -  claro que sim - Boone interrompeu. Ajeitou Jessie no ombro, enquanto ela bocejava. - Fique  vontade, estarei esperando l em baixo.
    Ana precisou de mais quinze minutos, antes de certificar-se de que Nash entendera todas as suas instrues. Morgana j comeava a adormecer, quando ela fechou 
a porta e deixou a nova famlia a ss.
    Realmente estava exausta, e os poderes dos seus cristais estavam quase exauridos. Por quase doze horas havia enfrentado as dores do parto com sua prima, to 
proximamente conectada quanto lhe fora possvel. Seu corpo estava pesado de cansao, sua mente embotada de fadiga. Era o resultado normal de uma forte conexo emptica.
    Vacilou um pouco quando comeou a descer as escadas, mas endireitou-se e segurou o amuleto de hematita, a fim de captar o que restava de suas foras.
    Quando chegou na sala, j se sentia um pouco mais firme. E l estava Boone, meio cochilando numa poltrona junto ao fogo, com Jessie enroscada em seu colo. Ele 
abriu os olhos. E sorriu.
    - Ol, campe. Tenho de admitir que todo este cenrio foi um pouco maluco, mas voc fez um trabalho e tanto l em cima.
    -  sempre uma maravilha ajudar trazer a vida ao mundo. Mas voc no precisava ficar aqui todo este tempo.
    - Eu quis ficar. - Ele beijou a cabea de Jessie. - E ela tambm. Ser o sucesso da classe, segunda-feira, quando contar esta histria.
    - Foi uma longa noite para ela, e ser inesquecvel. - Ana esfregou os olhos, quase como Jessie fizera antes de tornar a dormir. - Onde esto todos?
    - Na cozinha, atacando a geladeira e bebendo. Eu decidi parar, pois j bebi mais vinho do que devia. - Boone ofereceu-lhe um sorriso maroto. - Momentos atrs, 
eu podia jurar que senti a casa estremecer, portanto achei melhor comear a tomar caf. - Fez um gesto indicando a xcara na mesa ao lado.
    - E agora voc vai ficar acordado o resto da noite. Vou despedir-me deles rapidamente e, se voc quiser, pode ir levando Jessie para o carro.
    L fora, Boone inspirou profundamente o ar frio da noite. Ana tinha razo, ele estava completamente desperto. Teria de ficar trabalhando por, pelo menos, duas 
horas, at que o efeito do caf passasse, e era bem provvel que pagaria o preo da extravagncia, no dia seguinte. Mas valera a pena. Olhou por cima do ombro, para 
a janela iluminada do quarto de Morgana. Valera a pena cada minuto.
    Tirou as asas das costas de Jessie e deitou-a no banco traseiro.
    - Que noite linda - Ana murmurou, aproximando-se. - Acho que todas as estrelas esto aparecendo.
    - Duas novas estrelas. - Intrigado, Boone abriu a porta para ela. - Foi o que Matthew disse. Foi realmente bonito e emocionante. Sebastian fez um brinde, falando 
sobre a vida, ddivas e estrelas, e todos beberam de um clice de vinho.  alguma tradio irlandesa?
    - De certa forma. - Ana recostou a cabea no assento, assim que Boone ligou o carro. Segundos depois, estava dormindo.
    Quando Boone parou em frente  sua casa, perguntou-se como iria conseguir levar as duas para a cama. Saiu, abrindo a porta do carro com cuidado, mas Ana j estava 
acordando.
    - Espere at que eu a leve para dentro, e depois posso acompanh-la.
    - No, eu estou bem. - Sonolenta, Ana saiu do carro. - Vou ajud-lo com ela. - Riu, ao juntar o estoque de bichinhos de pelcia. - Papai sempre exagera. Espero 
que voc no se importe.
    - Est brincando? Ele foi timo com Jessie. Vamos, querida. - Boone pegou-a no colo e, daquele jeito das crianas, ela permaneceu totalmente relaxada. - Ela 
adorou a sua me, tambm, e todos os outros. Mas seu pai, sem dvida, foi o heri da noite. Imagino que ela v comear a me atormentar, agora, para irmos para a 
Irlanda visit-lo em seu castelo.
    - Ele adoraria. - Ana pegou as asas prateadas e seguiu-os para dentro da casa.
    - Pode deixar tudo por a mesmo. Quer tomar um conhaque?
    - No, obrigada. - Ela deixou os bichinhos no sof, as asas do outro lado, depois mexeu os ombros doloridos. - Mas gostaria de um ch. Posso preparar, enquanto 
voc leva Jessie para a cama.
    - timo. No vou demorar.
    Um rosnado emergiu de baixo da cama de Jessie, quando Boone a deitou.
    - Que belo co de guarda. Somos ns, sua boboca.
    Bastante aliviada, Daisy deslizou para fora, balanando a cauda. Esperou que Boone tirasse os sapatos e a fantasia de Jessie, depois saltou para cima da cama.
    - Se voc for me acordar s seis da manh, juro que grampeio esta sua boca de cachorrinho.
    Daisy baixou o rabo e fechou os olhos.
    - No sei porque no escolhemos um cachorro mais esperto, j que tnhamos de comprar um - Boone estava dizendo, quando entrou na cozinha. - Teria sido bem... 
- Calou-se, de repente.
    A chaleira estava apitando no fogo. As xcaras tinham sido colocadas na mesa, e o bule estava  espera. E Ana estava sentada, com a cabea apoiada nos braos 
sobre a mesa, dormindo profundamente.
    Sob a luz forte, os clios de Ana lanavam sombras em suas faces. Boone esperava que fosse a frieza da luz que a deixava parecer assim to plida e delicada. 
Os cabelos espalhavam-se pelos ombros. Os lbios eram macios, levemente entreabertos.
    Olhando para ela, Boone pensou na jovem princesa que ficara adormecida sob o encantamento de uma fada invejosa, e que dormira cem anos at ser despertada por 
um beijo de amor.
    - Anastsia. Voc  to linda. - Boone tocou-lhe os cabelos, cedendo ao impulso. Nunca a vira dormindo e sentiu uma urgncia sbita de peg-la no colo e lev-la 
para sua cama, de poder abrir os olhos na manh seguinte e v-la acordar ao seu lado. - O que vou fazer?
    Suspirando, afastou-se dela e foi desligar o fogo no fogo. Com a mesma delicadeza que usara com Jessie, pegou-a no colo e, como Jessie, ela permaneceu inerte 
e relaxada.
    Cerrando os dentes diante dos ns que contraam seu estmago, Boone levou-a para cima e deitou-a em sua cama.
    - Voc nem sabe o quanto desejei t-la aqui comigo - disse, num sussurro, enquanto tirava-lhe os sapatos. - Na minha cama... A noite inteira. - Cobriu-a, e Ana 
suspirou, mexendo-se no sono e aconchegando-se nos travesseiros dele.
    Os ns em seu estmago soltaram-se, quando Boone abaixou-se para beij-la levemente nos lbios.
    - Boa noite, princesa.
    
    De calcinha e camiseta, Jessie entrou no quarto antes do amanhecer. Tivera um sonho, um pesadelo sobre a casa mal-assombrada da escola, e queria o conforto e 
o calor do seu pai.
    Ele sempre fazia os monstros irem embora.
    Ela arrastou-se para a cama e subiu, encolhendo-se junto a ele. E s ento percebeu que no era ele quem estava ali, mas sim Ana.
    Fascinada, Jessie enroscou-se. Dedinhos curiosos brincaram com os cabelos de Ana. Em seu sono, Ana murmurou e aconchegou Jessie em seu brao, abraando-a com 
carinho. Estranhas sensaes invadiram a menina. Cheiros diferentes, texturas diferentes e, ainda assim, ela sentiu-se amada e segura, do mesmo jeito que sentia 
quando estava com seu pai. Recostou a cabea no peito de Ana e, confiando, adormeceu.
    
    Quando acordou, Ana sentiu os braos em torno de si, braos pequenos e relaxados. Desorientada, olhou para Jessie e, depois, em volta do quarto.
    No era o seu quarto, concluiu. Nem o de Jessie. Era o quarto de Boone.
    Manteve a criana aconchegada, enquanto tentava relembrar o que acontecera.
    A ltima coisa de que se recordava era de ter se sentado depois de pr a gua para ferver. Cansada, estivera to cansada. Havia descansado a cabea por um instante 
e... e, obviamente, adormecera.
    Ento, onde estava Boone?
    Virou a cabea com todo cuidado, sem saber se estava aliviada ou desapontada ao ver que o outro lado da cama estava vazio. No teria sido muito sensato, dadas 
as circunstncias, mas seria to maravilhoso se pudesse aconchegar-se a ele da mesma forma que Jessie aconchegara-se a ela.
    Quando voltou-se, viu que os olhos da menina estavam abertos, fitando-a.
    - Eu tive um pesadelo - a menina contou, num murmrio matinal apressado. - Com o Cavaleiro sem Cabea. Ele estava rindo, rindo, e correndo atrs de mim.
    Ana inclinou-se para beijar a cabea da menina.
    - Aposto que ele no a alcanou.
    - No. Eu acordei e vim chamar o papai. Ele sempre manda os monstros embora. Os que esto no armrio, debaixo da cama, na janela, e em todos os lugares.
    - Os pais so bons para fazer isso. - Ana sorriu, lembrando-se de como seu pai fingia ca-los com uma vassoura, todas as noites, durante seu sexto ano de idade.
    - Mas voc estava aqui, e no fiquei com medo com voc. Voc vai dormir sempre na cama do papai, agora?
    - No. - Ana passou a mo pelos cabelos da menina. - Acho que ns duas pegamos no sono, e seu pai teve de nos trazer para a cama.
    - Mas  uma cama grande - Jessie salientou. - Tem bastante espao. Agora eu tenho Daisy para dormir comigo, mas papai dorme sozinho todas as noites. O Quigley 
dorme com voc?
    - s vezes - Ana respondeu, aliviada com a rpida mudana de assunto. - Ele deve estar pensando onde ser que eu estou.
    - Acho que ele sabe - Boone anunciou, na porta. Estava apenas de jeans, com o boto aberto na cintura, tinha os olhos inchados de sono e os cabelos despenteados. 
O gato enroscava-se em suas pernas. - Ele ficou miando e arranhando a porta dos fundos, at que deixei-o entrar.
    - Ah... - Ana afastou os cabelos do rosto, enquanto se sentava. - Desculpe-me. Parece que ele o acordou.
    - Acertou em cheio.
    Boone enfiou os dedos nos bolsos, enquanto o gato pulava na cama e comeou a miar e queixar-se  sua dona. Os ns em seu estmago tinham voltado, duplicados. 
Como poderia explicar o que sentia, vendo Ana ali em sua cama, abraada com sua filha?
    - Jessie, o que est fazendo aqui?
    - Tive um sonho ruim. - Ela recostou a cabea no brao de Ana e ficou afagando o plo do gato. - Eu vim para sua cama, mas Ana estava aqui. Ela mandou os monstros 
embora, como voc faz. - Quigley miou num lamento, e ela riu. - Ele est com fome. Pobre gatinho... Posso descer e dar comida para ele?
    -  claro, se voc quiser.
    Antes que Ana terminasse a frase, Jessie j pulava para fora da cama, chamando para que o gato a seguisse.
    - Desculpe se Jessie a acordou. - Boone hesitou, mas foi sentar-se na beirada da cama.
    - Ela no me acordou. Ao que parece, subiu na cama e caiu direto no sono. E sou eu quem tem de se desculpar por lhe causar todo este transtorno. Voc devia ter-me 
acordado e me mandado para casa.
    - Voc estava exausta. - Ele estendeu a mo e, do mesmo jeito que Jessie fizera, tocou-lhe os cabelos. - Incrivelmente linda e totalmente exausta.
    - Ajudar bebs nascerem  um trabalho cansativo. - Ela sorriu. - Onde voc dormiu?
    - No quarto de hspedes. - Boone massageou o pescoo e fez uma careta de dor. - O que torna a compra de uma cama decente minha principal prioridade.
    Automaticamente, Ana pressionou as mos em sua nuca e comeou a massagear.
    - Voc poderia ter-me deitado neste quarto. Acho que eu no saberia distinguir entre uma cama e uma tbua de madeira.
    - Eu queria v-la em minha cama. - Boone fitou-a profundamente. - Queria muito que voc estivesse na minha cama. - Puxou-lhe o cabelo levemente, fazendo-a aproximar-se. 
- E ainda quero.
    Os lbios dele estavam sobre os seus, agora, no muito pacientes, nem muito delicados. Ana sentiu um rpido arrepio de excitao e alarme, quando ele a fez deitar 
nos travesseiros.
    - Boone...
    - S por um minuto - ele pediu, num tom que era quase de desespero. - Preciso de um minuto com voc.
    Tomou-lhe o seio entre as mos, acariciando-o sobre o tecido fino da blusa amassada. Enquanto deslizava as mos em todo seu corpo, os lbios beijavam-na sem 
parar, abafando seus gemidos. Seu corpo ardia de desejo, querendo pressionar-se sobre o dela, querendo possu-la em silncio, e at com violncia.
    - Ana... - Ele beijou-a no pescoo, antes de abra-la com fora, mantendo-a junto a si. Depois, afastou-se. - Quanto tempo demora para se dar comida para um 
gato?
    - No o suficiente. - Com um riso trmulo, ela pousou a mo no ombro dele. - No o bastante.
    - Era o que eu temia. - Boone sentou na cama e segurou-a pelos braos, ajudando-a a levantar. - Jessie tem me atormentado para deix-la dormir uma noite na casa 
de Lydia. Se eu conseguir organizar tudo, voc viria ficar aqui comigo?
    - Sim. - Ana levou a mo dele aos lbios e beijou-a. - Quando voc quiser.
    - Esta noite. - Ele obrigou-se a solt-la, a se afastar. - Esta noite - repetiu. - Vou ligar para a me de Lydia. Implorar, se for preciso. - Endireitou-se, 
um pouco mais calmo. - Prometi a Jessie que a levaria para tomar sorvete, e talvez almoar na cidade. Voc gostaria de vir conosco? Se tudo der certo, podemos deix-la 
na casa de Lydia e depois ir jantar.
    Ana deslizou para fora da cama, alisando inutilmente a blusa e a cala comprida.
    - Parece timo.
    - Ento estamos combinados. Sinto muito por suas roupas. Mas no fui corajoso o bastante para despi-la.
    Ana sentiu um frio na espinha ao pensar nele tirando-lhe a blusa. Devagar, bem devagar, os dedos pacientes, os olhos ardentes. Limpou a garganta.
    - No faz mal. Preciso mudar de roupa e ir at a casa de Morgana, para ver como esto ela e os gmeos. 
    - Posso lev-la.
    - No  necessrio. Combinei com papai que ele vir me buscar, e assim posso pegar o meu carro que ficou l. A que horas voc quer sair?
    - Por volta de meio-dia, daqui h duas horas.
    - Perfeito. Encontro vocs aqui.
    Boone segurou-a antes que ela chegasse na porta, e beijou-a outra vez, um beijo longo e vido.
    - Talvez possamos comprar alguma coisa e vir comer aqui mesmo.
    - Isso tambm me parece timo - ela murmurou, retribuindo o beijo. - Ou ento, podemos pedir uma pizza pelo telefone, quando ficarmos com fome.
    - Melhor. Muito melhor.
    
    s quatro da tarde, Jessie estava na porta da casa de Lydia, acenando uma alegre despedida. A mochila cor-de-rosa estava cheia com uma variedade impressionante 
de itens que uma garotinha de seis anos precisa para uma noite fora de casa. E o que tornava tudo perfeito, aos olhos dela, era o fato de que Daisy fora includa 
no convite para a "festa de pijama".
    - Diga-me para eu no me sentir culpado - Boone pediu, lanando um ltimo olhar pelo espelho retrovisor.
    - Com o qu?
    - Por querer minha filha fora de casa esta noite.
    - Boone... - Adorando-o, Ana inclinou-se e beijou-lhe a face. - Voc sabe perfeitamente que Jessie mal podia esperar que a deixssemos na casa de Lydia, para 
que pudesse dar incio  sua pequena aventura.
    - Sim, mas... No  o fato de deix-la dormir na casa da amiga que me incomoda, mas sim por ter feito isso com segundas intenes.
    Sabendo que intenes eram estas, Ana sentiu um ligeiro n no estmago.
    - Jessie no vai se divertir menos por isso, especialmente depois que voc lhe prometeu que poderia fazer a "festa de pijama" em sua casa, daqui alguns dias. 
Se ainda estiver sentindo-se culpado, imagine como ser agentar o barulho e a baguna de cinco ou seis garotinhas a noite inteira.
    Ele lanou-lhe um rpido olhar.
    - Bem, eu imaginei que voc poderia me ajudar com as crianas... desde que tambm tem as segundas intenes.
    -  mesmo? - Ana sentiu-se feliz por ele t-la includo em seus planos. - Talvez eu v. - Pousou a mo sobre a dele. - Para um pai paranico, voc est fazendo 
um excelente trabalho.
    - Continue. J estou me sentindo melhor.
    - Elogios demais acabam estragando.
    - Se  assim, ento no vou lhe dizer quantos sujeitos tiveram um torcicolo quando viravam-se para olh-la, enquanto passevamos no cais esta tarde.
    - Ah? - Ela puxou os cabelos para trs. - Foram tantos assim?
    - Depende de como voc define "tantos". Alm disso, elogios demais estragam. Mas acho que poderia dizer que no sei como voc consegue ficar to linda, depois 
da noite cansativa de ontem.
    -  porque dormi como uma pedra. - Ana espreguiou-se, e o bracelete de cristais que usava reluziu em seu pulso. - Mas a recuperao de Morgana  impressionante. 
Quando cheguei l hoje cedo, ela estava amamentando os dois bebs e parecendo que acabara de voltar de uma semana num spa.
    - Os bebs esto bem?
    - Esto timos. Saudveis e radiantes. Nash j est aprendendo a trocar as fraldas. E jura que os dois sorriram para ele.
    Boone j havia passado por isso, e deu-se conta do quanto sentia falta.
    - Ele  um bom sujeito.
    - Nash  muito especial.
    - Tenho de admitir que fiquei espantado ao saber que ele havia se casado. Nash sempre foi do tipo "cada um por si".
    - O amor  capaz de mudar tudo - Ana murmurou e, com cuidado, ocultou a esperana em sua voz. - Tia Bryna diz que  a forma mais pura de magia.
    - Uma boa descrio. Uma vez que se  tocado pelo amor, comea-se a pensar que nada  impossvel. Voc j amou algum?
    - Uma vez. - Ana desviou os olhos, observando a vegetao que cobria os bancos de areia. - Muito tempo atrs. Mas acabei percebendo que a magia no era forte 
o bastante. Depois, descobri que minha vida no acabara por causa disso e que eu poderia muito bem ser feliz sozinha. Assim, comprei minha casa perto do mar - ela 
disse, sorrindo. - Plantei meu jardim e comecei tudo de novo.
    - Creio que comigo foi mais ou menos a mesma coisa. - Boone ficou pensativo por um instante. - Ser feliz sozinha significa que voc no acha que poderia ser 
feliz com algum?
    A incerteza e a esperana corriam juntas, dentro dela.
    - Acho que significa que posso ser feliz como estou agora, at encontrar algum que no apenas me traga a magia, mas que tambm a compreenda.
    Boone virou o carro para a entrada da garagem e desligou o motor.
    - Ns temos algo juntos, Ana. 
    - Eu sei.
    - Nunca pensei que sentiria algo assim to forte novamente. E diferente do que tive antes, e no tenho certeza do que isso significa. E no sei se quero saber.
    - Isso no tem importncia. - Ana tomou-lhe a mo. - As vezes temos de aceitar que o momento presente  o que basta.
    - No, no basta. - Ele encarou-a com os olhos ardentes, profundos. - No com voc, Ana. 
    Ela respirou fundo, devagar.
    - No sou o que voc pensa que sou, ou o que voc gostaria que eu fosse. Boone...
    - Voc  exatamente o que eu quero. - As mos dele abraaram-na com fora.
    O leve protesto de Ana foi abafado quando ele a beijou, vido e apressado.
    
    
    CAPTULO 10
    
    Um lampejo de atnita excitao perpassou o corpo de Ana no instante em que Boone soltou-lhe o cinto de segurana e puxou-a para seu colo. As mos dele machucavam, 
os lbios exigiam. No era o Boone que a amara com tanta delicadeza, levando-a at aquele doce prazer com mos pacientes e promessas sussurradas. O seu amante das 
manhs silenciosas e tardes preguiosas tornara-se sombrio, um tanto perigoso, e de um jeito que ela era incapaz de resistir.
    Ana podia sentir o sangue borbulhando sob a pele quando ele a tocava com as mos rudes, impacientes. Era a impetuosidade que ela havia provado naquela primeira 
vez, no jardim iluminado pela lua, com o perfume das flores maduras e excitantes. Uma exploso de desejos urgentes era o que ele apenas sugeria, sob toda aquela 
pacincia e controle.
    Numa aquiescncia inconsciente, ela colou-se a ele, desejando, ansiosa e pronta para trilhar qualquer caminho que ele escolhesse.
    Seu corpo estremeceu uma vez, violentamente, quando Boone levou-a para o limite extremo. Ele ouviu seu grito abafado contra os lbios vidos, sentiu a intensidade 
do prazer quando ela mergulhou os dedos desesperadamente em seus ombros. O louco pensamento que cruzou sua mente foi que poderia possu-la ali mesmo, no carro, antes 
que a razo os fizesse parar.
    Boone rasgou-lhe a blusa, ansiando pelo sabor de sua pele. O som do tecido rasgando-se foi ignorado, quando ela ofegou ao senti-lo beijar-lhe o pescoo macio. 
Sob os lbios famintos, o pulso batia errtico, ertico. O gosto dela era quente, adocicado pelo prazer.
    Com um gemido violento, Boone abriu a porta e puxou-a para fora. Sem importar-se em fech-la, meio que carregou, meio que empurrou Ana atravs do gramado.
    - Boone... - Ana tentou ficar de p e perdeu um dos sapatos. - Boone, o carro. Voc deixou as chaves...
    Ele segurou-a pelos cabelos, empurrando-lhe a cabea para trs. Os olhos dele, ah, aqueles olhos, Ana pensou, tremendo com algo mais profundo do que o medo. 
O ardor que via neles penetrou-lhe at a alma.
    - Para o inferno com o carro. - Boone beijou-a, at que ela se sentisse zonza, aturdida e lutando para respirar. - Voc sabe o que faz comigo? - Ele falou, numa 
pausa para respirar. - Todas as vezes em que a vejo... - Levou-a para o terrao, tocando-a, sem parar de toc-la. - To linda, suave e serena, com algo ardendo no 
fundo deste olhar.
    Empurrou-a contra a porta, pressionando-a, beijando-lhe os lbios cheios e lascivos. Havia algo mais nos olhos dela, agora. Boone podia ver que ela estava com 
medo, e que estava excitada. Era como se os dois tivessem conscincia de que o animal que ele mantivera cruelmente acorrentado dentro de si durante semanas, se libertara 
de repente.
    Com a respirao ofegante escapando dos lbios, ele segurou-lhe o rosto entre as mos.
    - Diga-me, Ana, diga que voc me deseja. Agora. Do meu jeito.
    Ela temia no ser capaz de falar, pois sentia a garganta seca e aquela necessidade to imensa.
    - Eu quero voc. - O tom rouco da sua voz fez com que as chamas de desejo crescessem ainda mais dentro dele. - Agora, de qualquer jeito.
    Ele prendeu os dedos na blusa dela e viu seus olhos nublarem-se quando rasgou-a ao meio. Quando abriu a porta com um chute, ela oscilou para trs, mas logo foi 
apanhada num abrao trrido. Como sua blusa, o controle de Ana estava em frangalhos. As mos dele seguraram-na pela cintura, depois ergueram-na para que ele pudesse 
tomar seus seios cheios com a boca. To enlouquecida quanto ele, agora, ela arqueou o corpo para trs, as mos agarrando-lhe os cabelos.
    - Boone... Por favor. - A splica escapou de seus lbios, embora ela no fizesse idia do que estava pedindo. A no ser que fosse por mais.
    Ele a abaixou, apenas para poder capturar-lhe os lbios outra vez. Os dentes raspavam eroticamente em seus lbios inchados, a lngua mergulhava fundo. Ento, 
ele sentiu que poderia explodir, no instante em que Ana comeou a puxar-lhe as roupas freneticamente.
    Boone foi arrastando-se na direo da escada, puxando a camisa enquanto o fazia. Os botes pularam e espalharam-se no cho. Mas as mos vidas procuraram por 
ela novamente, arrancando a fina combinao que ela usava, enquanto chegavam ao p da escada.
    - Aqui. - Boone a puxou para o cho, junto com ele. - Aqui mesmo.
    Por fim saciou-se, percorrendo a boca por toda a pele dela, explorando impiedosamente seus segredos, levando-a sem nenhuma pausa para onde desejava, com tanto 
desespero, que ela chegasse. No havia nenhuma pacincia, ali, nenhum rgido controle por conta de sua fragilidade. Ainda assim, a mulher que ofegava sob ele era 
tudo, exceto frgil. Havia fora nas mos que agarravam-no, havia paixo nos lbios que colavam-se a ele com ansiedade, e agilidade no corpo que contorcia-se sob 
o seu.
    Ana sentia-se invencvel, imortal, absolutamente livre. Seu corpo estava vivo, nunca estivera to vivo, com o corao disparando loucamente em seu peito. O mundo 
girava em torno de si, numa mistura de cores, luzes, rodopiando mais e mais rpido, at que ela foi forada a agarrar-se no pilar da escada, para impedir-se de cair 
nos limites do universo.
    Seus dedos embranqueceram em torno do pilar de madeira, quando Boone puxou-lhe a cala comprida, depois a calcinha de renda. A boca ansiosa, frentica, febril, 
experimentava cada centmetro de sua pele. Ana conteve um grito quando ele a fez voar para um espao infinito, quente.
    Seus murmrios incongruentes no eram ditos numa linguagem que ele pudesse entender, mas Boone sabia que a levara para alm dos limites do que era so e racional. 
E era ali que a queria, ali mesmo, enquanto eram ambos impulsionados para a loucura da paixo vvida e sem regras.
    Ele esperou. Esperaria at o ltimo instante. Agora, o corpo esguio e translcido de Ana arqueou-se para receb-lo. Estremecendo como garanho, ele montou-a, 
mergulhando naquele calor mido e receptivo. Ana passou a mover os quadris, crescendo num ritmo enlouquecedor enquanto cavalgava com ele atravs daquele mundo novo.
    
    As mos dela deslizaram fracamente pelas costas midas de Boone. Ana estava entorpecida demais para sentir a dureza do piso de madeira sob seu corpo. Queria 
abra-lo, mas todas as suas foras tinham desaparecido. No era possvel focalizar a mente no que acabara de acontecer. Tudo o que se lembrava vinha em flashes 
de sensaes, em exploses de emoes.
    Aquele era o lado mais escuro e denso do amor, e nada poderia t-la preparado para isso. Se aquela necessidade terrvel era o que vivia dentro dele, ela no 
conseguia compreender como Boone pudera cont-la por tanto tempo.
    Mas havia sido por ela. Ana virou o rosto molhado, beijando-lhe o pescoo. Havia sido pelo bem dela.
    Sob o corpo dele, que ainda estremecia, Ana estava to imvel quanto as guas de um lago. Boone esforou-se para voltar  realidade. Precisava se mexer. Depois 
de tudo o que fizera a ela, agora devia estar esmagando-a. Mas quando comeou a virar, o corpo, Ana emitiu um pequeno som de desagrado, que aliviou sua conscincia.
    - Aqui, meu bem, deixe-me ajud-la.
    Ele levantou-se e pegou um pedao da blusa rasgada, numa tentativa de cobri-la. Contendo um palavro, atirou-o para longe novamente. Ela havia se virado um pouco 
para o lado, obviamente procurando um mnimo de conforto. Pelo amor de Deus, ele pensou com desgosto, ele a possura como se fosse um manaco.
    - Ana... - Boone encontrou o que restava da sua camisa e tentou pass-la nos ombros dela. - Anastsia, nem sei como explicar.
    - Explicar? - A voz dela era quase inaudvel. Sentia a boca seca.
    - No h nenhuma explicao possvel... Deixe-me ajud-la. - O corpo dela escorregava como cera entre os braos dele. - Vou pegar alguma roupa para voc, ou... 
Ah, que droga.
    - Acho que no consigo levantar. - Ana umedeceu os lbios, sentindo o gosto dele. - No por um ou dois dias, pelo menos. Mas est tudo bem. Vou ficar aqui mesmo.
    Franzindo a testa, ele tentou interpretar o que ouvira na voz dela. No era raiva. Nem tampouco angstia. Parecia que... ela estava muito satisfeita.
    - Voc no est zangada?
    - Humm? Deveria estar?
    - Bem, eu... Eu praticamente a ataquei. Ora, eu realmente ataquei voc, quase possuindo-a no banco do carro, rasgando suas roupas, arrastando-a at aqui e devorando 
o que sobrou de voc na escadaria.
    Com os olhos ainda fechados, ela respirou fundo e depois suspirou, com um leve sorriso.
    - Sim,  verdade. E foi a primeira vez que algum me devorou. Acho que nunca mais vou passar por uma escada sem me lembrar disso.
    Delicadamente, ele tocou-lhe o rosto at que ela abrisse os olhos.
    - Eu pretendia pelo menos chegar at o quarto.
    - Acho que, eventualmente, acabaremos chegando l. - Reconhecendo a preocupao nos olhos dele, Ana segurou-lhe o pulso. - Boone, acha que eu ficaria zangada 
por voc me querer tanto assim?
    - Pensei que voc ficaria chateada porque esta no  a maneira a que est acostumada.
    Ela sentou-se com algum esforo, fazendo uma careta ao sentir as dores que, no demoraria muito, se transformariam em manchas arroxeadas.
    - No sou feita de cristal. E qualquer maneira de amor  certa. Mas... - Passou os braos no pescoo dele e sorriu, maliciosa. - Nas circunstncias, fiquei contente 
por termos conseguido esperar at entrar em casa.
    Boone deslizou as mos pelos quadris dela, pelo prazer de puxar-lhe o corpo contra si.
    - Minha vizinha  bastante liberal.
    - No  a primeira vez que me dizem isso. - Ana mordiscou-lhe o lbio levemente. Lembrando-se do prazer que ele lhe dera ao deslizar os lbios pelo seu corpo, 
comeou uma lenta jornada pelo pescoo dele. - Felizmente, o meu vizinho entende bem de paixes. Duvido que eu faa qualquer coisa capaz de choc-lo. Mesmo se lhe 
disser que quase sempre crio fantasias com ele durante a noite, quando estou sozinha na cama.
    Era impossvel, mas Boone sentiu-se estremecer contra ela. O desejo profundo, ardente, comeou a emergir outra vez.
    -  mesmo? Que tipo de fantasias?
    - De t-lo vindo para mim. - A respirao dela acelerou-se, quando Boone comeou a beij-la nos ombros. - Vindo para minha cama como um sonho, quando a tempestade 
explode no ar. Posso ver os olhos dele, azul-escuro sob o brilho dos relmpagos, e sei que ele me deseja de uma maneira que ningum jamais me desejou, nem ir me 
desejar.
    Sabendo muito bem que se no tomasse alguma atitude agora eles acabariam esparramando-se novamente na escada, Boone levantou-se e ajudou-a a fazer o mesmo.
    - S no posso lhe dar os relmpagos.
    Ela sorriu, enquanto ele a carregava para o quarto.
    - Voc j me deu.
    
    Horas e horas mais tarde, os dois estavam ajoelhados na cama desfeita, banqueteando-se com uma pizza  luz de velas. Ana perdera a noo do tempo, e nem queria 
saber se era meia-noite ou madrugada. Eles tinham feito amor, conversado, dado boas risadas e, depois, amaram-se novamente. Nenhuma noite, em toda sua vida, havia 
sido to perfeita. Ento, que importncia tinha o tempo?
    - Guinevere no foi uma herona. - Ana lambeu o molho de tomate dos dedos. Eles haviam discutido poesia pica, desenhos animados, lendas antigas e clssicos 
de terror. No estava bem certa de como tinham retornado para o rei Arthur e Camelot mas, na questo da esposa do rei, Ana mantinha-se firme. - E tambm no foi 
uma personagem trgica.
    - Pois eu pensei que uma mulher, principalmente com a sua compaixo, pudesse simpatizar-se mais com a situao dela - Boone retrucou, pegando o ltimo pedao 
na caixa de papelo que haviam deixado no meio da cama.
    - Por qu? Ela traiu o marido e ajudou a destruir um reino, apenas por ter sido fraca e auto-indulgente.
    - Ela estava apaixonada.
    - O amor no desculpa todos os atos. - Divertida, Ana inclinou a cabea e observou-o sob a luz oscilante das velas. Ele parecia gloriosamente msculo usando 
apenas um calo, com os cabelos desgrenhados e o rosto escurecido pela barba crescida. - Isso no  tpico dos homens? Encontrar desculpas para a infidelidade de 
uma mulher somente porque est descrita em termos romnticos.
    Boone no sabia se isso era exatamente uma ofensa, mas o fez encolher-se um pouco.
    - S acho que ela no tinha nenhum controle da situao.
    - Ora,  claro que tinha. Ela teve uma escolha, e fez a pior, exatamente como Lancelot. Toda aquela conversa rebuscada sobre cavalheirismo, herosmo e lealdade, 
enquanto os dois traam um homem que os amava, apenas porque no puderam se controlar? - Ela atirou os cabelos para trs. - Isso  besteira.
    Boone riu, antes de bebericar o vinho.
    - Voc me surpreende. E eu que pensei que voc fosse uma romntica. Uma mulher que sai para colher flores sob a lua cheia, que coleciona esculturas de fadas 
e magos, e condena Guinevere porque ela amou sem pensar.
    Ana lanou-lhe um olhar fuzilante.
    - Pobre Guinevere... - ironizou.
    -Espere um pouco. -Ele riu, divertindo-se imensamente. No havia ocorrido a nenhum deles que estavam discutindo sobre pessoas consideradas fictcias. - No vamos 
esquecer dos outros personagens. Merlin deveria estar tomando conta de tudo. Por que ele no tomou nenhuma providncia?
    Ana limpou meticulosamente os farelos de pizza das pernas nuas.
    - No cabe a um mago interferir no destino.
    - Ora, estamos falando do campeo dos magos, aqui. Com apenas um encantozinho ele teria acertado tudo.
    - E alterado inmeras vidas - ela salientou, fazendo um gesto com o copo. - Teria modificado a Histria. No, ele no podia fazer isso, nem mesmo por Arthur. 
As pessoas, sejam feiticeiros, reis ou simples mortais, so responsveis pelos seus prprios destinos.
    - Mas ele no teve nenhum problema em tornar-se cmplice do adultrio quando disfarou Uther como sendo o duque da Cornualha e tomando Tintagel, para que Igraine 
concebesse Arthur, no incio.
    - Porque este era o destino - ela retrucou com toda pacincia, como se estivesse falando com Jessie. - Este era o propsito. Apesar de todo o poder de Merlin, 
de toda sua grandeza, seu ato mais essencial e nico foi fazer com que Arthur existisse.
    - Pois isso no me parece direito. - Boone engoliu o ltimo pedao de pizza. - Um encantamento est certo, outro no.
    - Quando voc possui um dom,  sua responsabilidade saber como e quando us-lo, e como e quando no us-lo. Pode imaginar o quanto ele sofreu, vendo algum a 
quem amava ser destrudo? Sabendo, mesmo quando Arthur foi concebido, como tudo iria terminar? A magia no o separa das emoes e da dor. E raramente protege quem 
a possui.
    - Imagino que no. - Ele prprio, nas histrias que escrevia, fazia com que as fadas e magos sofressem. Isto lhes concedia um elemento humano e cativante. - 
Quando eu era criana, costumava sonhar que vivia na poca de Camelot.
    - Salvando lindas damas das garras dos drages?
    -  claro. Participando de batalhas, desafiando o Cavaleiro Negro e acabando com ele.
    -  claro.
    - Ento eu cresci e descobri que poderia ter o melhor dos dois mundos, vivendo naquela poca aqui... - Ele bateu com o dedo na cabea. - quando estava escrevendo. 
E ter todos os confortos do sculo vinte.
    - Como pizza, por exemplo.
    - Como pizza - ele concordou. - Um computador, em vez de uma pena de escrever. Roupas de baixo de algodo. gua quente e encanada. Por falar nisso... - Ele segurou 
a barra da camiseta que lhe dera para vestir. Moveu-se num impulso, provocando-lhe um gritinho quando puxou-a para cima do ombro e saiu da cama.
    - Onde voc vai? - ela riu.
    - gua quente encanada - ele repetiu. - Acho que est na hora de lhe mostrar o que sou capaz de fazer no chuveiro.
    - Vai cantar?
    - Talvez mais tarde. - No banheiro, ele abriu a porta de vidro do boxe e girou as torneiras. - Espero que goste de gua quente.
    - Bem, eu... - Ana ainda estava no ombro dele, quando Boone entrou embaixo do chuveiro. Com a gua correndo, ficou imediatamente ensopada. - Boone, voc est 
me afogando!
    - Desculpe-me. - Ele mudou de posio, pegando o sabonete. - Sabe, foi este banheiro que me convenceu a comprar a casa. O boxe  bem espaoso. - Deslizou o sabonete 
pela perna de Ana. - E  melhor ainda com as duas duchas.
    Apesar da gua quente, Ana estremeceu quando ele passou o sabonete na parte interna do seu joelho, formando pequenos crculos.
    -  um pouco difcil apreciar seu chuveiro na posio em que estou. - Ela afastou os cabelos molhados do rosto, reparando que o piso do boxe era de azulejos 
espelhados. - Ora, ora...
    Ele riu e deslizou a mo lentamente para a coxa de Ana.
    - D uma olhada no teto.
    Ela fez isso, erguendo a cabea e deparando-se com o prprio reflexo.
    - Ahn... No fica coberto pelo vapor?
    -  um vidro especial. Realmente fica um pouco embaado, se a gente demora muito no banho. - E ele pretendia demorar ali, o bastante. Passou a ensaboar todo 
o corpo dela, centmetro por centmetro. - Mas isso acrescenta um certo charme  atmosfera. - Com delicadeza, pressionou-a contra a parede, espalmando as mos sobre 
os seios cobertos pela camiseta molhada. - Quer ouvir uma das minhas fantasias?
    - Eu... ah... - Boone massageava-lhe o mamilo rgido. - Sim, parece justo.
    - Tenho uma idia melhor. - Ele passou os lbios sobre os dela, provocando-a, fazendo-a respirar mais rpido. - Que tal lhe mostrar? Primeiro, vamos nos livrar 
disso. - Puxou-lhe a camiseta pela cabea, jogando-a no cho. - Eu comeo por aqui. - Brincando com os lbios dela, passou o sabonete pelos ombros. - E no paro 
mais, at chegar nos dedos dos seus ps.
    Ana tinha a impresso de que o chuveiro iria juntar-se s escadas nas profundezas mais erticas da sua imaginao. Agarrando os quadris dele como apoio, ela 
arqueou o corpo enquanto Boone deslizava as mos molhadas e ensaboadas em seus seios.
    Vapor. Estava em torno dela, em toda parte. O ar denso e mido tornava quase impossvel respirar. Uma chuva tropical, a gua caindo sobre eles, o calor aumentando. 
O sabonete cremoso fazia com que seus corpos escorregassem deliciosamente, quando moviam-se juntos. Ana passou as mos nas costas e no peito de Boone, formando mais 
espuma, sentindo os msculos dele contrarem-se sob seu toque.
    Ela ardia de desejo, e ele tambm. Era o poder encontrando o poder. No havia mais dvidas de que ela poderia lhe devolver o prazer selvagem, louco e ardente 
que ele lhe oferecera antes. Um prazer muito mais doce, muito mais profundo, porque era gerado do amor, e no apenas da paixo.
    Ana queria mostrar a ele. E iria mostrar.
    Suas mos deslizaram pelo corpo dele, pelos ombros fortes, pelo peito. Ela murmurava palavras de prazer enquanto traava os dedos pelas costelas, at a barriga 
lisa e plana.
    Boone balanou a cabea, tentando clare-la. Esperava seduzir Ana, mas estava sendo seduzido. As mos delicadas flutuando pela sua pele escorregadia lanavam 
flechas de desejo doloroso em todo seu sistema.
    - Espere. - Ele segurou-lhe as mos com firmeza. Sabia que, se ela o tocasse agora, seria incapaz de se conter.
    - No. - Com a nova sabedoria emergindo de dentro de si, ela beijou-o, e venceu. - Deixe-me...
    Seus dedos fecharam-se em torno dele, escorregando, movendo-se, apertando levemente enquanto ele respirava mais rpido em seu ouvido. Um sbito lampejo de triunfo 
explodiu dentro dela, ao sentir o estremecimento rpido e involuntrio dele. Ento, a avidez de t-lo dentro de si, inteiro, profundamente, invadiu-a.
    - Ana... - Ele sentiu os ltimos resqucios de realidade desaparecendo. - Ana, eu no posso...
    - Voc me quer. - Delirante de poder, ela atirou a cabea para trs. Seus olhos ardiam com o desafio. - Ento me possua, agora.
    Ela parecia uma deusa recm-sada do mar. Os cabelos molhados grudavam-se como ouro escuro em seu rosto. A pele brilhava com as gotas d'gua. Em seus olhos havia 
segredos, mistrios obscuros que nenhum homem jamais desvendaria.
    Ela estava linda. Ela era magnfica. E era toda sua.
    - Segure-se em mim. - Apoiando-a contra a parede, Boone levantou-a pelos quadris. - Segure-se em mim.
    Ana passou os braos em torno de pescoo dele, mantendo os olhos abertos. Ele penetrou-a ali mesmo, aprofundando-se nela enquanto a gua caa em seus corpos. 
Ofegando o nome dele, Ana deixou a cabea cair para trs. Atravs das nuvens de vapor, viu o reflexo de ambos no teto, uma maravilhosa mistura de membros que tornava 
impossvel saber onde ele terminava e ela comeava.
    Um gemido de prazer indescritvel escapou de seus lbios, enquanto ela recostava a cabea no ombro dele. Estava perdida, pensou. E dava graas a Deus por isso.
    - Eu amo voc.
    Ana no sabia se as palavras estavam em sua mente ou se tinham sado de seus lbios. Mas pronunciou-as vezes sem conta, at que seu corpo contorceu-se.
    Boone esvaziou-se dentro dela, depois apoiou-se fracamente na parede, sentindo as foras se esvarem. Seu corao ainda rugia em seus ouvidos quando fechou as 
mos em torno dos ombros dela.
    - Diga-me agora.
    Ana estava sorrindo, mas vacilou um pouco e fitou-o atravs dos olhos nublados.
    - Dizer o qu?
    Ele pressionou os dedos com mais fora, e Ana enxergou com mais nitidez.
    - Que voc me ama. Diga-me agora.
    - Eu... No acha que devemos nos enxugar? Faz muito tempo que estamos na gua.
    Com um gesto impaciente, ele fechou as torneiras.
    - Quero olhar para voc, quando voc falar, e quero estar acordado. Vamos ficar aqui mesmo, at que voc diga.
    Ela hesitou. Boone no fazia idia de que estava obrigando-a a tomar o passo seguinte na direo de t-lo para sempre consigo, ou perd-lo. O destino, ela pensou, 
e as escolhas. Chegara a hora de fazer a sua.
    - Eu amo voc, Boone. No estaria aqui, se no o amasse.
    Os olhos dele aqueceram-se, intensos. Lentamente a presso nos braos dela suavizou-se, o seu rosto relaxou.
    - Sinto-me como se tivesse esperado minha vida inteira para ouvi-la dizer isso.
    Ana afastou-lhe os cabelos molhados do rosto. 
    - Pois s bastava perguntar. 
    Ele tomou-lhe as mos.
    - Voc no precisa. - Vendo que ela comeava a tremer, saram do boxe e Boone pegou uma toalha. Enrolou-a no corpo dela e abraou-a, para aquec-la melhor. -Anastsia. 
 - Uma profunda ternura emergiu de dentro dele, enquanto beijava seus lbios, seu rosto, seus olhos. - Voc no precisa perguntar. Eu amo voc. Voc trouxe  minha 
vida algo que pensei que nunca, nunca mais poderia ter.
    Com um suspiro entrecortado, ela recostou o rosto no peito dele. Aquilo era real, pensou. Estava mesmo acontecendo. E ela teria de encontrar uma forma de manter 
tudo assim.
    - Voc  tudo o que sempre desejei. No deixe de me amar, Boone, no pare de me amar.
    - Eu no poderia. - Ele afastou-a um pouco. - No chore.
    - Eu no choro. - As lgrimas brilhavam nos olhos dela, mas no corriam em seu rosto. - Eu no choro.
    Anastsia no derrama lgrimas, mas ir derram-las por voc.
    As palavras de Sebastian ressoaram incomodamente nos ouvidos de Boone. Mas ele as afastou com firmeza. Isso era ridculo. No fizera nada para mago-la. Abriu 
a boca, depois fechou-a novamente. Um banheiro cheio de vapor no era o lugar para o pedido que queria fazer. E, alm disso, havia coisas que precisava dizer a ela, 
primeiro.
    - Vamos vestir uma camiseta. Precisamos conversar.
    Ana estava feliz demais para dar ateno  leve incerteza que a invadiu. E riu quando ele levou-a no colo para o quarto e enfiou uma camiseta pela sua cabea. 
Com um ar sonhador, ela serviu mais vinho para os dois, enquanto Boone vestia a cala jeans.
    - Quer vir comigo? - Ele estendeu a mo, que ela aceitou no mesmo instante.
    - Para onde vamos?
    - Quero lhe mostrar uma coisa. - Levou-a pelo corredor at o escritrio.
    Encantada, Ana fez um giro no meio da sala.
    -  aqui que voc trabalha.
    Ali estavam as janelas amplas e sem cortinas, com os batentes de cerejeira entalhada. Dois tapetes persas, antigos e gastos, estavam sobre o piso de madeira 
polida. O cu estrelado surgia atravs das clarabias duplas. Um computador bem equipado, pilhas de papis e muitas estantes de livros anunciavam que aquele era 
o seu local de trabalho. Mas ele acrescentara um charme extra com as gravuras emolduradas e uma coleo de drages e cavaleiros medievais que deixaram-na intrigada. 
A fada alada que ele comprara na loja de Morgana estava num lugar de destaque, num pedestal alto e trabalhado.
    - Voc precisa de algumas plantas - ela decidiu imediatamente, pensando nos narcisos e azalias que acabara de plantar em vasos, em sua estufa. - Imagino que 
voc fique horas nesta sala, todos os dias. - Espiou no cinzeiro vazio ao lado do computador.
    Seguindo o olhar dela, ele franziu a testa. Era estranho, mas havia dias que no acendia um cigarro. At se esquecera disso. Teria de congratular-se por isso 
mais tarde.
    - s vezes fico olhando pela janela, quando voc est no jardim. Fica difcil me concentrar no trabalho.
    Ela riu e sentou na beirada da escrivaninha.
    - Vou lhe comprar uma persiana.
    - Nem pense nisso. - Ele sorriu, mas enfiou as mos nervosamente nos bolsos. - Ana, eu quero lhe falar sobre Alice.
    - Boone... - A compaixo fez com que ela se levantasse, indo at ele. - Eu entendo. Sei que  doloroso. Voc no precisa me explicar nada.
    - Preciso, sim, por mim. - Segurando a mo dela, virou-se para mostrar um desenho pendurado na parede. Uma linda jovem estava ajoelhada junto a um regato, mergulhando 
uma peneira dourada na gua. - Ela fez este desenho antes de Jessie nascer. Deu-me de presente, quando fizemos um ano de casados.
    -  lindo. Ela era muito talentosa.
    - Sim, muito talentosa e muito especial. - Boone bebeu o vinho, num brinde inconsciente ao amor perdido. - Eu a conheci pela maior parte da minha vida. A linda 
Alice Reeder. 
    Ele precisava falar, Ana pensou, ento ela ouviria. 
    - Vocs foram namoradinhos de escola?
    - No. - Ele riu. - Bem longe disto. Alice era a lder da torcida, a presidente da classe, a garota mais bonita e popular da escola. Ns pertencamos a grupos 
diferentes, e eu estava uns dois anos adiantado. Eu passava por aquela fase rebelde, em que os meninos andam em turmas, "apavorando" todo mundo e tentando ser malvados.
    Ela sorriu, tocando-lhe o rosto.
    - Eu gostaria de ter visto isso.
    - Enquanto eu fumava escondido no banheiro da escola, Alice pintava os cenrios para as peas de fim de ano. Ns nos conhecamos, mas parava por a. Fui para 
a faculdade, e acabei indo morar em Nova York. Parecia algo necessrio, desde que eu queria ser escritor, morar num apartamento barato e passar fome.
    Ela passou o brao em torno dele, oferecendo-se conforto instintivamente, esperando que ele organizasse os pensamentos.
    - Certo dia, eu estava numa padaria que ficava na esquina de onde eu morava, e olhei por cima do balco. Ali estava ela, tomando caf com croissant. Ns comeamos 
a conversar. Voc sabe... o que estvamos fazendo ali, sobre a velha vizinhana, o que aconteceu a quem. Este tipo de coisas. Foi bom e excitante. L estvamos ns, 
dois garotos do interior, sobrevivendo na grande e perigosa Nova York.
    E o destino os uniu, Ana pensou, numa cidade de milhes de habitantes.
    - Ela estava cursando a Escola de Belas Artes - Boone prosseguiu -, e dividia um apartamento com outras garotas, a apenas dois quarteires de distncia do meu. 
Eu acompanhei-a at o metr. Fomos passeando, conversando, comparando desenhos, falando durante horas. Alice era to cheia de vida, de energia, de idias. Ns acabamos 
deslizando para uma paixo, ou algo mais meigo do que isso. - Os olhos dele suavizaram-se enquanto observavam o desenho. - Foi muito lentamente, muito docemente. 
Ns nos casamos um pouco antes de eu vender meu primeiro livro. Ela ainda estava na faculdade.
    Ele teve de calar-se por um instante, enquanto as lembranas retornavam com fora total. Instintivamente, pegou a mo de Ana. Ela abriu-se, entregando-lhe todo 
o apoio e amor que podia.
    - Ento, tudo parecia perfeito. Ns ramos jovens, felizes, apaixonados. Ela j vendia seus trabalhos. Quando soubemos que ela engravidara, decidimos nos mudar 
para uma casa, criar nosso filho no clima saudvel e agradvel dos subrbios e perto das nossas famlias. Ento Jessie nasceu, e parecia que nada de mal poderia 
nos acontecer. Exceto que, depois do parto, Alice nunca mais recuperou completamente a energia de antes. Todos diziam que era natural, que ela devia estar cansada 
com o beb e o trabalho. Ela emagreceu muito. Eu costumava brincar, dizendo que algum dia ela iria desaparecer. Quando comeamos a nos preocupar realmente, ela fez 
os exames, mas devido a uma confuso qualquer no laboratrio, a doena no foi diagnosticada de imediato. Quando descobrimos que ela tinha cncer, j era tarde demais.
    - Ah, Boone. Eu sinto muito, sinto tanto...
    - Ela sofreu. Isto foi o pior. V-la sofrer e no poder fazer nada. Eu presenciei a morte dela, pouco a pouco. E pensei que morreria, tambm. Mas havia Jessie. 
Alice tinha apenas vinte e cinco anos, quando a enterrei. Jessie acabara de fazer dois. - Ele respirou fundo, antes de virar-se para Ana. - Eu amei Alice, e sempre 
vou amar.
    - Eu sei. Quando algum toca a nossa vida desta maneira, jamais nos esquecemos.
    - Depois que a perdi, parei de acreditar nos finais felizes, exceto aqueles que acontecem nos livros. No queria me apaixonar novamente, arriscar-me a sentir 
toda aquela dor outra vez, nem por mim, nem por Jessie. Mas estou amando novamente. O que sinto por voc  to forte que me faz acreditar outra vez. No  o mesmo 
que senti antes. No  menos.  .apenas... nosso.
    Ana acariciou-lhe o rosto, compreendendo.
    - Boone, voc achou que eu lhe pediria para esquec-la? Que eu poderia sentir cime ou ressentimento do que voc teve com ela? Isso s faz com que eu o ame ainda 
mais. Ela o fez feliz. Ela lhe deu Jessie. S gostaria de t-la conhecido, tambm.
    Absolutamente emocionado, Boone fitou-a. 
    - Case comigo, Ana.
    
    
    CAPTULO 11
    
    Ana sentiu-se gelar. As mos que estendia para abra-lo imobilizaram-se no ar. A respirao parecia presa em seus pulmes. E, mesmo quando seu corao saltou 
de alegria, sua mente alertou-a para esperar.
    Bem devagar, ela desvencilhou-se dele.
    - Boone, eu acho que...
    - No me diga que estou apressando as coisas. - Ele sentia-se surpreendemente calmo, agora que dera o primeiro passo. O passo que, percebia, j fora dado em 
seu corao desde o incio. - No me importo se estou sendo precipitado. Preciso de voc em minha vida, Ana.
    - J estou em sua vida. - Ela sorriu, tentando no se preocupar. - Voc sabe disso.
    - J foi bem difcil quando comecei a desej-la, e mais difcil ainda quando passei a gostar de voc. Mas seria impossvel, agora que estou amando-a. No quero 
ser apenas o seu vizinho. - Segurou-a pelos ombros, fitando-a intensamente. - No quero ser obrigado a mandar minha filha para fora de casa, para passar a noite 
com voc. E voc disse que me ama.
    - Eu amo. - Ana cedeu ao impulso desesperado de abra-lo. - Voc sabe que eu o amo, mais do que imaginei que seria possvel. Mais do que eu queria. Porm, o 
casamento ...
    - Certo. - Boone afagou-lhe os cabelos molhados. -  o mais certo para ns. Ana, uma vez eu lhe disse que no levo a intimidade na brincadeira, e no estava 
me referindo apenas ao sexo. - Afastou-se um pouco, querendo ver-lhe o rosto, querendo que ela visse o seu. - Estou falando sobre o que acontece comigo todas as 
vezes que olho para voc. Antes de conhec-la, estava satisfeito com a vida que tinha. Mas isso j no me basta mais. No vou ficar me escondendo por trs da cerca 
de rosas para poder estar com voc. Quero que fique comigo, conosco.
    - Boone, se pudesse ser assim to simples... - Ela virou-se, lutando para encontrar a resposta certa.
    - Pode ser simples. - Boone ignorou uma sbita onda de pnico. - Quando entrei no quarto, hoje cedo, e vi voc abraada com Jessie... nem sei descrever o que 
senti naquele momento. Percebi que era tudo o que eu queria. Que voc estivesse ali, somente isso. Saber que eu poderia compartilhar Jessie com voc, porque voc 
a ama. E poderamos ter outros filhos... ter um futuro.
    Ela fechou os olhos, porque a imagem era to doce, to perfeita. E estava negando a ambos uma chance de transformar aquele sonho em realidade, apenas porque 
tinha medo.
    - Se eu dissesse "sim" agora, antes que voc me compreenda, antes que saiba tudo a meu respeito, no estaria sendo justa.
    - Eu conheo voc. - Boone tornou a abra-la. - Sei que voc  compassiva e apaixonada, sei que  leal, generosa e tem uma mente aberta. Sei que ama muito sua 
famlia, que gosta de msica romntica e vinho feito de mas. Conheo o som da sua risada, o seu cheiro. E sei que poderia faz-la feliz, se voc permitisse.
    - Voc me faz feliz. E  porque tambm quero v-lo feliz que agora no sei o que fazer. - Ela afastou-se e comeou a andar, tentando aliviar a tenso. - Eu no 
sabia que tudo isso aconteceria to depressa, antes que eu tivesse certeza. Eu juro, se soubesse que voc estava pensando em casamento...
    Ser esposa dele, pensou. Unir-se a ele para sempre. No podia pensar em nada mais precioso do que isso.
    Precisava contar-lhe tudo, para que ele tivesse a opo de aceitar ou recusar.
    - Voc tem sido muito mais honesto comigo do que eu com voc.
    - Sobre o qu?
    - Sobre quem voc . - Ela fechou os olhos e suspirou. - Sou uma covarde. To facilmente devastada por maus pressentimentos, sentindo um medo pattico, um medo... 
fsico e emocional. To vulnervel a coisas que outras pessoas encaram com indiferena.
    - No sei sobre o que voc est falando, Ana.
    - No, voc no sabe. - Ela pressionou os lbios. - Voc entende que existem pessoas que so mais sensveis do que outras? Pessoas que precisam desenvolver uma 
defesa que as impea de absorver demais os turbilhes de emoes que giram em torno delas? Que so obrigadas a fazer isso, Boone, pois do contrrio no conseguem 
sobreviver?
    Ele afastou a impacincia e tentou sorrir.
    - Est ficando mstica demais para o meu gosto, Ana.
    Ela riu, pressionando a mo nos olhos.
    - Voc no sabe nem a metade. Preciso explicar, mas no sei como. Se eu pudesse... - Comeou a virar-se, determinada a lhe contar tudo, e derrubou o bloco de 
desenhos de cima da escrivaninha dele. Num gesto automtico, abaixou-se para peg-lo.
    Talvez fosse o destino que quisesse que o bloco casse de frente, mostrando um desenho recm-terminado. Um desenho excelente, Ana pensou, enquanto o analisava. 
As linhas firmes e sombrias de uma bruxa com um chapu pontudo encaravam-na. O mal, ela pensou. Ele havia capturado o mal com perfeio.
    - No se preocupe com isso. - Boone adiantou-se para pegar o bloco, mas ela balanou a cabea.
    - Isto  para o seu novo livro?
    - Sim, "O Castelo de Prata". No vamos mudar de assunto.
    - Nem tanto quanto voc est pensando - ela murmurou. - D-me s um momento - disse, com um sorriso cauteloso. - Fale-me sobre este desenho.
    - Que diabos, Ana.
    - Por favor.
    Frustrado, ele passou a mo pelos cabelos.
    -  apenas o que parece. Uma bruxa malvada que amaldioa a princesa e o castelo. Tive de imaginar que seria um encantamento que impedia qualquer pessoa de entrar 
ou sair do castelo.
    - Ento escolheu, uma bruxa.
    - Sei que  o bvio. Mas a histria parecia exigir isso. A bruxa vingativa, ciumenta, furiosa com a beleza e a bondade da princesa faz um encantamento para que 
a princesa fique encerrada no castelo, privada do amor, da vida e da felicidade. Ento, quando o verdadeiro amor vence, rompendo a maldio, a bruxa  eliminada. 
E eles vivem felizes para sempre.
    - Imagino que, para voc, as feiticeiras so sempre maldosas e calculistas. - "Calculistas", Ana lembrou-se. Fora uma das palavras que Robert usara para descrev-la. 
Alm de outras, muito, muito piores.
    - Bem,  o que se espera delas. O poder corrompe, certo?
    Ana deixou o bloco na escrivaninha.
    - E o que algumas pessoas pensam. - Era apenas um desenho, ela disse a si mesma. Apenas parte de uma histria que ele inventara. Ainda assim, serviu para lembr-la 
de quo imensa era a distncia que os separava. - Boone, quero lhe pedir uma coisa, esta noite.
    - Acho que esta noite voc poderia me pedir qualquer coisa.
    - Preciso de tempo - ela disse. - E de f. Amo voc, Boone, e no existe mais ningum com quem eu quisesse passar o resto da minha vida. Mas preciso de tempo, 
e voc tambm. Uma semana - ela disse, antes que ele pudesse protestar. - Somente uma semana. At a lua cheia. Ento, eu lhe contarei tudo sobre mim. Depois disso, 
espero que voc me pea novamente para ser sua esposa. E, se pedir, a resposta ser "sim".
    - Diga sim agora. - Ele abraou-a, capturando-lhe os lbios, esperando convenc-la com a fora da sua prpria vontade. - Que diferena far uma semana?
    - Toda diferena - ela murmurou, colando-se a ele. - Ou nenhuma.
    
    Boone no se importava de esperar. O que o deixava impaciente e nervoso era o fato de que os dias pareciam arrastar-se. Um dia, dois, finalmente trs. A fim 
de confortar-se, pensava sobre a mudana que aconteceria em sua vida, assim que aquela semana interminvel acabasse.
    No passaria mais as noites sozinho. Logo, quando se virasse na cama, ela estaria ali. A casa estaria repleta da presena dela, do seu perfume, das fragrncias 
de ervas e essncias. Nas noites longas e tranqilas, eles poderiam sentar juntos no terrao e conversar sobre o dia que tiveram, sobre o futuro.
    Ou, talvez, Ana quisesse que se mudassem para a casa dela. No teria importncia. Eles caminhariam pelos jardins, atravs dos canteiros, e ela poderia tentar 
ensinar-lhe os nomes de todas as flores.
    Talvez pudessem fazer uma viagem para a Irlanda, e ela lhe mostraria todos os lugares significativos de sua infncia. E lhe contaria histrias, como aquela da 
feiticeira e do sapo, sobre as quais ele poderia escrever.
    Um dia, teriam outros filhos e ele a veria segurando um beb no colo, da mesma maneira que segurara os de Morgana e Nash.
    Mais filhos. Tal pensamento o fez olhar para o retrato emoldurado de Jessie, sorrindo para ele na escrivaninha.
    Ela era o seu beb. Apenas seu, e por tanto tempo. E ele realmente queria outros. At agora, nunca se dera conta do quanto desejava mais filhos. Nem do quanto 
gostava de ser pai. Parecia fazer parte da sua personalidade, algo que ele simplesmente "era".
    Agora, enquanto a mente comeava a brincar com a idia, imaginou-se acalentando um beb durante a noite, como fizera com Jessie. Segurando-lhe os bracinhos quando 
os primeiros passos eram dados. Jogando bola no quintal, segurando a traseira de uma bicicleta desequilibrada.
    Um filho. No seria incrvel ter um filho? Ou outra filha. Irmos e irms para Jessie. Ela adoraria, pensou, e descobriu-se sorrindo como um idiota. Ele adoraria.
    Mas, evidentemente, ainda no havia perguntado  Ana como ela se sentia a respeito. Sem dvida, era algo que teriam de discutir. Talvez fosse apress-la outra 
vez, se falasse nesse assunto agora.
    Ento, lembrou-se da expresso dela, quando ficara abraada  Jessie em sua cama. A maneira com que seu rosto iluminara-se ao segurar os bebs, para que Jessie 
pudesse v-los e toc-los.
    No, decidiu. Ele a conhecia. Ela estaria to ansiosa quanto ele para transformar aquele amor em vida.
    No final da semana, pensou, iriam comear a fazer os planos para um futuro juntos.
    
    Para Ana os dias passaram depressa demais. Ela ficava horas pensando na maneira certa de contar tudo a Boone. Depois, mudava de idia e tentava encontrar outro 
jeito.
    Havia o confronto direto.
    Imaginava-se sentando com ele na cozinha, com um bule de ch sobre a mesa.
    - Boone - ela diria, - eu sou uma feiticeira. Se isso no o incomoda, podemos comear a planejar o casamento. 
    Havia a maneira sutil.
    Estariam sentados no ptio, perto do canteiro de margaridas do campo. Enquanto bebiam um vinho e admiravam o pr do sol, conversariam sobre a infncia de cada 
um.
    - Imagino que ter sido criada na Irlanda seja um pouco diferente de crescer em Indiana - ela lhe diria. - Mas os irlandeses geralmente aceitam muito bem o fato 
de ter feiticeiros como vizinhos. - Ento, sorriria. - Mais vinho, amor?
    Ou a abordagem intelectual.
    - Estou certa de que voc concorda que muitas lendas so baseadas em fatos. - Esta conversa poderia acontecer na praia, com o barulho das ondas e os gritos das 
gaivotas ao fundei. - Seus livros demonstram uma grande profundidade de compreenso e respeito pelo que a maioria das pessoas considera mito ou folclore. Sendo eu 
mesma uma feiticeira, aprecio seu enfoque positivo das fadas e da magia. Especialmente o modo como voc descreveu a feiticeira no livro "Um Terceiro Desejo para 
Miranda".
    Ana esperava apenas que lhe restasse algum humor para rir de cada um daqueles tristes cenrios. E certamente teria de pensar em alguma coisa, agora que faltavam 
menos de vinte e quatro horas para o trmino do seu prazo.
    Boone j se mostrara paciente demais, e ela no teria o direito de lhe pedir mais tempo. No havia desculpas para faz-lo esperar mais.
    Pelo menos naquela noite teria um pouco de apoio moral. Morgana e Sebastian, com os respectivos cnjuges, estavam a caminho para o jantar que costumavam fazer 
juntos, em todas as primeiras sextas-feiras do ms. Se isso no a preparasse para o confronto com Boone no dia seguinte, nada mais o faria. Quando Ana saiu para 
o terrao, ficou brincando com o pingente de zircnia que tinha no pescoo.
    Era bvio que Jessie estivera observando o seu quintal como uma guia, pois no mesmo instante surgiu por entre a cerca de rosas, com Daisy atrs de si. A fim 
de demonstrar seu desprezo ao filhote, Quigley sentou e comeou a lamber as patas.
    - Ns vamos jantar na sua casa, hoje - Jessie anunciou. - Os bebs tambm vm e, se eu tiver muito, muito cuidado, talvez possa peg-los no colo.
    - Acho que podemos dar um jeito nisso. -Automaticamente, Ana olhou para o quintal vizinho, tentando encontrar sinais de Boone. - Como estava a escola hoje, meu 
raio de sol?
    - Foi bom. J sei escrever o meu nome, do papai e o seu. O seu  o mais fcil. Sei escrever o de Daisy, mas no o de Quigley, por isso escrevi apenas "gato". 
Ento escrevi o nome de toda a minha famlia, como a professora mandou. - Jessie parou de falar, olhou para os sapatos e, pela primeira vez desde que Ana a conhecia, 
ficou intimidada. - Est tudo bem que eu disse que voc  da minha famlia?
    - Est mais do que bem. - Abaixando-se, Ana deu um abrao apertado na menina. "Ah, sim", pensou, fechando os olhos com fora. " isso que quero,  isso que preciso. 
Posso ser uma mulher para ele e me para sua filha. Por favor, por favor, ajude-me a encontrar uma maneira de ter tudo isso." - Eu amo voc, Jessie.
    - Voc no vai embora, no .?
    Porque estavam to prximas, e porque no pde evitar, Ana tocou o corao da menina e viu que ela estava pensando na me.
    - No, querida. - Afastou-se, escolhendo as palavras com cuidado. - Eu jamais iria querer ir embora. Mas, se tiver de ir, se no puder evitar, ainda ficaramos 
prximas. 
    - Como voc pode ir embora e ainda ficar perto de mim? 
    - Porque voc estaria no meu corao. Aqui. - Ana retirou a correntinha de ouro com o pingente de zircnia e colocou-o no pescoo de Jessie. 
    -Ah! Veja como brilha!
    -  muito especial. Quando voc se sentir sozinha ou triste, basta segurar na pedra e pensar em mim. Eu vou saber, e lhe enviarei felicidade.
    Encantada, Jessie girou o cristal na mo e ergueu-o contra luz, produzindo uma exploso de cores e luzes.
    -  mgico?
    - , sim.
    Jessie aceitou a resposta com a f de uma criana.
    - Quero mostrar ao papai. - Saiu correndo, mas parou ao lembrar-se da boa educao. - Obrigada, Ana. 
    - De nada. Ahn... seu pai est em casa? 
    - Sim, ele est no telhado. 
    - No telhado?
    - , porque no ms que vem j  o Natal e ele precisa saber quantas lmpadas ter de comprar. Ele quer iluminar a casa inteira, pois disse que este Natal ser 
o melhor de todos os tempos.
    - Espero que sim.
    Ana protegeu os olhos com a mo e olhou para cima. L estava ele sentado no topo da casa, olhando-a de volta. Ana sentiu o conhecido salto no corao, como sempre 
acontecia quando o via. Apesar de nervosa, sorriu e acenou-lhe, enquanto pousava a outra mo no ombro de Jessie.
    Tudo ficaria bem, disse a si mesma. Teria de ficar.
    Boone ignorou o emaranhado de, fios com as lmpadas de Natal ao seu lado, e ficou observando-as at que Jessie corresse de volta para o quintal, e Ana entrasse 
na casa.
    Tudo ficaria bem, pensou. Teria de ficar.
    
    Sebastian pegou uma enorme azeitona preta da bandeja e enfiou-a na boca.
    - A que horas vamos comer? - perguntou.
    - Voc j comeu - Mel salientou.
    - Estou falando de comida de verdade. - Ele piscou para Jessie. - Cachorro-quente.
    - Frango com molho de ervas - Ana corrigiu, virando um peito de frango na churrasqueira.
    Estavam todos espalhados pelo ptio, com Jessie sentada numa cadeira de ferro segurando Allysia cuidadosamente no colo. Boone e Nash mantinham um debate animado 
sobre cuidados com as crianas. Morgana amamentava Donovan, enquanto escutava o relato de Mel sobre o final feliz da fuga que ela e Sebastian tinham investigado.
    - O garoto estava miservel - ela dizia. - Arrependido como o diabo por ter fugido, e com medo de voltar. Quando ns o encontramos, com frio, sem dinheiro e 
com fome, ele ficou sabendo que seus pais estavam com mais medo do que raiva, e mal pde esperar para voltar para casa. Acho que vai ficar de castigo at os trinta 
anos, mas no parecia importar-se com isso. - Esperou at que Morgana fizesse o beb arrotar. Estava louca para peg-lo no colo. - Quer que o leve para o cestinho?
    - Obrigada. - Morgana observou a expresso de Mel, quando ela pegou o beb. - Est pensando em ter um destes? Ou dois?
    - Para dizer a verdade... - Mel aspirou o suave perfume do beb e sentiu os joelhos enfraquecerem. - Talvez eu j esteja... - Lanou um rpido olhar por sobre 
o ombro e viu o marido entretido com Jessie. - Ainda no tenho certeza, mas acho que j comecei a tentar.
    - Ah, Mel, isso ...
    - Shh. - Mel abaixou-se, usando o beb como cobertura. - No quero que ele saiba, e nem que desconfie, do contrrio no serei capaz de impedi-lo de olhar por 
si mesmo. Quero poder contar-lhe sozinha. - Ela sorriu. - Ele vai morrer de susto.
    Com todo cuidado, Mel deitou o beb no carrinho duplo.
    - Allysia tambm est dormindo - Jessie avisou, passando o dedo pelo rostinho do beb.
    - Quer deit-la ali perto do irmo dela? - Sebastian abaixou-se para ajudar Jessie levantar-se com o beb. -  assim mesmo que se faz. - Manteve as mos sob 
as dela, enquanto a menina deitava Allysia no carrinho. - Voc ser uma excelente me, quando crescer.
    - Talvez eu possa ter gmeos, tambm. - Ela virou-se quando Daisy comeou a latir. - Shh! - murmurou. - Voc vai acordar os bebezinhos!
    Mas Daisy estava ocupada demais correndo atrs de Quigley. Procurando um espao aberto, o gato disparou pela cerca de rosas na direo do quintal vizinho, e 
desapareceu. Adorando a brincadeira, Daisy voou atrs dele.
    - Eu vou busc-la, papai. - Fazendo tanto alarido quanto os animais, Jessie correu atrs deles.
    - No acho que um adestrador seja a soluo - Boone comentou, dando um gole na cerveja. - J estou considerando seriamente uma instituio para problemas mentais.
    Ofegando um pouco, Jessie seguiu os sons de latidos e miados atravs do gramado, pelo terrao e em volta da casa. Quando finalmente alcanou Daisy, colocou as 
mos na cintura e repreendeu-a.
    - Vocs precisam ser amigos. Ana no vai gostar se voc ficar provocando Quigley.
    Daisy limitou-se a bater a cauda no cho e latiu novamente. Quigley procurara abrigo na escada que Boone usara para subir no telhado, e estava num degrau bem 
no meio, todo arrepiado e dando patadas no ar.
    - Ele no gosta dessas brincadeiras, Daisy. - Com um suspiro, Jessie abaixou-se para afagar a cadelinha. - Ele no sabe que voc s quer brincar e que no vai 
machuc-lo. Ele fica com medo. - Olhou para cima da escada. - Venha, gatinho, est tudo bem. Pode descer, agora.
    Com um rosnado felino, Quigley estreitou os olhos, subiu mais alguns degraus da escada e abrigou-se no telhado, quando Daisy respondeu com mais uma srie de 
latidos.
    - Ah, Daisy, olhe s o que voc fez.
    Jessie hesitou ao p da escada. Seu pai fora bastante especfico ao lhe dizer que no chegasse perto dela. Mas ele no sabia que Quigley ficaria com tanto medo. 
E que podia cair do telhado e morrer. Deu um passo para trs, pensando em ir chamar o pai para resolver a situao. Ento, ouviu Quigley miar.
    Daisy era responsabilidade sua, Jessie pensou. Ela deveria aliment-la e tomar conta dela, para que no se metesse em encrencas. Se Quigley se machucasse, a 
culpa seria sua.
    - J vou indo, gatinho. No fique com medo.
    Mordendo o lbio, comeou a subir os degraus. J havia visto seu pai chegar at o topo, e no parecia ser to difcil. Era como subir nos brinquedos do parque, 
ou na escada do escorregador.
    - Gatinho, gatinho... - foi dizendo enquanto subia, e deu uma risadinha quando Quigley espiou no telhado. - Seu gato bobinho, Daisy s estava brincando. Vou 
lev-lo para baixo, no se preocupe.
    Estava quase no topo, quando seu p errou o degrau seguinte.
    
    - Est um cheiro delicioso - Boone murmurou, mas aspirava a nuca de Ana, e no o frango que ela deixara numa travessa. - Muito apetitoso.
    Nash deu-lhe um leve empurro, enquanto pegava um prato.
    - Se vai mesmo beij-la,  melhor sair do caminho. Ns estamos querendo comer.
    - Tudo bem. - Passando os braos em torno da cintura de Ana, que limitara-se a arregalar os olhos de surpresa, ele beijou-a longa e profundamente. - O prazo 
est quase acabando - disse, contra seus lbios. - Voc pode acabar com meu sofrimento agora mesmo, ou...
    As palavras foram interrompidas no instante em que ele ouviu o grito de Jessie. Com o corao aos saltos, correu pelo gramado, chamando por ela. Pulou o cercado 
de rosas, disparou pelo seu quintal.
    - Ah, Deus... Ah, meu Deus!
    Todo seu sangue pareceu esvair-se do seu corpo quando a viu cada no cho, o bracinho dobrado num ngulo impossvel, o rosto plido como cera.
    - Jessie!
    Em pnico, ajoelhou-se ao lado dela. Jessie estava imvel demais, e at sua mente febril registrou este fato terrvel. E quando abaixou-se para peg-la no colo, 
havia sangue, o sangue dela, em suas mos.
    - No a remova do lugar! - Ana disparou a ordem, ajoelhando-se ao lado deles. Estava com a respirao ofegante, lutando contra o terror, mas suas mos agarraram 
os pulsos dele com firmeza. - No sabemos o quanto e onde ela est ferida. Pode piorar as coisas, se remov-la.
    - Ela est sangrando. - Boone segurou o rosto da menina entre as mos. - Jessie. Acorde, Jessie. - Tremendo, procurou-lhe o pulso na garganta. - No faa isso 
comigo. Bom Deus, por favor... Precisamos de uma ambulncia.
    - Vou chamar - Mel falou, atrs deles.
    Ana apenas balanou a cabea.
    - Boone. - Ficou muito calma, depois de entender o que teria de fazer. - Boone, me escute. - Segurou-o pelos ombros, mantendo as mos firmes quando ele tentou 
desvencilhar-se. - Voc precisa se afastar. Deixe-me examin-la. Deixe-me ajud-la.
    - Ela no est respirando. - Ele conseguia apenas ficar olhando para a filha. - Acho que no est respirando. O brao dela... Quebrou o brao.
    Era mais do que isso. Mesmo sem um contato mais prximo, Ana sabia que era muito mais do que isso. E no havia tempo para a ambulncia.
    - Eu posso ajud-la, mas voc ter de se afastar.
    - Ela precisa de um mdico. Pelo amor de Deus, algum chame uma ambulncia!
    - Sebastian - Ana falou baixinho.
    Seu primo adiantou-se e pegou Boone pelo brao.
    - Solte-me! - Boone comeou a se virar e viu que Sebastian e Nash o seguravam. - O que diabos vocs pensam que esto fazendo? Precisamos lev-la para o hospital!
    - Deixe que Ana faa o que puder - Nash falou, esforando-se para conter o amigo e o seu prprio pnico. - Voc tem de confiar nela, pelo bem de Jessie.
    - Ana... - Plida e trmula, Morgana passou um dos bebs para os braos de Mel. - Pode ser tarde demais. Voc sabe o que poderia acontecer se...
    - Preciso tentar.
    Com extrema delicadeza, Ana pousou as mos nos dois lados da cabea de Jessie. Preparou-se, esperando at que sua prpria respirao ficasse lenta e profunda. 
Era difcil, difcil demais bloquear as emoes violentas e aterrorizadas de Boone, mas concentrou-se na criana, somente na criana. E abriu-se.
    Dor. Lampejos quentes e ardentes de dor, irradiando-se em sua cabea. Uma dor intensa demais para uma criana pequena suportar. Ana extraiu a dor, sorveu-a para 
si, permitindo que todo seu organismo a absorvesse. Quando a agonia ameaava perturbar a serenidade necessria para um trabalho to profundo e delicado, esperou 
um pouco, at que as ondas se acalmassem. Ento, prosseguiu.
    Tantos danos, pensou enquanto suas mos deslizavam levemente para baixo. Uma queda to alta. Uma imagem perfeita surgiu em sua mente. O cho chegando cada vez 
mais perto, o medo impotente, o impacto sbito e atordoante.
    Seus dedos passaram por um corte profundo no ombro de Jessie. A imagem refletida cortou seu prprio ombro, latejou, sangrou. Depois, os dois cortes desapareceram.
    - Meu Deus... - Boone havia parado de debater-se. Estava atnito demais. - O que ela est fazendo? Como?
    - Ela precisa de silncio - Sebastian murmurou. Afastando-se de Boone, pegou a mo de Morgana. No havia nada que pudessem fazer, exceto esperar.
    Os ferimentos internos eram graves. O suor cobriu a pele de Ana enquanto ela examinava, absorvia, curava. Entoava um cntico, enquanto trabalhava, sabendo que 
precisava aprofundar o transe a fim de salvar a criana, e a si mesma.
    Ah, mas a dor! Dilacerava-a como um fogo, fazendo-a estremecer. Sua respirao ficou mais difcil, enquanto tentava afast-la. Cegamente, apertou a mo em torno 
da zircnia que Jessie ainda usava, e pousou a outra mo no corao da menina.
    Quando atirou a cabea para trs, seus olhos tinham a cor das nuvens de tempestade, e estavam to vtreos quanto o cristal.
    A luz era intensa, forte a ponto de ceg-la. Mal podia ver a criana l em cima. Ela chamou, gritou, querendo apressar-se, sabendo que um nico passo em falso 
seria o fim para as duas.
    Olhou fixamente para a luz e sentiu Jessie escorregando para mais longe.
    - O dom me pertence para ser usado ou desprezado. - A dor e o poder reverberavam em sua voz. - Esta foi minha escolha desde o dia em que nasci. O que fere a 
criana a mim seja trazido. Como eu prpria, ao p voltar.
    Ela gritou, ento, pelo preo dilacerante de trapacear a morte. Sentiu a prpria vida vazar de si, oscilando, oscilando na direo da luz penetrante, enquanto 
o corao de Jessie comeava a bater debilmente sob sua mo.
    Ela lutou, por ambas as vidas, evocando cada grama de suas foras, cada vestgio de seu poder.
    Boone viu a filha enrijecer, viu seus olhos abrirem-se quando Ana vacilou para trs.
    - Jess... Jessie? - Ele deu um pulo para frente, apoiando-a em seus braos. - Minha filhinha, voc est bem?
    - Papai? - Os olhos nublados e desfocados comearam a clarear. - Eu ca?
    -Sim, meu amor. - Enfraquecido pelo alvio e gratido, Boone abraou-a e acalentou-a em seus braos. - Sim...
    - No chore, papai. - Jessie deu-lhe uma palmadinha nas costas. - Eu estou bem.
    - Deixe-me ver. - Ele respirou fundo, antes de passar as mos pelo corpinho da menina.
    No havia mais sangue, descobriu. Nenhum sangue, nenhum ferimento, nem mesmo um arranho. Virou-se e olhou para Ana, enquanto Sebastian a ajudava a levantar-se. 
- Est doendo em algum lugar, Jessie?
    - No. - Ela bocejou e recostou a cabea no ombro dele. - Eu estava indo encontrar a mame. Ela estava to bonita, no meio de uma luz. Mas estava triste, parecendo 
que ia chorar, quando me viu chegando. Ento Ana apareceu e pegou minha mo. Mame parecia feliz quando acenou, despedindo-se de ns. Estou com sono, papai.
    Boone sentia um n na garganta e o corao parecia querer saltar do peito.
    - Est bem, minha querida.
    - Por que no me deixa lev-la para dentro? - Nash ofereceu-se. Quando Boone hesitou, ele baixou a voz. - Jessie est bem, mas Ana no est. - Pegou no colo 
a criana meio adormecida. - No permita que o bom senso o atrapalhe, amigo - acrescentou, afastando-se com Jessie.
    - Quero saber o que aconteceu aqui. - Temendo que comeasse a gaguejar, obrigou-se a falar mais devagar. - Quero saber exatamente o que aconteceu.
    - Tudo bem. - Ana olhou para os primos que a rodeavam. - Se vocs puderem nos deixar a ss por um instante, eu gostaria de... - As palavras ficaram soltas no 
ar, quando ela perdeu os sentidos.
    Praguejando baixinho, Boone segurou-a antes que ela casse, e aconchegou-a nos braos.
    - O que diabos est acontecendo? - indagou. - O que ela fez com Jessie? - Baixou os olhos, vendo a palidez translcida do rosto dela. - O que ela fez a si mesma?
    - Ana salvou a vida da sua filha - Sebastian respondeu. - E arriscou a prpria vida.
    - Fique quieto, Sebastian - Morgana murmurou. - Ele j sofreu o bastante.
    - Ele?
    - Sim. - Morgana tocou o brao do primo, contendo-o. - Boone, Ana precisa descansar. Precisa de muito descanso e silncio. Se voc preferir, leve-a para casa 
dela. Um de ns ficar para cuidar dela.
    - Ela vai ficar aqui mesmo. - Boone virou-se e carregou-a para casa.
    
    Ana flutuava para dentro e para fora de mundos sem cor. No havia dor, agora, ou qualquer outra sensao. Tinha a mesma consistncia que a neblina. Por uma ou 
duas vezes, ouviu Sebastian ou Morgana deslizando para sua mente, oferecendo-lhe conforto e confiana. Outros juntaram-se a eles, os seus pais, tios e tias, e mais.
    Aps uma longa, longa jornada, ela sentia-se retornar. Matizes e vestgios de cores insinuavam-se no mundo incolor. As sensaes comearam a penetrar em todo 
seu corpo, provocando coceiras na pele. Ela suspirou uma vez, o primeiro som que fazia em mais de vinte e quatro horas, e abriu os olhos.
    Boone observou-a voltar. Levantou-se automaticamente da cadeira, a fim de levar-lhe o remdio que Morgana deixara. 
    - Aqui - disse, segurando-lhe a cabea e levando o copo aos seus lbios. - Voc precisa beber isto.
    Ela obedeceu, reconhecendo o cheiro e o sabor. 
    - Jessie?
    - Ela est bem. Nash e Morgana vieram busc-la esta tarde. Vai passar a noite com eles.
    Assentindo levemente, ela tornou a beber.
    - Quanto tempo fiquei dormindo?
    - Dormindo? - Ele riu um pouco diante do termo prosaico que ela usara para aquele estado de coma em que se encontrara. - Voc esteve inconsciente por vinte e 
seis horas. - Olhou no relgio. - E trinta minutos.
    A jornada mais longa que fizera, Ana pensou.
    - Preciso ligar para minha famlia e avisar que estou bem.
    - Eu fao isso. Est com fome?
    - No. - Ana tentou no magoar-se com o tom educado e distante da voz dele. - Isso  tudo o que preciso, por enquanto.
    - Ento estarei de volta em um minuto.
    Quando Boone deixou-a sozinha, Ana cobriu o rosto com as mos. A culpa era toda sua, censurou-se. No o havia preparado, relutara tanto em contar-lhe a verdade, 
e o destino se encarregara de tudo. Com um suspiro cansado, levantou da cama e comeou a vestir-se.
    - O que pensa que est fazendo? - Boone indagou, entrando no quarto. - Voc precisa descansar.
    - J descansei bastante. - Ana olhou para as prprias mos, enquanto fechava os botes da blusa vagarosamente. - E assim que eu conseguir ficar de p, conversaremos 
a respeito disso.
    Com os nervos vibrando, Boone limitou-se a concordar.
    - Faa como quiser.
    - Podemos ir l fora? Gostaria de um pouco de ar fresco.
    - Tudo bem. - Ele pegou-a pelo brao e ajudou-a a descer as escadas, indo para o terrao.
    Assim que se sentaram, Boone tirou um cigarro do bolso e acendeu-o. Mal fechara os olhos desde o momento em que levara Ana para o seu quarto, e estava subsistindo 
 base de tabaco e caf.
    - Se voc estiver disposta, acho que gostaria de uma explicao.
    - Vou tentar. Lamento muito no ter lhe contado tudo antes. - Ana cruzou as mos no colo. - Eu queria, mas no conseguia encontrar a melhor maneira.
    - A maneira direta  a melhor - ele disse, dando uma tragada profunda no cigarro.
    - Eu venho de uma linhagem muito antiga, tanto no lado paterno como materno. De uma cultura diferente, se voc preferir. Voc sabe o que quer dizer Wicca?
    Um frio perpassou-lhe a espinha, mas Boone achou que seria o ar da noite.
    - Feitiaria - respondeu.
    - Na verdade, o significado desta palavra  "sabedoria". Mas pode ser "feiticeira", tambm. - Ana levantou a cabea e seus olhos cinzentos encontraram os dele, 
cansados e sombrios. - Sou uma feiticeira por herana, nascida com poderes de empatia que me tornam capaz de conectar-me, tanto fisica como emocionalmente, com outras 
pessoas. Meu dom  o da cura.
    Boone tornou a tragar o cigarro.
    - Voc vai ficar a, olhando para mim e me dizendo que  uma feiticeira?
    - Sim.
    Furioso, ele atirou o cigarro para longe.
    - Que tipo de brincadeira  essa, Ana? Depois de tudo o que aconteceu aqui, no acha que mereo uma explicao racional?
    - Acho que voc merece a verdade. Voc at pode achar que no  racional. - Ela ergueu a.mo, antes que ele tornasse a falar. - Diga-me como voc explicaria 
o que aconteceu.
    Ele abriu a boca, depois fechou-a novamente. Estivera tentando solucionar aquele enigma pelas ltimas vinte e quatro horas, sem chegar a uma concluso plausvel.
    - No sei explicar. Mas isso no significa que vou engolir esta sua histria.
    - Tudo bem. - Ela pousou a mo no peito dele. - Voc est cansado. Tem dormido muito pouco. Sua cabea est latejando e sente um n no estmago.
    Ele arqueou a sobrancelha, com ironia.
    - No acho que seja preciso ser uma feiticeira para descobrir isso.
    - No. - Antes que ele pudesse se afastar, Ana tocou-lhe a testa e pressionou a outra mo em seu estmago. - Melhorou? - perguntou, aps um momento.
    Ele precisava sentar, mas tinha medo de no conseguir levantar-se outra vez. Ela o tocara, suavemente. E at a mais leve sombra de dor desaparecera.
    - O que foi isso? Hipnose?
    - No. Boone, olhe para mim.
    Ele olhou, e viu uma mulher desconhecida com os cabelos louros esvoaando ao vento. A feiticeira de mbar, pensou, entorpecido. Seria de admirar que tivesse 
achado a esttua to parecida com ela?
    Ana viu o choque a princpio de credulidade no rosto dele.
    - Quando voc perguntou se eu me casaria com voc, lhe pedi um tempo para que pudesse encontrar uma forma de contar-lhe o que sou. Estava com medo. - Ela fez 
um gesto com as mos. - Medo de que voc me olhasse exatamente da maneira como est me olhando agora. Como se nem me conhecesse.
    - Tudo isso  besteira. Escute, eu escrevo essas coisas,  o meu trabalho, e sei muito bem distingir verdade e fico.
    - Minhas habilidades para magia so bastante limitadas.
    Ainda assim, ela enfiou a mo no bolso, onde sempre levava alguns cristais. Com os olhos fixos nos dele, espalhou-os na palma da mo. Lentamente, os cristais 
comearam a brilhar, o prpura da ametista escurecendo, o rosado do quartzo iluminando-se, o verde da malaquita reluzindo. Ento, as pedras levantaram no ar, por 
cinco, dez centmetros e comearam a girar, rodopiando e formando flashes de luz.
    - Morgana  mais talentosa com estas coisas - ela disse.
    Boone ficou olhando para os cristais que tornaram a cair na mo dela, tentando encontrar uma explicao lgica.
    - Morgana tambm  feiticeira?
    - Ela  minha prima - Ana afirmou, simplesmente.
    - Ento Sebastian...
    - O dom de Sebastian  a vidncia.
    Ele no queria acreditar, mas era impossvel descartar o que vira com seus prprios olhos.
    - Sua famlia - comeou. - Aqueles truques mgicos que seu pai fez...
    - A magia em sua forma mais pura. - Ana tornou a guardar os cristais no bolso. - Como j lhe disse, meu pai tem muitos talentos. Bem como o restante de ns, 
cada um  sua prpria maneira. Somos feiticeiros. Todos ns. - Ana tentou alcan-lo, mas Boone recuou. - Sinto muito.
    - Voc sente muito? - Profundamente abalado, Boone passou as mos pelos cabelos. Aquilo s podia ser um sonho, um pesadelo. Mas estava realmente parado ali, 
em seu terrao, sentindo o vento e ouvindo o barulho do mar. - Isso  timo.  timo. Voc sente muito. Mas, por qu, Ana? Por ser o que , ou por achar que isso 
no  importante o suficiente para ser mencionado?
    - No lamento ser o que sou. - O orgulho fez com que endireitasse o corpo. - Lamento por ter inventado desculpas para no lhe contar. E lamento, mais do que 
tudo, que voc no possa mais me ver da maneira que me via dois dias atrs.
    - O que esperava? Acha que posso simplesmente esquecer o que est me dizendo e prosseguir a partir de agora? Aceitar o fato de que a mulher que amo  algo que 
saiu de um dos meus livros de histrias e no pensar mais nisso?
    - Eu sou exatamente a mesma que era ontem, e como serei amanh.
    - Uma feiticeira.
    - Sim. - Ela cruzou os braos. - Uma feiticeira, nascida para curar. No preparo mas envenenadas, nem seduzo criancinhas para casas de chocolate.
    - E isso deveria deixar-me mais tranqilo?
    - Nem eu tenho o poder de fazer isso. Como eu lhe disse, ns todos somos responsveis pelo nosso prprio destino. - Mas ela sabia que o seu destino estava nas 
mos dele. - Voc pode fazer sua escolha.
    Ele esforava-se para acreditar, mas simplesmente no conseguia.
    - Voc precisou de um tempo para me dizer isso. Bem, eu juro que preciso de um tempo para decidir o que fazer a respeito. - Ele comeou a andar, mas parou de 
repente. - Jessie. Jessie est na casa de Morgana.
    Ana sentiu como se um punhal fosse cravado em seu corao.
    - Ah, sim, com minha prima, a feiticeira. - Uma nica lgrima deslizou pelo seu rosto. - O que acha que Morgana vai fazer? Lanar uma maldio em sua filha? 
Atir-la numa torre e trancar a porta?
    - No sei o que pensar. Pelo amor de Deus, acabei de descobrir que estou vivendo num conto de fadas! O que posso pensar?
    - O que quiser - Ana respondeu, cansada. - No posso mudar o que eu sou. Nem mesmo por voc. E tambm no vou ficar aqui, enquanto voc me olha como se eu fosse 
um monstro!
    - Eu no...
    - Quer que eu lhe diga como voc est se sentindo? - ela perguntou, enquanto uma outra lgrima caa. - Trado, com raiva, ferido. E desconfiado do que eu sou, 
do que posso ou irei fazer.
    - Meus sentimentos so propriedade minha - ele disparou de volta, abalado. - No quero ser invadido desta forma.
    - Eu sei. E se eu desse um passo na sua direo, agora, se tentasse toc-lo como mulher, voc se afastaria de mim. Portanto, vou nos poupar deste constrangimento. 
Boa noite, Boone.
    Quando ela saiu do terrao, encaminhando-se para as sombras do jardim, ele no conseguiu cham-la.
    
    
    CAPTULO 12
    
    - Imagino que voc ainda esteja um pouco aturdido. - Nash recostou na grade de madeira do terrao de Boone, desfrutando de uma cerveja e da brisa fresca da noite.
    - Eu nunca estive um pouco aturdido - Boone retrucou. - Escute, Nash, talvez eu seja um sujeito um tanto limitado, mas descobrir que a minha vizinha  uma feiticeira 
deixou-me um bocado abalado.
    - Especialmente porque est apaixonado pela sua vizinha.
    - Sim, especialmente por isso. Eu jamais teria acreditado numa coisa destas. E quem acreditaria? Mas vi o que ela fez com Jessie. Depois, comecei a juntar mais 
alguns detalhes... - Ele riu, sem humor. - s vezes ainda acordo no meio da noite e acho que foi tudo um sonho. - Aproximou-se da grade e apoiou-se, escutando o 
barulho do mar. - No devia ser real. Ela no pode ser real.
    - Por que no? Vamos l, Boone,  nossa funo ampliar um pouco este conceito de realidade.
    - Pois acho que j foi ampliado demais - Boone salientou. - Alm disso, o que fazemos  para livros e filmes.  diverso, Nash, e no a vida real.
    -  a minha vida, agora.
    Boone suspirou.
    - Sim, imagino que sim. Mas voc no... nunca questionou, nunca preocupou-se com isso?
    -  claro que sim. Achei que ela estava zombando de mim, at o momento em que Morgana atirou-me para o teto e deixou-me pendurado ali. - A lembrana o fez sorrir, 
enquanto Boone fechava os olhos. - Morgana no  do tipo sutil. E uma vez que percebi que estava tudo bem, foi uma loucura, entende?
    - Loucura - Boone repetiu.
    - Sim. Isto , passei a maior parte da minha vida inventando histrias sobre este tipo de coisas, e l estava eu, casado com uma boa e honesta feiticeira. Com 
o sangue dos duendes e tudo.
    - Sangue dos duendes. - O termo fez com que a cabea de Boone girasse. - Isso no o incomoda?
    - Por que deveria me incomodar?  isso que faz com que ela seja como , e eu a amo. Tenho de admitir que ainda fico um tanto em dvida com relao s crianas. 
Assim que comearem a crescer, a se desenvolver, vou ficar em minoria...
    - Os gmeos. - Boone teve de obrigar-se a fechar a boca. - Est me dizendo que aqueles bebs so... sero...
    - Com toda certeza. Mas, Boone, eles no tero verrugas no rosto, nem comearo a cacarejar. Apenas tm algo a mais. Mel tambm est grvida. Confirmou h pouco 
tempo. Mel  a garota mais sensata e decidida que conheo. E est vivendo com Sebastian como se tivesse passado a vida inteira ao lado de um vidente.
    - Ento o que voc est dizendo : "Relaxe, Boone, qual  o seu problema?"
    Nash sentou no banco de ferro.
    - Sei que no  fcil.
    - Deixe-me perguntar-lhe uma coisa... Em que ponto do seu relacionamento com Morgana ela lhe contou sobre... como direi... sobre esta herana?
    - Logo-no incio. Eu estava fazendo pesquisas para um enredo e ouvi falar dela. Sabe como as pessoas esto sempre me falando sobre coisas estranhas.
    - , eu sei.
    - No que eu acreditasse, mas pensei que poderia conseguir uma boa entrevista. E...
    - E quanto a Mel e Sebastian?
    - No sei lhe dizer com certeza, mas Mel conheceu-o quando uma cliente dela quis contratar um vidente. - Nash franziu a testa. - Sei aonde voc quer chegar, 
e tem toda razo. Talvez Ana devesse ter-lhe contado tudo desde o comeo.
    Boone emitiu um riso abafado.
    - Talvez?
    - Certo, ela devia ter esclarecido tudo. Mas voc no conhece toda a histria. Morgana contou-me que Ana apaixonou-se por um sujeito, alguns anos atrs. Ela 
tinha apenas vinte anos, eu acho, e era louca por ele. O sujeito era mdico e Ana teve a idia de que poderiam trabalhar juntos, que ela poderia ajud-lo. Contou-lhe 
tudo, e ele terminou o relacionamento. Da pior maneira possvel. Ao que parece, a reao dele foi um bocado violenta e, com aquele dom de empatia que ela possui, 
torna-se realmente vulnervel s... bem, s ms vibraes, digamos. Ana ficou muito mal. E, a partir da, decidiu que ficaria sempre sozinha. - Ao ver que Boone 
permanecia em silncio, prosseguiu: - Escute, eu no posso lhe dizer o que deve fazer, ou como se sentir. S quero que saiba que Ana jamais faria qualquer coisa 
para magoar voc, ou Jessie, de propsito. Ela simplesmente  incapaz disso.
    Boone olhou na direo da casa ao lado. As janelas estavam fechadas e escuras, como estiveram por mais de uma semana.
    - Onde ela est?
    - Ana queria afastar-se daqui por algum tempo. Dar um descanso a todos, por assim dizer.
    - No a vi mais, desde a noite em que ela me contou. Nos primeiros dias, achei que seria bom se ficasse longe dela. - Boone sentiu uma pontada de culpa. - No 
deixei que Jessie fosse procur-la, tambm. Ento, h uma semana, ela partiu.
    - Foi para a Irlanda. Mas prometeu voltar antes do Natal.
    Porque suas emoes ainda estavam  flor da pele, Boone limitou-se a assentir.
    - Pensei em levar Jessie para Indiana, antes das festas. Apenas por um ou dois dias. Talvez eu consiga resolver tudo isso at que todos estejamos de volta.
    
    - Vspera de Natal. - Padrick provou a bebida temperada com especiarias, estalou a lngua e suspirou. - A melhor noite do ano. - Enchendo um copo, entregou-o 
 filha. - Ponha um pouco de cor em suas faces, minha querida.
    - E fogo no meu sangue, pela maneira como voc prepara esta bebida. - Mas Ana sorriu, e experimentou. - No  incrvel como os gmeos cresceram?
    - , sim. - Padrick no se deixava enganar pelo tom alegre na voz da filha. - No suporto ver a minha princesa to triste.
    - No estou triste. - Ela apertou-lhe a mo. - Estou bem, papai, de verdade.
    - Posso transform-lo num asno roxo para voc, querida. Teria o maior prazer.
    - No. - Sabendo que ele estava brincando apenas um pouco, beijou-o no nariz. - E voc prometeu que no falaramos sobre isso, depois que todos chegassem. 
    - Sim, mas...
    - Prometeu - Ana lembrou-o, e afastou-se para ajudar a me no fogo.
    Ela estava contente por estar com a casa cheia das pessoas que amava, com o barulho da famlia. Havia os aromas que ela sempre associava com o Natal. Canela, 
noz-moscada, o pinheiro, as amoras. Quando chegara em casa, alguns dias antes, havia mergulhado nos preparativos. Enfeitar a rvore, embrulhar os presentes, assar 
biscoitos. Tudo e qualquer coisa para no pensar no fato de que Boone havia partido.
    Para no pensar que fazia mais de um ms que no falava com ele.
    Mas iria sobreviver. J decidira o que fazer e recusava-se a permitir que sua infelicidade estragasse a reunio de famlia.
    - Ficamos muito felizes por voc ter decidido voltar para a Irlanda conosco, querida. - Maureen abaixou-se e beijou a testa da filha. - Se  realmente o que 
deseja.
    - Senti muita falta da Irlanda - Ana limitou-se a dizer. - Acho que o pato est quase pronto. - Abriu o forno e, depois de dar uma boa aspirada no aroma, assentiu. 
- Mais dez minutos - previu. - Vou verificar se j levamos tudo para a mesa.
    - Ela nem quer discutir o assunto - Maureen falou para o marido, quando Ana saiu da cozinha.
    - Sabe o que eu gostaria de fazer, minha pombinha? Gostaria de pegar aquele rapaz e mand-lo direto para alguma ilha congelada. S por um ou dois dias,  claro.
    - Se Ana no fosse to sensvel a respeito dessas coisas, eu preparia uma boa poo para traz-lo de volta.
    Padrick deu uma palmadinha no traseiro da esposa.
    - Voc tem um talento to delicado, Maureen. O sujeito estaria ajoelhado aos ps dela antes que conseguisse piscar... o que seria a melhor coisa que poderia 
acontecer para ele e para aquela linda filhinha dele. - Suspirou, acariciando o brao da esposa. - Mas Ana jamais nos perdoaria por isso. Teremos de deix-la resolver 
tudo do seu prprio jeito.
    
    Frustrado por um dia inteiro de vos cancelados e atrasados, Boone bateu a porta do carro com fora. O que mais queria, agora, era um longo banho quente, mas 
o que teria de enfrentar era uma noite interminvel lidando com aquelas terrveis palavras: "Ajuda de um tcnico poder ser necessria".
    Se o Papai Noel fosse chegar antes do amanhecer, Boone Sawyer teria de fazer hora extra naquela noite.
    - Vamos, Jessie. - Ele esfregou os olhos cansados. Estivera viajando por mais de doze horas, se contasse as seis que passara procurando um vo disponvel no 
aeroporto. - Vamos levar estas coisas para dentro.
    - Ana est na casa dela. - Jessie agarrou-se ao brao dele e apontou na direo das luzes. - Olhe, papai. Aquele  o carro de Morgana, o de Sebastian, e o carro 
grande e preto tambm est l. Todo mundo est na casa de Ana.
    - Estou vendo. - Boone sentiu o corao bater mais rpido. Ento, sentiu-o parar de repente, ao ver a placa de "Vende-se" no gramado da frente da casa dela.
    - Vamos at l desejar feliz Natal, papai? Por favor, papai. Estou com saudade de Ana. - Jessie fechou a mo em torno do pingente de zircnia. - No podemos 
ir dizer feliz Natal?
    - Est bem. - Mantendo os olhos fixos na placa da imobiliria, ele segurou a mo da filha. - Sim, vamos fazer isso. Agora mesmo.
    Ela iria mudar-se?, pensou enquanto atravessava o gramado com passos duros. Assim, sem mais nem menos. Vender a casa, quando ele no estava olhando, e simplesmente 
ir embora? Pois iria ver s uma coisa.
    - Papai, estamos andando muito depressa. - Jessie teve de correr para acompanh-lo. - E voc est apertando a minha mo.
    - Desculpe-me. - Ele inspirou o ar profundamente, e depois soltou-o. Pegou Jessie no colo e subiu os degraus da varanda de dois em dois. A batida que deu na 
porta era mais uma exigncia do que um aviso de chegada.
    Foi Padrick quem atendeu, o rosto redondo oculto sob uma falsa barba branca, e um capuz vermelho na cabea calva. No instante em que viu Boone, o brilho em seu 
olhar desapareceu.
    - Ora, ora, vejam s quem est aqui. Corajoso o bastante para enfrentar a todos ns de uma vez, no ? No somos to gentis e educados quanto a minha Ana.
    - Gostaria de v-la.
    - Ah, gostaria, no ? Espere aqui mesmo. - Padrick enviou seu sorriso mais encantador para Jessie e tirou-a do colo de Boone. - Parece que ganhei um duende 
de verdade, desta vez. Vou lhe dizer uma coisa, criana, corra at aquele pinheiro e veja se no h um pacote com o seu nome, embaixo dele.
    - Ah, eu posso? - Jessie deu um abrao apertado em Padrick, depois voltou-se para o pai. - Posso, por favor?
    -  claro que sim! - Como o de Padrick, o sorriso de Boone desapareceu no instante em que Jessie se afastou. - Eu vim falar com Ana, sr. Donovan.
    - Bem, pois est falando comigo. O que voc acha que faria, se algum pegasse o corao de Jessie e o espremesse at secar? - Embora fosse bem mais baixo que 
Boone, Padrick avanou, cerrando os punhos. - Eu no vou usar nada alm destes punhos com voc. Tem a minha palavra de feiticeiro. Agora, prepare-se!
    Boone no sabia se ria ou se recuava.
    - Sr. Donovan...
    - Pode dar o primeiro soco. - Padrick empinou o queixo, parecendo um Papai Noel indignado. - Vou lhe dar esta chance, o que  muito mais do que voc merece. 
Passei noites e noites ouvindo minha menina chorar por um tipo como voc, e isso fez meu sangue ferver. Disse a mim mesmo, Padrick, quando voc estiver cara a cara 
com aquele patife, ter de demoli-lo.  uma questo de orgulho. - Deu um soco no ar, que o fez girar nos calcanhares e passou a mais de dez centmetros do rosto 
de Boone. - Ela no me deixou dar um jeito naquele outro bastardo que a fez sofrer tanto, mas voc eu consegui apanhar!
    - Sr. Donovan - Boone tentou novamente, desviando-se dos socos que chegavam a esmo. - No quero machuc-lo.
    - Machucar-me! Ele no quer me machucar! - Padrick estava danando, agora, inflamado pelo insulto. O capuz de Papai Noel escorregou por cima dos seus olhos. 
- Ora, eu poderia vir-lo do avesso! Poderia transform-lo numa carpa! Poderia...
    - Papai! - Com uma nica e firme palavra, Ana deteve a torrente de ameaas.
    - V para dentro, princesa. Este  um assunto de homens.
    - No vou admitir que vocs fiquem brigando na porta da minha casa, na vspera de Natal. Agora, pare com isso.
    - Deixe-me apenas mand-lo para o Plo Norte. S por uma ou duas horas...
    - Voc no vai fazer nada disso. - Ana saiu para a varanda e pousou a mo no ombro dele. - Agora, entre e se comporte, se no vou pedir a Morgana que d um jeito 
em voc.
    - Bah! Posso lidar com uma feiticeira que tem metade da minha idade.
    - Mas ela  mais rpida. - Ana beijou-lhe o rosto. - Por favor, papai. Faa isso por mim.
    - Eu jamais lhe recusaria qualquer coisa - Padrick murmurou. Ento, voltou os olhos furiosos para Boone. - Mas tome cuidado, meu rapaz. - Apontou-lhe o dedo 
gorducho. - Quando algum apronta com um Donovan, apronta com todos. -Fazendo um muxoxo de desprezo, foi para dentro.
    - Desculpe - Ana falou, fixando um sorriso radiante no rosto. - Ele  do tipo superprotetor.
    - Eu percebi. - Desde que, no fim das contas, ele no precisaria se proteger, Boone no soube o que fazer com as mos e enfiou-as nos bolsos. - Eu queria... 
Ns queramos lhe desejar um feliz Natal.
    - Sim, Jessie acabou de me dizer. - Ficaram um instante num silncio desconfortvel. - No gostaria de entrar, beber alguma coisa?
    - No quero atrapalhar. A sua famlia... - Boone ofereceu-lhe o que poderia passar por um sorriso. - Tambm no quero arriscar minha vida.
    At mesmo o mais leve sorriso desapareceu dos olhos dela. 
    - Papai no teria feito mal algum a voc. No  do nosso feitio.
    - Eu no quis dizer... - O que diabos ele deveria dizer a ela? - No o culpo por estar zangado, e no quero que voc ou sua famlia sintam-se pouco  vontade 
com minha presena. Eu poderia apenas... - Ele virou-se um pouco e a placa no gramado chamou-lhe novamente a ateno. E sua raiva cresceu na mesma proporo. - O 
que diabos  aquilo?
    - No est bastante claro? Estou vendendo a casa. Decidi voltar para a Irlanda.
    - Irlanda? Acha que pode simplesmente fazer as malas e ir embora?
    -Acho, sim. Boone, me desculpe, mas o jantar est quase pronto e preciso entrar.  claro que voc  bem-vindo para juntar-se a ns.
    - Se voc no parar de ser assim to gentil e bem-educada, eu vou... - Ele interrompeu-se outra vez. - No quero jantar - disse, por entre os dentes. - Quero 
falar com voc.
    - Este no  o momento.
    - Ns faremos com que seja o momento.
    Boone a fez recuar para a soleira da porta no instante em que Sebastian apareceu no vestbulo, logo atrs dela.
    Pousando a mo levemente no ombro de Ana, ele enviou um olhar de aviso para Boone.
    - H algum problema por aqui, Anastsia?
    - No. Convidei Boone e Jessie para o jantar, mas ele no vai poder reunir-se a ns.
    - Que pena. - O sorriso de Sebastian reluzia de ironia. - Bem, ento, at logo, Boone.
    Mas Boone bateu a porta atrs dele, fazendo com que toda a balbrdia dentro da sala silenciasse como uma luz que se apaga. Vrios pares de olhos viraram-se na 
direo deles. Boone estava furioso demais para reparar que, agora, os olhos de Sebastian tinham um brilho de divertimento.
    - Fiquem fora do meu caminho - Boone falou, em voz baixa. - Todos vocs. No dou a mnima para quem vocs so, nem o que so. - Pronto para enfrentar at uma 
horda de drages, agarrou a mo de Ana. - Voc vem comigo.
    - A minha famlia...
    - Eles podem muito bem esperar. - Puxou-a novamente para fora.
    De seu cantinho embaixo da rvore de Natal, Jessie viu-os sair com os olhos arregalados.
    - Papai est zangado com Ana?
    - No. - Sentindo-se to feliz com o que acabara de ver que seria capaz de chorar, Maureen deu um abrao na menina. - Acho que eles foram arrumar um outro presente 
de Natal para voc.  um presente que voc ir gostar, mais do que de todos os outros.
    
    L fora, Ana esforava-se para acompanh-lo.
    - Pare de me puxar, Boone!
    - No estou puxando - ele disse, enquanto arrastava-a pelo gramado lateral.
    - No quero ir com voc. - Ela sentiu as lgrimas, que julgara terem acabado, ardendo em seus olhos. - No quero passar por tudo isso novamente.
    - Voc acha que basta colocar uma placa estpida na frente de casa e resolver tudo? - Guiado pela luz da lua, ele levou-a pelos degraus de pedra que davam na 
praia. - Que pode jogar uma bomba na minha cabea e depois sair correndo para a Irlanda?
    - Eu posso fazer o que quiser.
    - Feiticeira ou no, voc deveria ter pensado nisso um pouco mais.
    - Voc nem queria falar comigo.
    - Estou falando com voc agora.
    - Bem, agora no quero mais falar. - Ana desvencilhou-se dele e comeou a subir os degraus de volta.
    - Mas vai escutar. - Boone segurou-a pela cintura e praticamente jogou-a por cima do ombro. - E vamos fazer isso bem longe da casa, para que eu tenha certeza 
de que sua famlia no est me espionando. - Depois de descer outra vez a escada, deixou-a no cho. - No d nenhum passo - avisou - ou pego voc novamente.
    - Eu no lhe daria este prazer. - Ela lutava contra as lgrimas, preferindo a raiva. - Voc quer dar a ltima palavra. Tudo bem. Mas eu tambm vou falar. Aceito 
a sua posio sobre o nosso relacionamento. S lamento profundamente que voc tenha achado necessrio manter Jessie longe de mim.
    - Eu nunca...
    - No se atreva a negar, Boone. Voc no permitiu que ela me visitasse, por dias antes que eu partisse para a Irlanda. - Pegou um punhado de pedras e atirou-as 
no mar. - Afinal, no ia querer sua garotinha chegando nem perto de uma feiticeira. - Girou o corpo, encarando-o. - Pelo amor de Deus, Boone, o que pensou que eu 
iria fazer? Por acaso me viu esfregando as mos e rindo como uma megera, dizendo "Vou agarr-la, minha lindinha, e aproveitar para pegar o cachorrinho tambm"?
    Os lbios dele curvaram-se num sorriso, diante de tal imagem, mas ela tornou a dar-lhe as costas.
    - Me d um voto de confiana, Ana.
    - Eu dei. Um pouco mais tarde do que deveria, mas dei. E voc recusou-o. Exatamente como eu sabia que faria.
    - Sabia? - Embora j estivesse se cansando daquela coreografia, Boone a fez virar-se novamente. - Como sabia qual seria a minha reao? Olhou na sua bola de 
cristal, ou apenas pediu para seu primo vidente dar uma espiada na minha cabea?
    - Nenhum dos dois - ela respondeu, com o pouco de controle que lhe restava. - Eu jamais pediria para Sebastian olhar, e tambm no olhei porque me parecia injusto. 
Eu sabia que voc iria recusar porque...
    - Porque outra pessoa j fez isso.
    - No importa. O fato  que voc no me aceitou como sou.
    - Eu s precisava de um tempo para absorver tudo o que voc me disse.
    - Eu vi o jeito como voc olhou-me naquela noite. - Ana fechou os olhos. - E j havia visto aquela expresso antes. Ah, voc no foi to cruel quanto Robert. 
No me acusou, no me insultou, mas o resultado foi o mesmo. "Fique longe de mim e dos meus. No aceito o que voc ." - Ela cruzou os braos com fora, tentando 
abrigar-se do frio que a invadia.
    - No vou pedir desculpas por ter tido uma reao que, na minha opinio, foi perfeitamente normal. E, diabos, Ana, eu estava cansado, quase louco. Passei tantas 
horas vendo voc deitada naquela cama, to plida e imvel. Tinha tanto medo de que voc no fosse voltar. E, quando voltou, eu no sabia mais como trat-la. Ento, 
voc me contou tudo aquilo.
    Ana tentou acalmar-se, sabendo que seria o melhor.
    - Concordo que o momento no foi o mais apropriado. Eu no estava forte o bastante para lidar com seus sentimentos.
    - Se tivesse me contado antes...
    - Teria feito alguma diferena? - Ana encarou-o. - No, acho que no. Mas voc est certo, eu deveria ter-lhe contado antes. Sei que no foi justo, e foi fraqueza 
da minha parte deixar que as coisas fossem to longe.
    - No ponha palavras na minha boca, Ana. A no ser que voc esteja... como  que diz? Conectada. Se no est conectada comigo, no sabe o que estou sentindo. 
E me magoa muito saber que voc no confiou em mim.
    Ela assentiu, enxugando as lgrimas do rosto. 
    - Eu sei. Sinto muito.
    - Voc estava com medo?
    - Eu lhe disse que era uma covarde.
    Boone franziu a testa, vendo os cabelos dela esvoaarem em torno do seu rosto, enquanto ela olhava para o mar iluminado pela lua.
    - Sim, voc disse. Naquela noite em que viu o meu desenho. O desenho da bruxa. Isso deixou-a muito aborrecida. 
    Ela encolheu os ombros.
    - s vezes sou sensvel demais. Foi apenas uma coisa de momento. Eu estava...
    - Prestes a me contar tudo, e ento acabei assustando-a com a minha bruxa malvada.
    - Ficou ainda mais difcil lhe contar.
    - Porque voc  uma covarde - ele falou simplesmente, observando-a. - Deixe-me perguntar uma coisa, Ana. O que, exatamente, voc fez com Jessie naquele dia?
    - Conectei-me com ela. Eu j lhe disse que tenho o dom da empatia.
    - Voc se feriu, sentiu dores. Eu vi. - Boone pegou-a pelo brao, fazendo com que ela o encarasse. - Num certo momento voc gritou, como se a dor fosse insuportvel. 
Depois, desmaiou e dormiu como se estivesse em coma, por mais de um dia.
    - Isso faz parte. - Ana tentou afastar a mo dele. Doa demais ser tocada quando suas defesas estavam destrudas. - Quando os ferimentos so muito graves, h 
um preo a pagar.
    - Sim, eu entendo. Perguntei  Morgana. Ela me disse que voc poderia ter morrido. E que o risco era muito grande, porque Jessie... - Ele mal podia dizer. - 
Porque Jessie estava quase morta. E voc no estava apenas consertando alguns ossos quebrados, mas sim trazendo-a de volta do limite, da beirada do precipcio. E 
disse tambm que esta  uma linha quase invisvel e que  bem fcil para que o curandeiro se transforme na vtima.
    - O que queria que eu fizesse? Que a deixasse morrer?
    -  o que uma pessoa covarde teria feito. Acho que a sua definio de covardia  diferente da minha. O fato de ter medo no a transforma numa covarde. Voc poderia 
ter-se salvado e deixado que Jessie se fosse.
    - Eu amo Jessie.
    - Eu tambm. E voc a trouxe de volta para mim. Nem mesmo lhe agradeci.
    - Acha que quero sua gratido? - Era demais, Ana pensou. S faltava agora ele oferecer-lhe sua piedade. - No quero. O que fiz foi por minha prpria vontade, 
porque no podia suportar a idia de perd-la. E no podia suportar a idia de que voc...
    - Eu? - ele perguntou num tom suave.
    - Que voc perdesse algum que ama. No quero receber agradecimentos por isso.  o que eu sou.
    - Voc j havia feito algo assim, antes? Como fez com Jessie?
    - Sou uma curandeira. Eu curo as pessoas. Ela estava... - Ainda doa muito, s de pensar. - Ela estava indo embora. Usei o meu dom para traz-la de volta.
    - No foi assim to simples. - Boone deslizava as mos nos braos dela, delicadamente. - Nem mesmo para voc. Voc sente mais do que as outras pessoas. Morgana 
me disse isso, tambm. Quando fica sem as suas defesas,  mais vulnervel  emoo,  dor,  tudo.  por isso que no chora. - Com a ponta do dedo, enxugou uma lgrima 
do rosto dela. - Mas est chorando.
    - Voc j sabe de tudo o que h para saber. De que adianta tudo isso, agora?
    - Adianta porque eu quero voltar quela noite em que voc me contou tudo. Quero que tenha a oportunidade de abrir-se comigo.
    - Voc est pedindo demais. - Ana sufocou um soluo e escondeu o rosto entre as mos. - Ah, deixe-me em paz. Deixe-me em paz, Boone. Ser que no v o quanto 
me faz sofrer?
    - Sim, eu estou vendo. - Ele abraou-a, tentando acalm-la enquanto ela lutava para se desvencilhar. - Voc emagreceu, est plida. Quando olho em seus olhos 
vejo cada resqucio da dor que lhe causei. No sei como apagar esta dor. E no sei como seu pai conseguiu impedir-se de me amaldioar com o que quer que tivesse 
em seu arsenal de encantamentos.
    - No podemos usar nossos poderes para fazer o mal. Isso vai contra tudo o que somos. Agora, por favor, deixe-me ir.
    - No posso. Quase pensei que poderia. Ela mentiu para mim, eu tentava me convencer. Traiu minha confiana. Ela no  real. - Boone a segurou com firmeza, afastando-a 
para que pudesse fit-la. - Mas isso no importa. Nada disso importa. Se  magia, no quero perd-la. No posso perder voc, Ana. Eu a amo. Amo tudo o que voc . 
Por favor... - Tocou-lhe o rosto com os lbios, sentindo o gosto das lgrimas. - Por favor, volte para mim.
    A sbita esperana foi quase insuportvel. Ana colou-se a ele.
    - Eu quero acreditar.
    - Eu tambm. - Boone segurou-lhe o rosto entre as mos, beijando-a novamente. - E acredito. Acredito em voc, em ns. Se este  o meu conto de fadas, quero ficar 
nele at o final.
    Ana encarou-o.
    - Voc  capaz de aceitar tudo isso? Todos ns?
    - Conclu que estou bastante capacitado para fazer exatamente isso. Mas,  claro, talvez leve algum tempo para convencer seu pai a no fazer nada drstico com 
minha anatomia. - Boone traou o contorno dos lbios dela, que sorriam. - Eu no sabia se voc iria tornar a sorrir para mim, Ana. Diga que ainda me ama. Conceda-me 
isto, tambm.
    - Sim, eu amo voc, Boone. - Os lbios dela tremeram sob os dele. - Sempre.
    - Nunca mais vou faz-la sofrer. - Ele enxugou-lhe as lgrimas. - Vou compensar toda mgoa que lhe causei.
    - J passou. - Ana tomou-lhe as mos. - J passou. Ns temos o amanh.
    - No chore mais.
    Ela sorriu, passando a mo no rosto. 
    - No. Eu nunca choro.
    Boone pegou as mos molhadas de lgrimas e beijou-as.
    - Voc disse que eu poderia perguntar novamente. J se passou bem mais de uma semana, mas espero que no tenha esquecido a resposta que me prometeu.
    - Eu no esqueci.
    - Ponha as mos aqui. - Ele pressionou as palmas das mos dela em seu prprio corao. - Quero que sinta o que estou sentindo. - Entrelaou os dedos nos dela. 
- A lua est quase cheia. A primeira vez em que a beijei, foi sob a luz da lua. Fiquei encantado, enfeitiado. E vou continuar assim para sempre. Preciso de voc, 
Ana.
    Ela podia sentir a fora daquele amor transbordando para dentro de si.
    - E voc me possui, Boone.
    - Quero casar com voc. Dividir com voc a filha que voc trouxe de volta para mim. Ela  sua, tanto quanto  minha. E teremos outros filhos. Amo voc como , 
Anastsia. E juro que vou am-la enquanto viver.
    Ela ergueu os braos para ele. Cabelos como o sol. Olhos como fumaa azulada. Raios de luar brilhando em torno dela como uma aurola prateada.
    - Eu estive sempre esperando por voc.
    
    
    EPLOGO
    
    Solitrio, no topo de um penhasco e encarando o mar revolto, o Castelo Donovan mantinha-se altivo. Naquela noite escura, relmpagos iluminavam e estremeciam 
o negrume do cu, e o vento sacudia as vidraas em forma de diamante das janelas.
    L dentro, o fogo ardia e crepitava nas lareiras. Aqueles que eram feiticeiros, e aqueles que no eram, reuniam-se, esperando pelo grito indignado que anunciaria 
uma nova vida.
    - Voc est trapaceando, vov? - Jessie perguntou a Padrick, enquanto ele examinava as prprias cartas.
    - Trapaceando? - Ele soltou uma alegre gargalhada e franziu a testa. -  claro que sim! Pode "pescar".
    Ela riu e tirou uma carta da pilha.
    - A vov Maureen disse que voc sempre rouba no jogo. - Jessie inclinou a cabea para o lado. - Voc era mesmo um sapo?
    - Eu era, sim, minha querida. Um belo sapo verde.
    A menina aceitou a respsta exatamente como aceitava todas as maravilhas da sua convivncia com os Donovan. Afagou Daisy, que ressonava descansando a cabea 
dourada em seu colo.
    - Ser que pode se transformar novamente num sapo, para que eu veja?
    - Talvez lhe faa uma surpresa. - Ele piscou e transformou as cartas que tinha na mo num arco-ris de pirulitos. 
    - Ah, vov... - ela disse, indulgente.
    - Sebastian? - Mel desceu correndo pela escadaria principal e gritou para dentro da sala, onde o marido bebericava um conhaque enquanto observava o jogo de cartas. 
- Shawn e Keely esto acordados e querendo ateno. Estou ocupada demais com Ana.
    - J vou subir. - O orgulhoso pai de trs meses deixou o copo na mesa e foi trocar fraldas.
    Nash balanava nos joelhos Allysia, que estava com um ano, enquanto Donovan sentava no colo de Matthew, brincando com seu relgio de bolso.
    - Cuidado para que ele no ponha o relgio na boca - Nash avisou. - Ou que o faa desaparecer. Estamos tendo um certo trabalho para mant-lo na linha.
    - Ora, o garoto precisa abrir as asas.
    - Se  o que diz... Mas outro dia, quando fui peg-lo no bero, ele estava rodeado de coelhos. De verdade.
    - Puxou a me - Matthew comentou, orgulhoso. - Ela nos deixava loucos.
    Allysia recostou no peito do pai e sorriu. No mesmo instante, Daisy acordou e aproximou-se dela. Em segundos, todos os ces e gatos da casa entravam na sala 
em bandos.
    - Ally - Nash falou, com um suspiro. - Lembra-se de que combinamos que seria um bichinho de cada vez?
    - Cachorrinho. - Abaixando-se, Ally apertou delicadamente as orelhas do enorme lobo prateado. - Gatinho.
    - Na prxima vez, s um, entendeu? - Nash retirou o gato que subira em seu ombro, e empurrou outro que pulara no brao da poltrona. - Duas semanas atrs, ela 
chamou todos os vira-latas da vizinhana para o nosso quintal. Venham, seus monstrinhos. - Levantou-se, pegando Allysia e depois Donovan, carregando-os sob o brao 
como se fossem duas bolas de futebol. - Acho que est na hora de irem para a cama.
    - Histria - Donovan exigiu. - Tio Boone.
    - Ele est ocupado. Vai ter de se contentar com seu velho pai.
    
    Boone realmente estava ocupado, vendo um milagre acontecer. O quarto estava repleto de velas e ervas, aquecido pelo fogo que ardia na lareira. Ele segurava a 
mo de Ana com fora, enquanto o filho deles vinha ao mundo.
    Depois, quando nasceu a filha.
    Depois, quando nasceu o segundo filho.
    - Trs! - Ele ficava repetindo sem parar, at mesmo quando Bryna acomodou os bebs em seu colo. - Trs! - J haviam lhe dito que seriam trigmeos, mas ele no 
acreditara.
    -  de famlia. - Exausta, e mais feliz do que nunca, Ana pegou um dos bebs que Morgana lhe entregava. Pressionou os lbios levemente no rostinho sedoso. - 
Agora, temos dois de cada.
    Boone sorriu para a esposa, enquanto Mel acomodava o terceiro beb no colo dela.
    - Vamos precisar de uma casa maior. 
    - Daremos um jeito.
    - Quer que eu chame os outros? - Bryna perguntou. - Ou prefere descansar um pouco, primeiro?
    - No, por favor. - Ana inclinou a cabea, recostando-a no brao de Boone. - Pea a todos que subam.
    E todos entraram no quarto ao mesmo tempo, fazendo barulho demais. Ana abriu espao na cama enorme, para que Jessie sentasse ao seu lado, depois passou um dos 
bebs para o colo da menina.
    - Este  o seu irmo Trevor. Sua irm, Mauve. E seu outro irmo, Kyle.
    - Eu vou cuidar deles. Sempre. Olhe, vov, agora ns temos uma famlia grande.
    - Sim, de fato, minha gatinha. - Padrick assoou o nariz ruidosamente. Enxugou os olhos e virou-se para Boone. - Ainda bem que no quebrei sua cara quando tive 
a chance.
    - Tome. - Boone entregou-lhe um dos bebs. - Segure o seu neto.
    - Ah, Maureen, minha pombinha, veja isso. Ele tem os meus olhos!
    - No, meu sapinho. Os olhos dele so iguais aos meus.
    Comearam a discutir, enquanto o restante dos Donovan tomava o partido de um ou de outro. Boone passou o brao nos ombros da esposa e abraou sua famlia, enquanto 
seu filho provava pela primeira vez o leite da me. Os relmpagos formavam riscos luminosos no cu, o vento soprava e o fogo crepitava na lareira.
    Em algum lugar, nas florestas profundas, no alto das montanhas, as fadas danavam.
    
    
    E eles foram felizes para sempre!
    
    
    Fim
Digitalizado por
Projeto Romances
    Projeto_romances@yahoo.com.br
    
    
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Encantado                Nora Roberts




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Projeto Romances                
